{"id":355271,"date":"2025-06-05T07:02:11","date_gmt":"2025-06-05T10:02:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355271"},"modified":"2025-06-05T07:04:14","modified_gmt":"2025-06-05T10:04:14","slug":"eu-nao-me-movo-de-mim-por-sucesso-material","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/eu-nao-me-movo-de-mim-por-sucesso-material\/","title":{"rendered":"Eu n\u00e3o me movo de mim por sucesso material"},"content":{"rendered":"<p>Este pequeno texto sobreveio de uma necessidade de refletir de como a busca pelo \u201csucesso material\u201d para a constru\u00e7\u00e3o da felicidade pessoal se tornou, no meu ponto de vista, um caminho de vida est\u00e9ril e g\u00e9lido.<\/p>\n<p>Muitas vezes me perguntei sobre o sentido da vida humana, inclusive j\u00e1 escrevi at\u00e9 alguns textos sobre isto. Mas, certo \u00e9 que, me sinto, e n\u00e3o por raras vezes, sufocada pelos meus pr\u00f3prios pensamentos e sentimentos. Tento me mover, a todo instante, de mim mesma (HILST, 2022), mas, felizmente, n\u00e3o obtenho \u00eaxito, por mais que eu me esforce nesse sentido (abaixo explico o porqu\u00ea do \u2018felizmente\u2019). \u00c9 como se eu estivesse, constantemente, sendo atropelada por uma massa de mem\u00f3rias e sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Diante das redes sociais, me deparo com um mundo que diz que sou o que tenho, e se o que tenho pode se perder, quem, ent\u00e3o, sou eu? (FROMM, 2014, p. 115). Me sinto, literalmente, um peixe fora d\u2019agua nesta civiliza\u00e7\u00e3o. Minha exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9, em absoluto, estruturada em torno da propriedade (mas, confesso, que j\u00e1 foi um dia). De fato, o meu \u201ceu\u201d n\u00e3o pode ser reduzido pelo uso ou pela poss\u00edvel perda. Raz\u00e3o pela qual, meu pensamento, com frequ\u00eancia, se dirige a focar-me nas pessoas que amo (ainda que algumas tenham partido fisicamente desta exist\u00eancia). Muitas vezes, caminhando ou dirigindo, sinto o gosto do caf\u00e9 com leite quentinho que a minha amada e falecida vovozinha Ruth me preparava todas as manh\u00e3s, bem como de sua can\u00e7\u00e3o di\u00e1ria para que eu o ingerisse: \u201ccaf\u00e9 com leite \u00e9 a nossa refei\u00e7\u00e3o, neres de arroz, necas de feij\u00e3o\u201d, o que, indubitavelmente, torna mais doce o meu dia. Da mesma forma, penso nos meus pais, no timbre af\u00e1vel de suas vozes, as recorda\u00e7\u00f5es dos beijos \u201cbabados\u201d na ma\u00e7\u00e3 do rosto(risos), os abra\u00e7os acolhedores, orienta\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo as reprimendas se tornam verdadeiras luzes no meu caminho (o qual, assim como de todos, \u00e9 marcado por muitos percal\u00e7os e dores). Sem contar na inunda\u00e7\u00e3o de sentimentos que me atingem com os in\u00fameros registros mentais de momentos (inclusive at\u00e9 os mais triviais) com meus amados irm\u00e3os, sobrinhos, cunhados, primas, tias-av\u00f3s, \u2018filhos caninos\u2019 e marido. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que eles refor\u00e7am o caminho da vida que, para mim, vale a pena ser vivida.<\/p>\n<p>Durante a semana, sempre quando o meu ex\u00edguo tempo me permite (em raz\u00e3o do trabalho), almo\u00e7o com os meus pais ou saboreio um bolinho de chuva feito pela minha querida tia-av\u00f3. Al\u00e9m disso, coloro o dia vendo, em tempo real, ainda que seja por uma tela de celular, meus irm\u00e3os e sobrinhos. Afora as risadas provenientes das descontra\u00e7\u00f5es com meus amigos na sala dos professores ou em restaurantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se estou conseguindo alcan\u00e7\u00e1-lo, querido leitor, por\u00e9m s\u00f3 vejo sentido na vida porque me \u00e9 permitido experimentar &#8211; mediante o exerc\u00edcio da minha liberdade individual &#8211; o amor, na acep\u00e7\u00e3o mais ampla da palavra, a\u00e7ambarcando n\u00e3o apenas os familiares, mas, em sua maioria, qualquer um que cruze o meu caminho (independentemente da fun\u00e7\u00e3o social que exer\u00e7a e de quanto capital possua em sua conta banc\u00e1ria). A vida, ao meu ver, se torna muito mais florida quando se \u00e9 capaz de transcender em dire\u00e7\u00e3o aos outros, distanciando-se do objetivo ego\u00edstico ( a qual entendo n\u00e3o ter significa\u00e7\u00e3o alguma, j\u00e1 que toda riqueza se esvair\u00e1 com a morte) de ostentar sob todas as formas poderio econ\u00f4mico e \u201csucesso material\u201d.<\/p>\n<p>O dinheiro n\u00e3o \u00e9 mais o \u00eddolo que governa a minha experi\u00eancia corp\u00f3rea, porque se assim o fosse, eu j\u00e1 teria, certamente, desistido da mesma e suplicado pela morte. A minha pesada e exaustiva rotina de trabalho necess\u00e1ria para conseguir viver dignamente n\u00e3o afasta a minha ess\u00eancia (quantas vezes me indaguei o sentido de toda esta jornada). Se sou o que sou, e n\u00e3o o que eu tenho, ningu\u00e9m (nem mesmo os grandes grupos econ\u00f4micos) pode amea\u00e7ar a minha identidade (FROMM, 2014, p. 116). Em outros termos, a ansiedade e inseguran\u00e7a, engendradas no perigo de se perder o que se tem (trabalho, bens, dinheiro) est\u00e3o ausentes no modo do meu ser (FROMM, 2014, p. 116). Enfim, ao tentar me mover, a todo instante, de mim mesma (HILST, 2022), ou seja, de minhas lembran\u00e7as e sentimentos de amor, felizmente, sou impedida, pois que s\u00e3o eles os \u00fanicos e leg\u00edtimos combust\u00edveis de minha energia vital, diante de um mundo extremamente materialista e destruidor da sa\u00fade mental humana, tal como \u00e9 o nosso.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA: FROMM, Erich. Ter ou Ser? 4\u00ba ed. Rio de Janeiro; LTC, 2014. HILST, Hilda. Tu n\u00e3o te moves de ti. 1 \u00ba ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2022.<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Sandra J. M. Villaverde (Instagram: @profsandra.villaverde) \u00e9 professora universit\u00e1ria e advogada criminalista no Rio de Janeiro \u2013 RJ.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este pequeno texto sobreveio de uma necessidade de refletir de como a busca pelo \u201csucesso material\u201d para a constru\u00e7\u00e3o da felicidade pessoal se tornou, no meu ponto de vista, um caminho de vida est\u00e9ril e g\u00e9lido. Muitas vezes me perguntei sobre o sentido da vida humana, inclusive j\u00e1 escrevi at\u00e9 alguns textos sobre isto. 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