{"id":355209,"date":"2025-06-04T08:33:25","date_gmt":"2025-06-04T11:33:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355209"},"modified":"2025-06-04T08:34:34","modified_gmt":"2025-06-04T11:34:34","slug":"a-vida-e-cheia-de-letras-em-forma-de-livro-mutante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-vida-e-cheia-de-letras-em-forma-de-livro-mutante\/","title":{"rendered":"A vida \u00e9 cheia de letras em forma de livro mutante"},"content":{"rendered":"<p>Ouvi, de uma pessoa, a frase: \u201csua vida \u00e9 t\u00e3o po\u00e9tica, cheia de boa literatura.\u201d<\/p>\n<p>Em parte, \u00e9 verdade. Porque eu procuro que assim seja. Triste ou feliz, tranquilo ou preocupado, gosto de estar sempre com um livro \u00e0 m\u00e3o. Escolho, quando saio de f\u00e9rias ou em viagens curtas de feriado prolongado, o meu \u201clivro de viagem\u201d. H\u00e1 muitos anos n\u00e3o viajo sem levar um. E, se por acaso esque\u00e7o, logo providencio a compra de uma edi\u00e7\u00e3o qualquer, de boa qualidade, no lugar em que chego.<\/p>\n<p>N\u00e3o que, durante o cotidiano, eu n\u00e3o tenha meus momentos de afastamento severo de qualquer bela p\u00e1gina. Quem conseguir\u00e1 se conservar poeta quando o carro apresenta problemas, quando descobre que esqueceu de pagar a conta de luz ou quando sai para comprar um telefone sem fio? Ainda assim, dependendo do dia, consigo ver \u2014 como hoje vi \u2014 poesia nas coisas mais simples: numa fila de mercado ou numa casa antiga e deteriorada que observei andando pela rua.<\/p>\n<p>Lembro da primeira vez em que, nas ladeiras \u00edngremes e vielas tortas de Ouro Preto, eu caminhava com o Romanceiro da Inconfid\u00eancia, de Cec\u00edlia Meireles; ou de quando, sob o sol escaldante da Sic\u00edlia, lia para mim mesmo o Sicilianas, de Murilo Mendes, acompanhado de Tempo Espanhol. Certa feita, retirei-me com meu filho para um remoto hotel-fazenda no interior do Rio de Janeiro, apenas para terminar de ler, num clima adequado, A Menina Morta, de Corn\u00e9lio Pena.<\/p>\n<p>Quando muito jovem, com tend\u00eancias \u00e0 filosofia m\u00edstica que mais tarde abandonei, encontrei, maravilhado, na prateleira de uma livraria no Parque das \u00c1guas de S\u00e3o Louren\u00e7o, no sul de Minas, o exemplar de uma complicad\u00edssima obra de um autor su\u00ed\u00e7o. Ele pregava a exist\u00eancia de uma energia que envolve todas as coisas e permite ao homem conhecer o passado remoto do planeta e do universo. Eu tinha, ent\u00e3o, menos de vinte anos \u2014 e talvez tenha sido aquele o meu primeiro livro viajante.<\/p>\n<p>Agora, pensando bem, percebo que pouco viajei na companhia de meu poeta preferido de todos os tempos, Augusto Frederico Schmidt. Talvez porque Augusto j\u00e1 me acompanhe quase todos os dias, seja em poemas, seja em prosa \u2014 como em As Florestas \u2014, seja no seu Canto da Noite, um dos meus prediletos.<\/p>\n<p>Um dia, no entanto, ainda quero experimentar a sensa\u00e7\u00e3o de viajar comigo mesmo \u2014 digo, comigo em forma de literatura. Almejo levar A Verdade nos Seres, meu primeiro (e \u00fanico) livro de poemas, para algum lugar especial.<\/p>\n<p>Talvez o livro, nesse caso, me acompanhe como met\u00e1fora: uma viagem comigo e em dire\u00e7\u00e3o a mim mesmo. Um tempo de observa\u00e7\u00e3o, de escuta da voz interna que todos temos. Sem absolutamente nada com que me preocupar, exceto meus pr\u00f3prios pensamentos e vontades. E, ainda, para buscar alguns momentos de solid\u00e3o criativa \u2014 aquele tipo de isolamento de onde brotam versos que, em meio a outras tarefas e compromissos, acabariam esquecidos.<\/p>\n<p>Ali, no meio das p\u00e1ginas, percorrendo versos t\u00e3o bem conhecidos, mas lidos por olhos renovados, talvez at\u00e9 pensasse que tivessem sido escritos por outro. Algu\u00e9m com hist\u00f3ria, gostos ou cren\u00e7as semelhantes aos meus, mas que, ainda assim, fosse outro. Algu\u00e9m que lesse, pela primeira vez e sem reservas \u2014 afinal, nunca somos in\u00e9ditos para n\u00f3s mesmos \u2014 as estrofes que falam de um jardineiro capaz de parar um trem com sua caneta e de construir monumentos \u00e0s pessoas que o esqueceram; de algu\u00e9m que caminha, reflexivo, por antigas tumbas num velho cemit\u00e9rio; que recebe clientes at\u00f4nitos com sua vers\u00e3o de poeta; que descreve uma viagem de tropeiros; que morre em casa, ap\u00f3s revisitar mem\u00f3rias inc\u00f4modas \u00e0 beira de uma praia; ou que conversa longamente com seus filhos enquanto pensa em construir um painel eletr\u00f4nico que o coloque em contato com seus ancestrais.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, penso que preciso tentar. Ou, ent\u00e3o, reaprender a me ver com o olhar da primeira vez. E n\u00e3o com o olhar desgastado e exausto de quem, inevitavelmente, \u00e9 sua pr\u00f3pria companhia aonde quer que v\u00e1. Assim, talvez fosse poss\u00edvel descobrir algo que ainda valha a pena p\u00f4r, sob a forma de verso, dentro de um novo livro.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvi, de uma pessoa, a frase: \u201csua vida \u00e9 t\u00e3o po\u00e9tica, cheia de boa literatura.\u201d Em parte, \u00e9 verdade. Porque eu procuro que assim seja. Triste ou feliz, tranquilo ou preocupado, gosto de estar sempre com um livro \u00e0 m\u00e3o. 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