{"id":355349,"date":"2025-06-07T00:05:25","date_gmt":"2025-06-07T03:05:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355349"},"modified":"2025-06-06T20:06:44","modified_gmt":"2025-06-06T23:06:44","slug":"por-entre-mimosos-jacarandas-quando-nao-se-podia-falar-de-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/por-entre-mimosos-jacarandas-quando-nao-se-podia-falar-de-flores\/","title":{"rendered":"Por entre mimosos jacarand\u00e1s quando n\u00e3o se podia falar de flores"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em>N\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar outra hist\u00f3ria como aquela porque n\u00e3o era das que a gente inventa no papel. Quem as inventa \u00e9 a vida, e quase sempre aos golpes<\/em>\u201d. (G. Garc\u00eda M\u00e1rquez, Viver para contar)<\/p>\n<p>&#8230;<br \/>\nFoi um Deus nos acuda! Todo mundo l\u00e1 em casa chorou ao saber da not\u00edcia, num misto de surpresa e d\u00f3, quando meu nome foi estampado no Di\u00e1rio Oficial, naquele fat\u00eddico vinte e oito de abril de 1986. Era o mais recente servidor municipal punido na ordem do dia. Com direito a abertura de inqu\u00e9rito administrativo, suspens\u00e3o preventiva por noventa dias, o que significava afastamento do meu trabalho com um desconto de um ter\u00e7o no sal\u00e1rio. E a prov\u00e1vel e consequente demiss\u00e3o&#8230; a bem do servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Eu que nunca havia matado nem formiga ou barata, nem roubado tomate amassado na feira, me sentia a mais nova criminosa da cidade. Como podia? O que eu tinha feito? Uma criatura t\u00e3o direita, t\u00e3o correta, t\u00e3o \u00edntegra, como repetia e choramingava a minha m\u00e3e aos quatro cantos da casa, ser agora, dentre outros tantos diretores escolares rec\u00e9m-nomeados e em pleno exerc\u00edcio, suspeitos de terem cometido alguma irregularidade t\u00e3o extrema a esse ponto e serem massacrados? O que estava acontecendo?!<\/p>\n<p>Voltando um pouco o filme da minha vida, agora que tudo isso passou, mas que ainda pulsa na gente como marca, cicatriz funda, linha d\u2019\u00e1gua, me recordo que sempre fui boa aluna nos tempos de escola. Aplicada, estudiosa, inteligente, como diziam meus pais. Quando recebi meu primeiro diploma, o do curso normal, comecei a trilha na Educa\u00e7\u00e3o ministrando aulas no Mobral. Estudava \u00e0 noite fazendo minha faculdade de pedagogia, ajudava no or\u00e7amento de casa. Os tempos eram promissores, mas um tanto dif\u00edceis. Ingressei no servi\u00e7o p\u00fablico pra valer, no sistema de ensino da nossa cidade, numa escola de educa\u00e7\u00e3o infantil, onde logo percebi imperar um clima um tanto quanto dom\u00e9stico, nada estimulante para algu\u00e9m como eu que queria conhecer, descobrir, reinventar o cotidiano comum e desbravar novos horizontes.<\/p>\n<p>Em busca de novos caminhos, t\u00e3o almejados, fiz depois de alguns anos com diploma universit\u00e1rio na m\u00e3o, o concurso para ser ent\u00e3o diretora de escola. Entre idas e vindas, controv\u00e9rsias e dissabores, lembro-me bem que escolhi meu local de trabalho em pleno domingo junto com um mund\u00e3o de colegas. Coisas da lei. Pude ver a olhos nus naquele burburinho de indecisas escolhas que aquelas pessoas desenhavam um grupo novo, esperan\u00e7oso e otimista. N\u00e3o conhecia quase ningu\u00e9m, mas todos eram legitimados por uma reconhecida institui\u00e7\u00e3o que organizara um mais do que leg\u00edtimo concurso p\u00fablico de provas e t\u00edtulos. E todos traziam anos da experi\u00eancia garantida por terem sido professores.