{"id":354840,"date":"2025-05-29T16:17:24","date_gmt":"2025-05-29T19:17:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354840"},"modified":"2025-05-29T16:18:57","modified_gmt":"2025-05-29T19:18:57","slug":"abolicao-ou-so-mudou-o-nome-da-escravatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/abolicao-ou-so-mudou-o-nome-da-escravatura\/","title":{"rendered":"Aboli\u00e7\u00e3o, ou s\u00f3 mudou o nome da escravatura?"},"content":{"rendered":"<p>Dizem que no 13 de maio de 1888 o Brasil ficou mais bonito. Assinaram um papel, a Princesa balan\u00e7ou a pena com ternura, e puf! acabou a escravid\u00e3o. Isso, claro, se voc\u00ea estiver lendo um livro de Hist\u00f3ria que nunca viu a cor de um morador de favela.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a tal aboli\u00e7\u00e3o s\u00f3 mudou o nome das correntes. Antes eram de ferro, vis\u00edveis, pesadas e declaradas. Hoje, s\u00e3o de carne, concreto e sil\u00eancio. Chama-se sal\u00e1rio m\u00ednimo. Chama-se CEP. Chama-se \u201csuspeito em atitude suspeita\u201d. Chama-se escola p\u00fablica sem teto. Chama-se metr\u00f4 lotado para o sub\u00farbio \u00e0s 6 da manh\u00e3. Chama-se corpo preto sendo confundido com amea\u00e7a antes de ser reconhecido como humano.<\/p>\n<p>O 13 de maio \u00e9 um daqueles dias em que a gente precisa desassinar a hist\u00f3ria e reescrev\u00ea-la com a m\u00e3o suada de quem sobrevive. Porque n\u00e3o houve liberta\u00e7\u00e3o houve abandono. O Estado soltou as correntes, mas n\u00e3o estendeu a m\u00e3o. Libertou sem reparar, sem incluir, sem se responsabilizar. Como quem diz \u201cv\u00e1\u201d, mas sem dizer \u201cpra onde\u201d.<\/p>\n<p>E fomos. E ainda vamos. A passos duros, com a mem\u00f3ria dos troncos nas costas e o som do tambor nos cora\u00e7\u00f5es. Porque sim, resistir tamb\u00e9m \u00e9 dan\u00e7ar. Tamb\u00e9m \u00e9 amar, rir alto, fazer meme, criar moda, ocupar universidades, refazer a linguagem, recontar os afetos, escrever poesia enquanto esperam que sangremos em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O Dia Nacional de Den\u00fancia Contra o Racismo n\u00e3o \u00e9 uma nota de rodap\u00e9 na hist\u00f3ria: \u00e9 a corre\u00e7\u00e3o da mentira institucionalizada. Porque at\u00e9 hoje, o racismo \u00e9 estrutural n\u00e3o \u00e9 desvio, \u00e9 regra. Ele est\u00e1 nos muros invis\u00edveis que separam bairros, nos olhares desconfiados nos elevadores, na aus\u00eancia de nomes pretos nas prateleiras das livrarias, nas filas de emprego que come\u00e7am e terminam sem um \u201cboa sorte\u201d para quem tem a pele marcada por heran\u00e7as for\u00e7adas.<\/p>\n<p>A \u201caboli\u00e7\u00e3o\u201d foi o in\u00edcio de outra escravid\u00e3o: a de ter que provar todos os dias que merecemos o que nos foi roubado. Liberdade virou meta, n\u00e3o presente.<\/p>\n<p>13 de maio, n\u00e3o celebro. Reivindico. Retorno. Reescrevo. Porque ainda somos n\u00f3s os de pele, hist\u00f3ria e voz preta que puxamos este pa\u00eds nas costas, com ou sem assinatura da princesa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem que no 13 de maio de 1888 o Brasil ficou mais bonito. Assinaram um papel, a Princesa balan\u00e7ou a pena com ternura, e puf! acabou a escravid\u00e3o. Isso, claro, se voc\u00ea estiver lendo um livro de Hist\u00f3ria que nunca viu a cor de um morador de favela. 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