{"id":355004,"date":"2025-06-01T06:33:13","date_gmt":"2025-06-01T09:33:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355004"},"modified":"2025-06-01T09:13:36","modified_gmt":"2025-06-01T12:13:36","slug":"a-noite-que-contador-descobriu-akasha-e-ficou-feliz-como-pinto-no-lixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-noite-que-contador-descobriu-akasha-e-ficou-feliz-como-pinto-no-lixo\/","title":{"rendered":"A noite que contador descobriu Akasha e ficou feliz como pinto no lixo"},"content":{"rendered":"<p>Sabem o Fado tropical? Nele, Ruy Guerra e Chico Buarque ensinam que \u201ch\u00e1 dist\u00e2ncia entre inten\u00e7\u00e3o e gesto\u201d. Raras vezes essa dist\u00e2ncia foi maior que no caso de Odoacro. A inten\u00e7\u00e3o: tornar-se um poeta famoso, ou antes, um compositor de renome. O gesto, ou melhor, o n\u00e3o gesto? A total incapacidade de cometer at\u00e9 mesmo uma rima chinfrim, do tipo amor e flor.<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7o ideia por que Odoacro, Dod\u00f4 para os chegados, decidiu enveredar pelas trilhas \u00edngremes da poesia. Desconfio que fosse uma tentativa, talvez a \u00faltima, de seduzir o sexo oposto. Miss\u00e3o espinhosa. Aos 60 anos, contador em vias de se aposentar, Dod\u00f4 era um amontoado de diminutivos, um sujeito baixinho, gordinho, meio vesguinho, carequinha.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o era chatinho, ao contr\u00e1rio, era chato pra ded\u00e9u. Ele via as tietes, nos shows, se derretendo para int\u00e9rpretes e compositores; testemunhava como mulheres de todas as idades, nos saraus de poesia que frequentava, se ofereciam a poetas p\u00e1lidos, de olhos fundos e longos cabelos, e babava de inveja e desejo encruado. Da\u00ed o seu sonho, dos mais \u00famidos que se possa imaginar.<\/p>\n<p>Odoacro bem que tentava, mas at\u00e9 ele, desprovido do menor senso cr\u00edtico, era for\u00e7ado a admitir que aquelas maltra\u00e7adas, que maltra\u00e7ava na tela do notebook, n\u00e3o eram poesia nem aqui nem na casa do chap\u00e9u. E seguia em frente, tristonho, envelhecendo a cada dia \u2013 um poeta\/compositor incapaz de rimar e pior, de pegar uma mulher, jovem ou madura, bonitinha ou monstrenga, tanto fazia, para uma noite de del\u00edrio.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que ouviu um jovem meio Nova Era, no escrit\u00f3rio de contabilidade em que trabalhava, falar em registro ak\u00e1shico. Na vol\u00fapia de angariar adeptos, o ap\u00f3stolo novaerista discursava para quem quisesse ouvir:<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, galera, os registros ak\u00e1shicos, ou simplesmente Akasha, cont\u00eam a mem\u00f3ria viva de todos os pensamentos, projetos, emo\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias de cada pessoa, n\u00e3o apenas na exist\u00eancia atual, mas tamb\u00e9m nas vidas passadas e nas futuras. E&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; As obras dos poetas e compositores est\u00e3o nesses registros? \u2013 cortou Dod\u00f4, tremendo de emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e3o sim, seu Odoacro \u2013 respondeu respeitosamente o rapaz. (N\u00e3o era tatu, n\u00e3o ia chamar pelo apelido um membro s\u00eanior da firma.)<\/p>\n<p>&#8211; E como ter acesso a essas coisas?<\/p>\n<p>&#8211; Existem t\u00e9cnicas comprovadas, seu Odoacro. O senhor pode encontrar algumas delas at\u00e9 na internet&#8230;<\/p>\n<p>Dod\u00f4 n\u00e3o continuou o interrogat\u00f3rio e afastou-se. Estava fascinado, os tais registros poderiam fazer dele um compositor de responsa!<\/p>\n<p>De volta a sua casa, navegou rapidamente pelas p\u00e1ginas da rede com instru\u00e7\u00f5es para o acesso \u00e0 Akasha. N\u00e3o aprendeu muita coisa, n\u00e3o teve paci\u00eancia, verificou apenas que o contato ocorria nos sonhos. Antes de dormir, acendeu uma vela pro seu anjo da guarda (nunca se sabe, melhor prevenir, n\u00e9 n\u00e3o?), deixou papel e caneta sobre a mesinha de cabeceira e rezou fervorosamente por uma comunica\u00e7\u00e3o livre e desimpedida. Suplicou, em especial, que pelo canal da poesia jorrassem versos magn\u00edficos. E tratou de dormir.<\/p>\n<p>Acordou por volta das 4 da madrugada, suando frio, em plena crise de criatividade. Pegou o papel e a caneta e, em transe, psicografou as seguintes palavras:<\/p>\n<p>\u201cTatu subiu no pau. \u00c9 mentira de mec\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>E tornou a adormecer.<\/p>\n<p>Ao acordar, examinou sua produ\u00e7\u00e3o psicografada. N\u00e3o sabia o que era \u201cmec\u00ea\u201d, provavelmente, um nome ou apelido. Os outros termos, conhecia todos. Desconfiou que a m\u00fasica\/o poema j\u00e1 existia (de fato, a composi\u00e7\u00e3o, definida como \u201csamba \u00e0 moda paulista\u201d pelo compositor, Eduardo Souto, havia surgido em 1923), mas pl\u00e1gio n\u00e3o era, e sim um presente dos deuses. Depois, em outros sonhos, viriam novos versos, at\u00e9 estar de posse da obra completa. Mais tarde ainda, quem sabe, viriam estrofes mais envolventes, que seduziriam todas as mulheres. (\u201cMentira minha\u201d, pensou, \u201cbastava uma, qualquer uma\u201d).<\/p>\n<p>E Odoacro, contador de 60 anos, amontoado de diminutivos, poeta\/compositor prestes a vir \u00e0 luz, futuro garanh\u00e3o, abriu um largo sorriso, feliz como um pinto no lixo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabem o Fado tropical? 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