{"id":355352,"date":"2025-06-07T00:11:05","date_gmt":"2025-06-07T03:11:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355352"},"modified":"2025-06-06T20:24:00","modified_gmt":"2025-06-06T23:24:00","slug":"chico-publicitario-ruim-conseguiu-consagrar-o-prego-souza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chico-publicitario-ruim-conseguiu-consagrar-o-prego-souza\/","title":{"rendered":"Chico, publicit\u00e1rio ruim, conseguiu consagrar o Prego Souza"},"content":{"rendered":"<p>Chico e eu nos formamos na mesma faculdade e no mesmo ano da d\u00e9cada de 90. Ele em Publicidade e Propaganda, eu em Economia, meu primeiro curso superior cujos conhecimentos nunca exercitei.<\/p>\n<p>\u00c9ramos amigos transversos, unidos pela amizade em comum com o Jo\u00e3o &#8211; aluno do Direito &#8211; e n\u00e3o chegamos a ter la\u00e7os muito estreitos.<\/p>\n<p>Entretanto, a personalidade sui generis e a mente futurista (?) do Chico eram atrativos irresist\u00edveis para quem convivesse com ele no mesmo c\u00edrculo.<\/p>\n<p>Ele se declarava f\u00e3 n\u00famero um do cineasta Ed Wood, considerado por muitos cr\u00edticos o &#8220;pior cineasta&#8221; de todos os tempos e do planeta inteiro que, entretanto, foi incensado como um artista cult por uma legi\u00e3o de f\u00e3s ap\u00f3s a sua morte.<\/p>\n<p>Exatamente como seu mestre, Chico exercia sua atividade de uma forma autodidata muito particular e, apesar das cr\u00edticas ao seu estilo &#8220;fora da casinha&#8221;, n\u00e3o se deixava abalar pelos frequentes insucessos e se mantinha sempre exc\u00eantrico, peculiar e criativo na labuta publicit\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o abria m\u00e3o, em nenhuma hip\u00f3tese ou situa\u00e7\u00e3o, de implementar seu estilo e deixar sua marca em todos os trabalhos que fazia.<\/p>\n<p>Um dia, por indica\u00e7\u00e3o do Jo\u00e3o a um cliente dele, Chico assumiu a miss\u00e3o de alavancar uma marca de prego no mercado.<\/p>\n<p>E eu nem sabia que poderia haver competi\u00e7\u00e3o entre marcas de pregos; para mim, prego era prego e pronto.<\/p>\n<p>Entusiasmado com a \u00f3tima oportunidade, Chico decidiu apostar na dobradinha &#8220;tradi\u00e7\u00e3o e religi\u00e3o&#8221; para impactar a marca junto aos consumidores. Confiante na sua &#8220;sacada&#8221;, ele bolou e dirigiu &#8211; a baixo custo &#8211; um comercial de trinta segundos previsto para aparecer por duas semanas na TV.<\/p>\n<p>A cena mostrava Jesus Cristo na cruz ao lado dos dois ladr\u00f5es e, em volta, soldados romanos armados e uniformizados a car\u00e1ter. Ap\u00f3s vinte segundos com a c\u00e2mera ilustrando diferentes \u00e2ngulos e perspectivas da situa\u00e7\u00e3o, um locutor falava com voz grave e pausada: &#8220;Prego Souza, dois mil anos de tradi\u00e7\u00e3o!&#8221;.<\/p>\n<p>Mesmo que vacilante e preocupado com a repercuss\u00e3o de uma tem\u00e1tica t\u00e3o sens\u00edvel, Souza, o contratante, decidiu aprovar o comercial na \u00edntegra e a pe\u00e7a foi ao ar em hor\u00e1rio nobre.<\/p>\n<p>Dois dias depois, Chico atendeu ao telefonema de um aflito Souza:<\/p>\n<p>-Chico, por favor, voc\u00ea tem que modificar o comercial!<\/p>\n<p>-Por qu\u00ea? O que houve? As vendas n\u00e3o est\u00e3o boas? perguntou Chico.<\/p>\n<p>-Est\u00e3o \u00f3timas, mas eu estou sendo massacrado por todas as congrega\u00e7\u00f5es crist\u00e3s do Brasil.<\/p>\n<p>-Ora, fa\u00e7a ouvidos moucos, disse Chico.<\/p>\n<p>-N\u00e3o posso, at\u00e9 a minha mulher est\u00e1 buzinando no meu ouvido vinte e quatro horas por dia: &#8220;Isso \u00e9 um desrespeito, um sacril\u00e9gio!&#8221;.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o voc\u00ea quer que eu mude tudo no comercial, que retire Cristo de cena?<\/p>\n<p>-N\u00e3o \u00e9 bem assim&#8230;temos que manter o bom fluxo das vendas e essa associa\u00e7\u00e3o com Jesus Cristo \u00e9 boa!<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o n\u00e3o entendi, questionou Chico.<\/p>\n<p>-D\u00ea um jeito de retirar Cristo da cruz&#8230; de forma que o prego seja um aliado dele e n\u00e3o um algoz, entende? Tem que ser para amanh\u00e3 e n\u00e3o podemos gastar muito, acrescentou o cliente.<\/p>\n<p>-Certo, entendi, disse Chico, sem ter a menor ideia sobre o que faria para adequar a demanda do comercial ao gosto do seu angustiado cliente.<\/p>\n<p>-E essa agora, essa gente nunca se d\u00e1 por satisfeita&#8230;nem Cristo conseguiria agrad\u00e1-los, praguejou o publicit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas Chico tamb\u00e9m nunca se dava por vencido em situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e n\u00e3o seria dessa vez que a sua mente n\u00e3o improvisaria uma solu\u00e7\u00e3o criativa e de baixo custo, algo que pudesse dar conta do problema e satisfazer o cliente na corda bamba.<\/p>\n<p>-O que faria o Ed&#8230;perguntava Chico para si mesmo, enquanto, em sequ\u00eancia, emborcava cinco x\u00edcaras de caf\u00e9 entre um cigarro e outro.<\/p>\n<p>Antes de levar a x\u00edcara \u00e0 boca mais uma vez, o genial publicit\u00e1rio finalmente teve a epifania que procurava.<\/p>\n<p>-Claro! Por que n\u00e3o pensei nisso antes&#8230;vibrou o disc\u00edpulo de Ed Wood que, a partir de ent\u00e3o, ficou conhecido como &#8220;Chico martelada&#8221;.<\/p>\n<p>No dia seguinte, perplexos, os telespectadores assistiram \u00e0 nova cena do comercial que exaltava a qualidade do produto pontiagudo.<\/p>\n<p>Cristo e os dois ladr\u00f5es desciam rapidamente da cruz e se punham a correr, imediatamente perseguidos pelos soldados romanos que n\u00e3o conseguiam alcan\u00e7\u00e1-los. Nos \u00faltimos dez segundos da cena, o locutor falava com voz novamente pausada e, agora, lastimosa:<\/p>\n<p>-Se o prego fosse Souza, essa cena despropositada n\u00e3o teria acontecido!<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe se o fabricante Souza continuou a ser admoestado e espinafrado pela sua esposa ou pelos religiosos, mas o fato \u00e9 que as vendas do produto aumentaram ainda mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chico e eu nos formamos na mesma faculdade e no mesmo ano da d\u00e9cada de 90. 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