{"id":355334,"date":"2025-06-06T09:50:24","date_gmt":"2025-06-06T12:50:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355334"},"modified":"2025-06-06T10:10:00","modified_gmt":"2025-06-06T13:10:00","slug":"o-que-era-elegia-ficou-sem-a-assinatura-completa-do-poeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-que-era-elegia-ficou-sem-a-assinatura-completa-do-poeta\/","title":{"rendered":"O que era Elegia ficou sem a assinatura completa do poeta"},"content":{"rendered":"<p>Manuel era poeta. Quer dizer, escrevia versos relativamente bons, que lhe valiam curtidas e alguns elogios, quando postados nas redes sociais.<\/p>\n<p>Mas isso era pouco para ele. Queria ser um poeta nacional e internacionalmente reconhecido, como seu \u00eddolo e xar\u00e1, Manuel Bandeira.<\/p>\n<p>Seu poema inesquec\u00edvel, que come\u00e7ou a crescer cada vez mais forte em seu psiquismo, era Desencanto, do Bandeira da fase pr\u00e9-modernista, com seu magn\u00edfico \u00faltimo verso: \u201cEu fa\u00e7o versos como quem morre\u201d.<\/p>\n<p>Devorado pela competi\u00e7\u00e3o que se imp\u00f4s e n\u00e3o conseguia vencer, Manuel passou a escrever febrilmente, noite e dia. Alguns poemas nasceram razo\u00e1veis, outros bons \u2013 nenhum deles usava e abusava de rimas pobres, do tipo amor-flor-dor \u2013, mas nada compar\u00e1vel ao do outro Manuel. N\u00e3o eram versos feitos como quem morria.<\/p>\n<p>Desesperado, Manuel releu Desencanto e acreditou identificar, na segunda estrofe, uma receita para produzir poemas inesquec\u00edveis. \u201cMeu verso \u00e9 sangue. Vol\u00fapia ardente&#8230;Tristeza esparsa&#8230;remorso v\u00e3o&#8230;D\u00f3i-me nas veias. Amargo e quente, cai, gota a gota, do cora\u00e7\u00e3o\u201d. Ele a tomou ao p\u00e9 da letra, ou quase, para produzir pelo menos um poema consagrador, que resistisse ao tempo e imortalizasse o seu nome.<\/p>\n<p>Preparou o ambiente, iluminando com velas o quarto onde escrevia. Um pouco s\u00e9culo XIX, reconheceu, mas n\u00e3o chegou ao ponto de utilizar uma pena. Tampouco fez concess\u00f5es ao s\u00e9culo XXI: nada de computador.<\/p>\n<p>Escreveria a m\u00e3o, com uma caneta-tinteiro, em papel branco de boa qualidade. E, para que os versos fossem sangue, doessem nas veias e ca\u00edssem, gota a gota, tratou de abrir com um punhal uma das veias do bra\u00e7o direito (era canhoto). Cortou-a fundo, atingindo outros vasos, o sangue jorrou forte.<\/p>\n<p>Os versos surgiam c\u00e9leres, enquanto o sangue escorria. Mas n\u00e3o ca\u00edam do cora\u00e7\u00e3o, e sim da mente e do talho aberto pela arma. E sim, do\u00edam-lhe nas veias, e mais ainda da veia retalhada e dos outros vasos, que transportavam sangue arterial. Eram linhas magn\u00edficas, (quase) t\u00e3o boas quanto os do outro Manuel, poeta maior. Imagens perturbadoras, contrastes instigantes \u2013 tudo isso estava presente nelas. Seria, sem d\u00favida, seu mais belo e mais profundo poema.<\/p>\n<p>Quando terminou, o sangue empo\u00e7ava o assoalho, em volta da cadeira.<\/p>\n<p>Enfraquecido, copiou as estrofes, fazendo corre\u00e7\u00f5es m\u00ednimas e caprichando na caligrafia. No final, uma \u00faltima corre\u00e7\u00e3o: trocou o t\u00edtulo Elegia por \u00daltimo poema. Cada vez mais debilitado, leu-o em voz alta, saboreando o ritmo.<\/p>\n<p>Hora de assinar. Pegou a caneta com a m\u00e3o tr\u00eamula e escreveu: Manu&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o terminou o nome.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel era poeta. Quer dizer, escrevia versos relativamente bons, que lhe valiam curtidas e alguns elogios, quando postados nas redes sociais. Mas isso era pouco para ele. Queria ser um poeta nacional e internacionalmente reconhecido, como seu \u00eddolo e xar\u00e1, Manuel Bandeira. 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