<\/p>\n<p>Escolhi uma escola bem distante. N\u00e3o importava. Almejava ser acolhida por um grupo de trabalho arrojado, desbravador e corajoso. Logo que iniciei, tentei levar ao p\u00e9 da letra o que eu havia proposto nos textos que fizera durante a prova escrita, no concurso. Sonhava com a ideia de envolver a todos em torno de um projeto de trabalho comum e que desse norte, sentido e consist\u00eancia ao fazer pedag\u00f3gico de todos. Queria ser reconhecida por ser uma diretora assim: atuante, companheira, compromissada com o ensinar e o aprender de fato. Entrei de cabe\u00e7a, de corpo e alma, de sapato e tudo. Com a minha inteireza pura, ing\u00eanua e apaixonada. Ing\u00eanua, n\u00e3o alienada. Lembro-me bem de que o pensamento pedag\u00f3gico vigente era a teoria construtivista, nascida das leituras dos autores mais atuais. Piaget, Em\u00edlia Ferreiro, Vygotsky dialogavam com nossas reflex\u00f5es e atitudes. J\u00e1 iniciara, sem me dar conta de que estava instaurando o trabalho coletivo, a gest\u00e3o compartilhada, o construir coletivamente um projeto pedag\u00f3gico t\u00e3o sonhado.<\/p>\n<p>Corria solto o ano de 1986. A essa experi\u00eancia efetiva e consistente somavam-se a ingenuidade e a pureza absoluta e desnudada de segundas e terceiras inten\u00e7\u00f5es. Fomos aprendendo a construir na nossa escola uma cumplicidade confort\u00e1vel e alentadora. Experimentamos no cotidiano, ao sabor dos cursos e encontros formadores ocorridos na nova gest\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, outras possibilidades pedag\u00f3gicas, teorias reveladas nas diferentes pr\u00e1ticas. Enfim, dessa forma embarcamos em experimentar projetos que poderiam dar forma ao sonho de um educador idealista e bem-intencionado.<\/p>\n<p>Foi com alegria maior que recebemos no final dessa gest\u00e3o uma programa\u00e7\u00e3o curricular pr\u00f3pria, refletida pelo fazer das nossas escolas irm\u00e3s. Documenta\u00e7\u00e3o, essa fruto de um trabalho mais do que s\u00e9rio realizado por educadores dedicados, experientes, estudiosos, bem assessorados por uma equipe t\u00e3o competente da Unicamp, lembro-me bem.<\/p>\n<p>Sem contar que houve a participa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de toda a rede, por conta dos v\u00e1rios encontros e reflex\u00f5es ocorridos em prol desse material.<\/p>\n<p>Mas, tudo isso foi uma breve alegria. Logo a apreens\u00e3o e uma pungente tristeza tomaria todo esse lugar. Na verdade, n\u00e3o estava preparada para o que viria a acontecer.<\/p>\n<p>Veio o ano de 1987. Com ele, outra gest\u00e3o da cidade, com outra ordem das coisas. Ali\u00e1s, autorit\u00e1ria e antidemocr\u00e1tica. A velha performance hist\u00f3rica emergia dos tempos idos e obscuros. Recolheram em dois tempos todos os exemplares das programa\u00e7\u00f5es rec\u00e9m constru\u00eddas. Como isso p\u00f4de acontecer? At\u00e9 hoje me pergunto. Foi mais do que safadeza e irresponsabilidade o que fizeram, bem nas barbas da justi\u00e7a. Foi um ato de extrema e b\u00e1rbara arbitrariedade e abuso de poder de fazer inveja a qualquer ditador das p\u00e1ginas dos comp\u00eandios da hist\u00f3ria mundial.