{"id":354996,"date":"2025-06-01T08:44:41","date_gmt":"2025-06-01T11:44:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354996"},"modified":"2025-06-01T08:45:53","modified_gmt":"2025-06-01T11:45:53","slug":"pablo-que-nem-neruda-era-nasceu-mesmo-foi-ricardo-eliezer-neftali-basoalto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pablo-que-nem-neruda-era-nasceu-mesmo-foi-ricardo-eliezer-neftali-basoalto\/","title":{"rendered":"Pablo, que nem Neruda era, nasceu mesmo foi Ricardo Eliezer Neftal\u00ed Basoalto"},"content":{"rendered":"<p>Pela primeira vez, desde que assumi esta p\u00e1gina dominical em <strong>Notibras<\/strong> para falar do Lado B de poetas, cronistas, romancistas, contistas e outros fingidores, trago aos leitores um perfil internacional.<\/p>\n<p>Com o compromisso de apresentar o autor, fugindo do meramente aned\u00f3tico e do pitoresco, falaremos de Pablo Neruda, esse fingidor maior, que at\u00e9 fingia ser outra pessoa diferente da que foi, pois nasceu Ricardo Eliezer Neftal\u00ed Basoalto, em Parral, Chile, em 12 de julho de 1904, mas, um dia, virou Pablo Neruda. Ficou um pouco obscura a origem de seu pseud\u00f4nimo liter\u00e1rio, mas h\u00e1 ind\u00edcios de que o prenome foi escolhido por ser comum em seu pa\u00eds, e o sobrenome homenageava um remoto escritor da Tchecoslov\u00e1quia. O poeta deixava assim, de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Ricardo Basoalto ficou para tr\u00e1s, nas terras chuvosas e distantes do Chile, na posi\u00e7\u00e3o do filho do ferrovi\u00e1rio Jos\u00e9 del C\u00e1rmen e enteado da boa \u201cmamadre\u201d Trindade Marverde \u2013 quanta poesia no nome de fam\u00edlia de sua madrasta. Don Jos\u00e9 conduzia um trem de lastro, que \u00e9 aquele respons\u00e1vel por distribuir, ao longo do leito da ferrovia, o elemento granular de pedra que sustenta os dormentes sobre os quais se assentam os trilhos. Trabalho fatigante e perigoso, geralmente trazia \u00e0 companhia do pai do poeta homens indesej\u00e1veis, ex-presidi\u00e1rios, autores de crimes muito graves e que, no entanto, povoaram a inf\u00e2ncia e a imagina\u00e7\u00e3o do poeta como uma lembran\u00e7a amena.<\/p>\n<p>Aos oito anos, fez seu primeiro poema que, lido a seus pais na hora do jantar, levantou d\u00favidas se fora mesmo ele que havia escrito. A vida pobre dos homens do interior do Chile, as chuvas intermin\u00e1veis, o c\u00e9u escuro e o mar gelado, as casas simples de seu bairro, foram sempre a fonte inicial de inspira\u00e7\u00e3o e deslumbramento.<\/p>\n<p>Cresceu e estudou letras e literatura na Universidade do Chile, em Santiago.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, o pa\u00eds buscava reestruturar sua diplomacia, conectar-se com novos mercados, e renovava o corpo diplom\u00e1tico. Por um amigo, foi levado a certo ministro do governo em busca de um cargo. Nomeado diplomata, sem qualquer express\u00e3o social, foi enviado para terras remotas na \u00c1sia, onde servia seu pa\u00eds com dignidade e pobreza, enquanto ia compondo poemas.<\/p>\n<p>Depois, ocupou o posto na Espanha, justamente na \u00e9poca da guerra civil que levou Franco ao poder, algo que marcou profundamente a vida e a lira do poeta.<\/p>\n<p>Interrompeu a carreira para ingressar na pol\u00edtica de seu pa\u00eds, onde elegeu-se senador pelo partido comunista do Chile. O mandato terminou com a proibi\u00e7\u00e3o e encerramento do partido, quando, para n\u00e3o ser preso, Neruda escondeu-se alguns meses em Valpara\u00edso, antiga cidade portu\u00e1ria, at\u00e9 conseguir cruzar, a cavalo e a p\u00e9, a fronteira gelada com a Argentina, de onde, partindo para a Europa, passou a denunciar os desmandos do presidente Gabriel Gonz\u00e1les Videla (1898-1980).<\/p>\n<p>Teve tr\u00eas mulheres. A primeira, Maria Antonieta Hagenaar (1900-1965), de origem holandesa, foi m\u00e3e de sua \u00fanica filhinha, Malva Marina (1934-1943), morta ainda crian\u00e7a. Depois, a importante artista argentina D\u00e9lia Del Carril (1884-1989), a quem conheceu na \u00e9poca espanhola. Por fim, seu grande amor, Matilde Urrutia (1912-1985), profissional pioneira na fisioterapia pedi\u00e1trica no Chile, com quem ficou at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-354998 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/7004bb26-3a14-4742-a6ac-041e36d9914c-300x141.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/7004bb26-3a14-4742-a6ac-041e36d9914c-300x141.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/7004bb26-3a14-4742-a6ac-041e36d9914c-1024x480.jpg 1024w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/7004bb26-3a14-4742-a6ac-041e36d9914c-768x360.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/7004bb26-3a14-4742-a6ac-041e36d9914c.