{"id":354943,"date":"2025-05-31T13:05:29","date_gmt":"2025-05-31T16:05:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354943"},"modified":"2025-05-31T13:06:48","modified_gmt":"2025-05-31T16:06:48","slug":"mulheres-extrativistas-enfrentam-preconceito-mas-sempre-geram-renda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mulheres-extrativistas-enfrentam-preconceito-mas-sempre-geram-renda\/","title":{"rendered":"Mulheres extrativistas enfrentam preconceito, mas sempre geram renda"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de dez anos, quando sa\u00edam para colher murumuru (fruto de uma palmeira tropical) na Floresta Amaz\u00f4nica, as mulheres da comunidade S\u00e3o Jos\u00e9, no norte da Ilha do Maraj\u00f3 (PA), ouviam de seus maridos e vizinhos a pergunta: &#8220;As loucas j\u00e1 v\u00e3o pro mato?&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo com as cr\u00edticas e o preconceito, elas n\u00e3o desistiram e seguiram em frente, como lembra a extrativista Benedita de Oliveira. &#8220;Quando n\u00f3s come\u00e7amos a trabalhar, foi muito dif\u00edcil. Muito dif\u00edcil mesmo. A gente sa\u00eda para o mato, deixava tudo em casa e, quando chegava, ainda tinha que fazer janta, ajeitar tudo. E n\u00f3s fomos muito criticadas pelos homens. S\u00f3 que n\u00f3s n\u00e3o ligamos&#8230; n\u00f3s continuamos!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Quando a fruta do murumuru cai do p\u00e9, ela acumula uma em cima da outra, a\u00ed ela vai fermentando e cria um mau cheiro, n\u00e9? Por isso que a gente era chamada por eles de &#8216;mulheres fedorentas&#8217;, porque eles diziam que aquele mau cheiro entranhava&#8221;, acrescenta Jesu\u00edna Batista Rosa (\u00e0 esquerda na foto principal).<\/p>\n<p>Mas, por baixo da polpa &#8220;fedorenta&#8221;, at\u00e9 ent\u00e3o consumida apenas como alimento por animais selvagens e de cria\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma semente muito valorizada pela ind\u00fastria cosm\u00e9tica. \u00c0 medida que a renda familiar foi aumentando, os homens foram obrigados a reconhecer e respeitar o trabalho de suas companheiras. Antes disso, nenhuma das mulheres que fazem parte do grupo de extrativistas do Maniva \u2013 nome do igarap\u00e9 do Rio Amazonas que banha a comunidade \u2013 tinha renda pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A grande maioria delas se casou ainda na adolesc\u00eancia e se dedicava exclusivamente aos cuidados da casa e dos filhos, quando a oportunidade de se tornar extrativista apareceu, por demanda da empresa de cosm\u00e9ticos Natura, em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (Ataic), outra comunidade do Maraj\u00f3. Elas tamb\u00e9m fornecem ucuuba, fruto de uma grande \u00e1rvore, que tamb\u00e9m cai depois de maduro e geralmente \u00e9 retirado da superf\u00edcie dos rios.<\/p>\n<p>Lourdes Batista Silva hoje est\u00e1 afastada da colheita por quest\u00f5es de sa\u00fade, mas, al\u00e9m de ser uma das primeira extrativistas do Maniva, tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel por integrar muitas das outras participantes.<\/p>\n<p>&#8220;Eu falo de boca cheia que tenho orgulho da minha pessoa. Eu me casei com 15 anos, minha primeira filha eu tive com 16, e eu nunca deixei de trabalhar. Mas, quando a gente come\u00e7ou a vender o murumuru, muita coisa mudou, porque a\u00ed eu passei a n\u00e3o depender de homem.&#8221;<\/p>\n<p>Benedita tamb\u00e9m sente o mesmo orgulho: &#8220;N\u00f3s, mulheres, a gente n\u00e3o era vista, n\u00e3o era reconhecida. Fomos discriminadas, mas agora acabou. Eu at\u00e9 consegui realizar o meu sonho de viajar de avi\u00e3o. Foi a coisa mais incr\u00edvel do mundo que eu tenho na mem\u00f3ria! E agora este ano conseguimos essa casa aqui, n\u00e9? Cada uma de n\u00f3s ajudou um pouquinho.&#8221;<\/p>\n<p>A casa mencionada por ela se trata do Centro de Produ\u00e7\u00e3o das Mulheres do Maniva, onde as sementes s\u00e3o quebradas e armazenadas, at\u00e9 somarem uma quantidade suficiente para serem levadas pela Ataic e vendidas para a Natura. Elas explicam o processo: as sementes de murumuru s\u00e3o separadas da polpa ainda na floresta, lavadas no rio e colocadas para secar por alguns dias em uma estufa. Depois, as sementes s\u00e3o quebradas e as am\u00eandoas \u2013 tanto do murumuru quanto da ucuuba \u2013, ensacadas para envio.<\/p>\n<p>Recentemente o grupo conseguiu aposentar o martelo que era usado para quebrar as sementes manualmente \u2013 e que tamb\u00e9m acabava machucando alguns dedos durante o processo \u2013, ap\u00f3s ganhar uma m\u00e1quina que agilizou muito o trabalho. Gra\u00e7as \u00e0s mulheres extrativistas, a comunidade tamb\u00e9m recebeu pain\u00e9is de energia solar, que melhoraram muito a qualidade de vida da comunidade.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sempre tive o desejo de ajudar na renda familiar, e a natureza me ajudou a n\u00e3o ser uma mulher s\u00f3 do lar, a entender que o trabalho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para o homem. N\u00e3o! N\u00f3s mulheres somos capazes de nos transformar e transformar o mundo tamb\u00e9m&#8230; juntas, unindo as nossas for\u00e7as. Porque n\u00f3s somos fortes e n\u00f3s damos as nossas m\u00e3os&#8221;, conta Dionete da Silva Cardoso (\u00e0 direita na foto principal).<\/p>\n<p>&#8220;Eu sempre digo para minhas filhas, se tiver alguma coisa no nosso caminho, vamos dar um jeitinho de afastar e vamos prosseguir&#8221;, completa ela.<\/p>\n<p>O desafio agora \u00e9 enfrentar os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que j\u00e1 est\u00e3o sendo sentidos pelas popula\u00e7\u00f5es da floresta, como lembra Dionete: &#8220;Este ano, acho que a gente vai conseguir fazer uma entrega boa por causa da chuva. Mas, nos \u00faltimos dois anos, foi mais dif\u00edcil por causa da seca. Quando ela acontece, diminui a produ\u00e7\u00e3o do murumuru e de todas as esp\u00e9cies de frutos que n\u00f3s temos aqui.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de dez anos, quando sa\u00edam para colher murumuru (fruto de uma palmeira tropical) na Floresta Amaz\u00f4nica, as mulheres da comunidade S\u00e3o Jos\u00e9, no norte da Ilha do Maraj\u00f3 (PA), ouviam de seus maridos e vizinhos a pergunta: &#8220;As loucas j\u00e1 v\u00e3o pro mato?&#8221; Mesmo com as cr\u00edticas e o preconceito, elas n\u00e3o desistiram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":354944,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-354943","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=354943"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354943\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":354947,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354943\/revisions\/354947"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/354944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=354943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=354943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=354943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}