<\/p>\n<p>Nunca poderia imaginar e entender em s\u00e3 consci\u00eancia que tudo aquilo estava acontecendo. Nem not\u00edcia de jornal era. Parecia que tudo acontecia numa bolha, num mundinho \u00e0 parte. E tamb\u00e9m nunca poderia imaginar que de uma hora para outra teria que lidar com o patrulhamento, a repress\u00e3o, o jogo de den\u00fancias vazias instalados nas escolas. Foi um per\u00edodo de ins\u00f3lita amargura. Nunca esquecerei! N\u00e3o sabia como e porque teria que calar a minha manifesta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a minha opini\u00e3o, o meu fundamento t\u00e3o valoroso a todo ser pensante, sobretudo ao educador. E a\u00ed veio a puni\u00e7\u00e3o. A minha e a de muita gente. Todas justificadas por aqueles par\u00e1grafos de uma lei com precisos n\u00fameros, mas imprecisa justificativa. A bem da verdade, era uma forma corrupta e covarde utilizada pelo poder superior para fazer de n\u00f3s, diretores rec\u00e9m-ingressados na vida escolar e com direito a sonhos, ideias e necessidades de participar e melhorar o servi\u00e7o p\u00fablico, os ref\u00e9ns de toda uma rede de profissionais da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ambiente naqueles tempos ficou estranho, assustador, pesado, sombrio demais. As discuss\u00f5es calorosas, a participa\u00e7\u00e3o de todos, as propostas audaciosas deram vez ao medo, aos olhares inquietos ao terrorismo atroz.<\/p>\n<p>O supervisor que vinha atuando num papel orientador e companheiro nas reflex\u00f5es administrativo-pedag\u00f3gicas foi rapidamente trocado por outro, designado pela cor e tom do partido no poder, fiscal do pensamento, controlador das atitudes e perseguidor dos mais cr\u00edticos. Falo isso porque, al\u00e9m do que soube pelos meus colegas, tenho certeza de que minha supervisora foi a minha delatora. Como se eu fosse uma conium maculatum, a erva venenosa que matou S\u00f3crates, tinha que ser arrancada, imagine.<\/p>\n<p>Em meio a esse clima nascia uma proposta de greve geral. Nosso sindicato estava a todo o vapor nessa empreitada. Eu n\u00e3o havia acordado ainda para tudo o que acontecia. Discutia com meu grupo acaloradamente se dev\u00edamos todos entrar ou n\u00e3o em greve, com a participa\u00e7\u00e3o e pelo menos com o conhecimento e o reconhecimento da comunidade escolar. Por tudo isso soube que fui tachada de comunista, anarquista, demon\u00edaca e seja l\u00e1 mais o que for. Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, em alguma coisa concordava com o pensamento de Che Guevara: \u201cO primeiro dever de um educador \u00e9 fazer a educa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Afastada, fiquei sabendo que a escola tinha recebido, durante o meu castigo compuls\u00f3rio e preventivo, outra diretora, cupincha desse pessoal extremista, daquelas puxa-saco de marca barbante, cheia de pulseiras, brincos e an\u00e9is e um bom salto alto para marcar cad\u00eancia militar no seu andar vigilante pelos corredores da escola. Afirmaram que ela torturava a quem no seu caminho encontrasse, declarando a todo momento que iria vasculhar tudo. De gavetas a cabe\u00e7as. O pessoal da escola sofreu muito com tudo isso. Sem solidariedade, sem reflex\u00e3o foi surgindo um sentimento de hostilidade, de indu\u00e7\u00e3o maquiav\u00e9lica, de puro medo.<\/p>\n<p>Parecia pesadelo, epis\u00f3dio da Idade M\u00e9dia, feito inquisi\u00e7\u00e3o em plena v\u00e9spera dos anos noventa, t\u00e3o glamorosos. Durante esse per\u00edodo de puni\u00e7\u00e3o participei de v\u00e1rias reuni\u00f5es com um advogado que nosso grupo havia contratado para analisar o nosso caso.