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>Neruda era um homem de coragem e a\u00e7\u00e3o. Mesmo perseguido pol\u00edtico, n\u00e3o renunciou a estar ao lado dos homens pobres e explorados de seu pa\u00eds, de todos os outros pa\u00edses, aos quais sempre cantou, lutando por seu protagonismo e liberdade.<br \/>\nInvejava os poetas brasileiros, pois esses tinham ao Brasil, de onde muito gostava e visitou v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Numa dessas visitas, em casa de Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), degustava um car\u00edssimo vinho franc\u00eas, sob o olhar de seu colega brasileiro, burgu\u00eas, industrial e de direita, que, de p\u00e9, descascava uma tangerina. Foi ent\u00e3o que Schimdt perguntou a Neruda:<\/p>\n<p>\u2014 No mundo de amanh\u00e3, ser\u00e1 dado aos homens beber um vinho como esse?<\/p>\n<p>Ao que o chileno respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Si, ciertamente.<\/p>\n<p>Da \u00faltima vez que veio ao Brasil, em 1968, entrevistado por nossa Clarice Lispector (1920-1977), revelou que admirava a poesia brasileira na pessoa de Vinicius de Moraes (1913-1980), Geir Campos (1924-1999) e outros, mas que tinha especial predile\u00e7\u00e3o pelo poema \u201cO Defunto\u201d, do m\u00e9dico e memorialista mineiro Pedro Nava (1903-1984). Neruda o sabia de cor, e fazia quest\u00e3o de recit\u00e1-lo por todo lado que passava.<\/p>\n<p>Nesta ocasi\u00e3o, viajou a Ouro Preto, Belo Horizonte e Congonhas com Vinicius. Uma \u00fanica vez vi a linda foto do poeta, tomada ao lado da est\u00e1tua do profeta Daniel atribu\u00edda a Aleijadinho, no adro da igreja do Bom Jesus, em Congonhas. Nunca consegui recuperar esta foto para meu acervo. Nesta viagem, Neruda refestelou-se com a culin\u00e1ria e a boa cerveja gelada brasileira, sempre acompanhado por seu bom amigo Vinicius, com o qual, al\u00e9m de copos, tamb\u00e9m compartilhava a profiss\u00e3o de diplomata.<\/p>\n<p>Em visita ao s\u00edtio do arquiteto e paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), no Rio de Janeiro, Neruda brincou com o fato de que, toda vez que encontrava Vinicius, o via com uma mulher mais nova do que a anterior. O chileno, ao lado de Matilde, viu uma menina de uns 12 anos passar, brincando, perto de Vinicius, e disse para o brasileiro:<\/p>\n<p>\u2014 Mira! Es tu pr\u00f3xima esposa.<\/p>\n<p>Quando p\u00f4de, finalmente, viver sossegado no Chile, Neruda passou a morar entre Santiago e Isla Negra, onde mantinha uma casa de frente para o mar, numa praia selvagem e intocada. Viajava frequentemente para ela, a bordo de um modelo simples da Citro\u00ebn, conduzido pela esposa. Ali, viveu momentos de muita inspira\u00e7\u00e3o e poesia. Cada objeto, cada canto era decorado com prop\u00f3sito e aten\u00e7\u00e3o por ele e Matilde, que compravam objetos e antiguidades em feiras e brech\u00f3s.<\/p>\n<p>Candidato a presidente do Chile, tinha boas chances de ganhar, mas acabou por abrir m\u00e3o da candidatura para apoiar Salvador Allende (1908-1973).<\/p>\n<p>A casa de Isla Negra ficava com o port\u00e3o aberto, at\u00e9 o dia em que, cercada de jornalistas que vinham perturbar sua paz quando souberam que ele havia recebido a indica\u00e7\u00e3o para o pr\u00eamio Nobel de literatura, Neruda passou-lhe um cadeado, como num ato cerimonial e solene, depois de ver fot\u00f3grafos enfiarem a cabe\u00e7a pela janela da cozinha enquanto tomava seu caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Neste tempo, gozava de prest\u00edgio pol\u00edtico e boa posi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. Chegou a ser embaixador do Chile em Paris, cargo ao qual foi conduzido em 1971, mas em 1972, doente, retornou para seu pa\u00eds, durante as convuls\u00f5es sociais cujo desfecho j\u00e1 conhecemos: o Governo Allende terminou com um golpe militar e o presidente morreu no Pal\u00e1cio da Moeda.<\/p>\n<p>Dias depois do golpe, em 23 de setembro de 1973, Neruda morria numa cl\u00ednica no centro de Santiago. Oficialmente, sucumbiu ao c\u00e2ncer de pr\u00f3stata. Anos mais tarde, pesquisas confirmaram que foi envenenado.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que os regimes de exce\u00e7\u00e3o tratam seus inimigos, cuja arma geralmente \u00e9 uma cabe\u00e7a que pensa.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 81, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela primeira vez, desde que assumi esta p\u00e1gina dominical em Notibras para falar do Lado B de poetas, cronistas, romancistas, contistas e outros fingidores, trago aos leitores um perfil internacional. 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