<\/p>\n<p>Pens\u00e1vamos em estrat\u00e9gias de defesa. Mas me defender do qu\u00ea? Recordo-me de que foi dif\u00edcil achar um profissional que topasse acolher a nossa causa. Sei de alguns diretores que at\u00e9 contrataram terapeuta para melhor entenderem o que acontecia. Eu fiquei aguardando e vivendo o que a vida me oferecia. Mas, tudo aquilo me fazia mal. E como! Foi doloroso demais!<\/p>\n<p>Parecia suspensa num tempo irreal e vazio.<\/p>\n<p>Passado o afastamento compuls\u00f3rio, fomos organizados por ordens oficiais como um bando de malfeitores ao bem educativo. Em pequenos grupos, nos redistribu\u00edram pelas cinco delegacias regionais de ensino espalhadas em nossa cidade. Ficamos assim ao sabor dos mandos e desmandos, ao bel-prazer dos delegados de ensino, com ares de capatazes. Cada um tinha sua regra e sua senten\u00e7a peculiar de nos perseguir. Mas, era f\u00e1cil saber que havia um crit\u00e9rio \u00fanico para a distribui\u00e7\u00e3o: quanto mais longe de casa, melhor. Soube tamb\u00e9m que alguns poucos desses punidos, intercedidos por padrinhos, rezas e sei l\u00e1 o que o valha, acabaram retornando \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sei bem como foi.<\/p>\n<p>Lembro-me bem ainda dos meus primeiros dias como punida. Naquela situa\u00e7\u00e3o desencontrada, acho que a \u00fanica coisa que fazia com um certo sentido e esperan\u00e7a era cuidar de um pequeno canteiro de ger\u00e2nios abandonados e que ainda respiravam numa jardineira, em uma pequena sala no final do corredor onde fic\u00e1vamos, bem apartados do resto do pessoal.<\/p>\n<p>Era como se nas pequenas salas adaptadas com uma mesa e algumas cadeiras se instalasse nossa pris\u00e3o tempor\u00e1ria. Para os outros dali, era como se n\u00f3s sofr\u00eassemos de uma esp\u00e9cie de lepra pedag\u00f3gica. Incur\u00e1vel. Depois de alguns meses, quando os ger\u00e2nios floriam em matizes do vermelho ao rosa, fomos novamente redistribu\u00eddos para outros lugares, para uma sala feito calabou\u00e7o de espera. Todos previamente repensados e calculados num \u00fanico intento: o mais distante poss\u00edvel das nossas moradias.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que passei por um bom per\u00edodo anestesiada da vida, como se eu tivesse sido sequestrada de mim mesma.<\/p>\n<p>Acabei indo parar na Vila Prudente para fazer a mesma coisa: nada. Ou melhor, aguardando em local separado de todos o hor\u00e1rio passar com todas as suas horas, minutos e segundos de cada dia. Nessa fase alguns do grupo eram separados como proibidos de perdurar algum afeto irmanado por aquela estranha e injusta experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A vida da gente ali parecia um carrossel de emo\u00e7\u00f5es bobas e baratas.<\/p>\n<p>Havia dias em que me divertia, em outros zombava de tudo e de todos.<\/p>\n<p>Tinha dias em que sofria, chorava; tinha outros em que invent\u00e1vamos e reinvent\u00e1vamos alguma tarefa de intento educacional para fazer, mas nunca vingava, impedida pelo poder regional. Tive crises. V\u00e1rias. Uma vez, e por uma isca de triz e por pouca coisa, aparentemente nada, quase destrocei meu guarda-chuva na cabe\u00e7a da delegada de ensino, espalhafatosa e com cara de boazinha, mas extremamente autorit\u00e1ria. A sorte \u00e9 que bati na sua mesa, com toda a for\u00e7a da minha indigna\u00e7\u00e3o, por conta daquela situa\u00e7\u00e3o descabida e que ela insistia em permanecer como algo normal. Vi o guarda-chuva quebrado e molhado pelas minhas l\u00e1grimas de puro \u00f3dio. Confesso que fiquei, de imediato, com medo de que o meu grau de puni\u00e7\u00e3o fosse aumentar, algo como me colocarem numa solit\u00e1ria ou a famigerada demiss\u00e3o que latejava como promessa nada benquista. Mas, daquele dia em diante ela \u00e9 quem mal me olhava. Fugia como o diabo da cruz, o vampiro do alho. Ou a cabe\u00e7a do pr\u00f3ximo guarda-chuva.<\/p>\n<p>Fiquei ent\u00e3o com a alma lavada, novinha em folha, como se tivesse sa\u00eddo de uma boa chuva de ver\u00e3o. Tudo parecia uma cena de Almod\u00f3var. Como uma travessura de menina mimad\u00edssima e cruel e sua necessidade invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Como uma f\u00faria, impelida pela justi\u00e7a cega, surda e muda. Dei, ent\u00e3o, de mergulhar na leitura. Um rio, um mar, um oceano. Para me salvar daquela insanidade toda, descobri escritores e seus livros maravilhosos. Por vezes, uma funcion\u00e1ria, talvez apaixonad\u00edssima por algu\u00e9m, vinha de quando em vez e \u00e0s escondidas, ouvir os poemas de amor de Ad\u00e9lia Prado que eu lia para ela sem pestanejar e com todas as caras e bocas poss\u00edveis e imagin\u00e1veis. Pus em dia tudo o que me devia.<\/p>\n<p>Pensando bem, o que ser\u00e1 que em n\u00f3s incomodava tanto os governantes municipais? Que anjos exterminadores nos tornamos e que tanto amea\u00e7\u00e1vamos um poder t\u00e3o absoluto que mandara queimar, nas fu\u00e7as da lei e sem o m\u00ednimo respeito a nada e a ningu\u00e9m, o programa de ensino ricamente elaborado, resultado de anos de trabalho e estudo de tantos profissionais competentes? Quem era subversivo? Por que n\u00e3o deram cr\u00e9dito a nossa atitude de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e profissional?<\/p>\n<p>Bem no finalzinho desse malfadado mandato, quando j\u00e1 se sabia que haveria nova prefeita, de nova ordem pol\u00edtica, bem perto do Natal, no mesmo e fat\u00eddico Di\u00e1rio Oficial veio publicada a extin\u00e7\u00e3o de todos aqueles atos punitivos engendrados ao sabor de vontade pessoal e insana.<\/p>\n<p>Como se tudo fora brincadeira. Uma farsa, uma artimanha. Voltamos \u00e0s origens. Mas, n\u00e3o \u00e9ramos os mesmos.<\/p>\n<p>Lembro-me bem e n\u00e3o vou esquecer nunca. At\u00e9 hoje sinto que a gota d\u2019\u00e1gua de todo esse epis\u00f3dio fora o fato de termos mostrado a nossa cara. Para n\u00f3s, rom\u00e2ntica, respons\u00e1vel, ing\u00eanua. Para eles, irreverente, provocativa, revolucion\u00e1ria. Esses fatos n\u00e3o fazem parte da hist\u00f3ria oficial, fazem?<\/p>\n<p>Pensando com meus bot\u00f5es, acho mesmo que essa hist\u00f3ria toda come\u00e7ou com nosso pequeno grupo de diretores, os rec\u00e9m-chegados atrav\u00e9s do concurso p\u00fablico que a carreira permitia. \u00c9 que resolvemos nos juntar para melhor entendermos o que era de fato ser diretor numa escola ainda t\u00e3o cheia de car\u00eancias, contradi\u00e7\u00f5es, abandonos. \u00c9ramos, nesse intento sonhador, cerca de vinte e dois diretores. Nem bem conhec\u00edamos um ao outro. S\u00f3 sab\u00edamos que o que nos ligava era a nossa hist\u00f3ria come\u00e7ando e o dever comum a cumprir no trabalho. Diante de n\u00f3s estava aquela imensa falta de di\u00e1logo, aquele abismo entre as escolas e a administra\u00e7\u00e3o superior em seus gabinetes. Fizemos um \u00fanico ato, simples: escrevemos um of\u00edcio \u00e0 secretaria da educa\u00e7\u00e3o solicitando condi\u00e7\u00f5es materiais m\u00ednimas para realizarmos o trabalho. Com orgulho assinamos o tal documento. Em meio \u00e0quele clima de repress\u00e3o, absorvido da ditadura dos tempos idos, n\u00e3o deve ter faltado fofocas, falsas den\u00fancias e hipocrisia a granel no percurso do pedido sa\u00eddo de nossas m\u00e3os para as nefastas m\u00e3os do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>S\u00f3 sei que transcorrido alguns dias o nosso anfitri\u00e3o recebera dura convoca\u00e7\u00e3o no sentido de prestar esclarecimentos sobre o acontecido.<\/p>\n<p>Hav\u00edamos nos encontrado na escola onde ele era o diretor, por ser de mais f\u00e1cil acesso a todos. Ele, batalhador pela implementa\u00e7\u00e3o das salas de leitura nas escolas, escritor de tantos livros da literatura infantil, pai de tr\u00eas crian\u00e7as pequenas, teve que receber em sua pr\u00f3pria casa visita nada agrad\u00e1vel, marcada com letras de sangue dos tempos da<br \/>\nditadura. Na verdade, era uma convoca\u00e7\u00e3o da assessoria militar do gabinete do prefeito para ele prestar esclarecimentos. At\u00e9 hoje sentimos repulsa, nojo, indigna\u00e7\u00e3o por tudo isso.<\/p>\n<p>Mas a coisa n\u00e3o ficou assim. O nosso diretor anfitri\u00e3o foi levado, mas l\u00e1 fomos n\u00f3s, os vinte e um restantes e mais um grupo consider\u00e1vel de educadores para fazer uma esp\u00e9cie de resist\u00eancia e rep\u00fadio a tudo o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>Em meio ao belo arvoredo do parque onde ficava o gabinete do prefeito e sua ajuda militar tanto jacarand\u00e1 mimoso querendo florir! L\u00e1 ficamos todos em plena vig\u00edlia at\u00e9 nosso representante sair, aparentemente livre e ileso.<\/p>\n<p>Foi por a\u00ed que uma greve acabou acontecendo. As escolas andavam em polvorosa. E era um tal de solicitar aos diretores a listagem dos grevistas. Muitos tinham mandado por medo ou por autoritarismo inato.<\/p>\n<p>Foi junto com tudo isso que o Di\u00e1rio Oficial apresentou a primeira lista de diretores punidos e suspensos. N\u00e3o satisfeitos, novas e outras listas de professores. Tempos terr\u00edveis.<\/p>\n<p>A bem da verdade n\u00e3o tinha clara consci\u00eancia do que acontecia. Por vezes rezava e pedia a Deus para entender tudo aquilo. Cheguei a suspeitar de leve e de mim mesma que at\u00e9 poderia estar fazendo algo de errado e que n\u00e3o compreendia. Por vezes parecia dar corda em mim a um castigo atroz e atormentado. Suspeitava ouvir vozes vindas n\u00e3o sei de onde, me perseguindo e me atirando num po\u00e7o escuro. Buscava alento na minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Mexia gavetas, caixas, relia cartas, textos sublinhados, fotos e guardados, como se revisitando o museu de mim mesma. Tinha que acreditar em outras possibilidades.<\/p>\n<p>Em pouco tempo tive a clareza de que mais que erradas, eram as atitudes dos que estavam no exerc\u00edcio do poder, pois agiam de forma autorit\u00e1ria, persecut\u00f3ria e criminosa. Legitimados por leis esdr\u00faxulas e pela falsa boa atua\u00e7\u00e3o administrativa, fizeram muita gente sofrer injustamente.<\/p>\n<p>Mas, como o sofrimento tem a sua pitada de aprendizagem, aprendi a nunca mais abrir m\u00e3o do meu valor e do meu papel cidad\u00e3o. Lembro-me de que, quando fiquei sabendo que os diretores haviam contratado advogado para a defesa de tamanho absurdo que nos irmanava, fui ao local da reuni\u00e3o pela primeira vez. Fui a \u00faltima a chegar. Na sa\u00edda do metr\u00f4, na Liberdade, fui subindo uma escada enorme num velho pr\u00e9dio. Sentei num canto. Ouvi muito naquele dia. Todos falaram, se mostrando naquela tarde de outono.<\/p>\n<p>Tive a n\u00edtida impress\u00e3o e a certeza de que aquelas pessoas eram dignas, criativas, respons\u00e1veis, competentes, coerentes, imprescind\u00edveis e mais outros tantos adjetivos que os educadores devem ter. Ao me ver pertencente ao grupo, numa viagem solit\u00e1ria, nascia em mim, por espelhamento, nas \u00e1guas claras da experi\u00eancia que eu n\u00e3o era coisa de se jogar fora. Tive a clareza da minha dignidade e de estarmos cumprindo nosso dever nesse vi\u00e9s hist\u00f3rico. Comecei a sentir um orgulho danado que at\u00e9 hoje guardo comigo.<\/p>\n<p>Agora, passado todo esse tempo tenso e amargo, posso melhor ver as cores dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em muito se parece com a hist\u00f3ria do patinho feio e que tanto contei a meus alunos. Mal sabia que, no final e ao sabor das agruras e das experi\u00eancias, acabamos sendo reconhecidos como um bando de belos cisnes!<\/p>\n<p>Penso em me casar num futuro breve. Quero ter um filho. Acho que valer\u00e1 a pena. Desejo que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o seja mais justa e solid\u00e1ria. E que esse tipo de coisa nunca mais aconte\u00e7a com ningu\u00e9m. E que ainda haja nessa nossa cidade lugar para ver o azul e a nuvens do c\u00e9u, as flores dos jacarand\u00e1s e a verdade. E espa\u00e7o para crescerem outras flores e se ouvirem trinados de p\u00e1ssaros junto com a m\u00fasica livre das escolas e suas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Antonio Gil Neto<\/strong> nasceu em Taia\u00e7u, cidadezinha do interior paulista, em 1950. Graduou-se em Pedagogia e Letras. Ainda jovem, mudou-se para S\u00e3o Paulo, onde construiu sua carreira profissional na \u00e1rea da Educa\u00e7\u00e3o. Atuou em projetos de forma\u00e7\u00e3o de educadores e em publica\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas vinculadas ao ensino de l\u00edngua. Autor de livros de literatura juvenil: A flor da pele e Cartas Marcadas, (Ed. Cortez\/SP) e tamb\u00e9m organizador e autor de A mem\u00f3ria brinca: ciranda de hist\u00f3rias do ensino municipal paulistano, (Imprensa Oficial\/SP). No primeiro livro que escreveu \u2013 Brado Retumbante, (Ed. Olho d&#8217;\u00c1gua\/SP) \u2013 teve a gra\u00e7a de receber na contracapa generosas palavras de Paulo Freire. Participou da colet\u00e2nea Tudo poderia ser diferente \u2013 inclusive o t\u00edtulo, e-book Amazon, 2022. Autor dos livros de poemas &#8220;In\u00e9ditos, inexatos \u2013 uma cole\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e vidro&#8221;, pela editora Folheando; &#8220;Sem saber o Amor&#8221; (Ed. Primata); &#8220;Desertos, P\u00e1ssaros, Quintais&#8221; (Caravana Editorial); &#8220;Sil\u00eancios, seus estilha\u00e7os de seda&#8221; (Ed. Folheando); &#8220;\u00c1gua, pedra, flor&#8221; (Mondru Editora).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar outra hist\u00f3ria como aquela porque n\u00e3o era das que a gente inventa no papel. Quem as inventa \u00e9 a vida, e quase sempre aos golpes\u201d. (G. Garc\u00eda M\u00e1rquez, Viver para contar) &#8230; Foi um Deus nos acuda! 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