{"id":355388,"date":"2025-06-07T14:12:48","date_gmt":"2025-06-07T17:12:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355388"},"modified":"2025-06-08T02:25:55","modified_gmt":"2025-06-08T05:25:55","slug":"historias-que-nascem-do-silencio-e-do-abismo-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/historias-que-nascem-do-silencio-e-do-abismo-humano\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias que nascem do sil\u00eancio e do abismo humano"},"content":{"rendered":"<p>Algumas escritoras constroem pontes entre o vivido e o imaginado. Outras escavam os sil\u00eancios \u2014 e, ao tocar no que \u00e9 \u00edntimo, revelam o que \u00e9 de todos. Roseane Sousa faz as duas coisas. Com uma escrita afiada e sens\u00edvel, ela transita entre o trauma e a delicadeza, entre o real e a fic\u00e7\u00e3o, entre a mulher que escreve e as mulheres que vivem em suas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Professora e revisora, Roseane vive em Jundia\u00ed, no interior de S\u00e3o Paulo. Tem 46 anos, \u00e9 m\u00e3e de dois filhos adolescentes, gosta de mar, de gatos e de livros. Formada em Letras e Pedagogia e p\u00f3s-graduada em Revis\u00e3o de Textos, \u00e9 professora de Ensino Fundamental, exercendo atualmente o cargo de coordenadora pedag\u00f3gica. H\u00e1 cerca de 10 anos, tomou a escrita como of\u00edcio, tendo publicados os romances Vaiv\u00e9ns da Alma e Ins\u00eddia e os contos Sutilezas do Amor &#8211; finalista do Pr\u00eamio Book Brasil em 2020, e Hiatos, al\u00e9m de algumas participa\u00e7\u00f5es em antologias.<\/p>\n<p>Conheci a autora Roseane de Sousa atrav\u00e9s de um programa de entrevistas da TV Senado. Ela falava sobre Jamile, personagem de seu livro Ins\u00eddia. Instigada pela trama da hist\u00f3ria, adquiri a obra. Li de um sopro s\u00f3.<\/p>\n<p><strong>Obras <\/strong><br \/>\nEm Ins\u00eddia, mergulhamos em uma camada da exist\u00eancia contempor\u00e2nea. Jamile, sufocada por um casamento esvaziado, v\u00ea no mundo digital um poss\u00edvel respiro \u2014 ou seria uma nova pris\u00e3o? A obra desafia certezas sobre liberdade, desejo e identidade, mostrando como nossos ref\u00fagios tamb\u00e9m podem ser armadilhas.<\/p>\n<p>Em Vaiv\u00e9ns da Alma somos apresentados a Ol\u00edvia, uma professora que tenta reconstruir sua vida ap\u00f3s um epis\u00f3dio devastador. A narrativa, que poderia ser lida como um drama psicol\u00f3gico, vai al\u00e9m: \u00e9 um retrato sutil de como a alma resiste, mesmo quando tudo parece ruir.<\/p>\n<p>Hiatos, por sua vez, \u00e9 quase um sussurro. Um conto curto, mas de impacto profundo. Nicole, uma menina marcada por aus\u00eancias e viol\u00eancias, nos confronta com as dores que muitas vezes preferimos n\u00e3o ver. \u00c9 uma hist\u00f3ria sobre o n\u00e3o-dito \u2014 e sobre o que acontece quando os gritos s\u00e3o abafados por anos.<\/p>\n<p>E vem a\u00ed In Vitro, seu novo livro, que promete ser mais uma imers\u00e3o corajosa. Inspirado na hist\u00f3ria real dos crimes cometidos por um ex-m\u00e9dico famoso, o romance conta a hist\u00f3ria de Helen, uma mulher que transita entre a dor e a nega\u00e7\u00e3o da realidade ap\u00f3s passar pela experi\u00eancia da infertilidade no casamento e pelos desafios de uma fertiliza\u00e7\u00e3o assistida.<\/p>\n<p>Roseane escreve porque sente. E sente porque vive. Seus livros s\u00e3o convites \u2014 \u00e0s vezes ternos, \u00e0s vezes \u00e1speros \u2014 para olharmos de frente o que carregamos por dentro. N\u00e3o para resolver, mas para reconhecer. E, quem sabe, transformar. Para que os leitores do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio possam conhecer um pouco mais a autora Roseane Sousa, fizemos com ela uma r\u00e1pida entrevista.<\/p>\n<p>Cinco perguntas<br \/>\n<strong>Suas personagens frequentemente habitam fronteiras \u2014 entre o trauma e a cura, o desejo e a culpa, o sil\u00eancio e o grito. O que te atrai nesses espa\u00e7os de tens\u00e3o? Ao escrever sobre temas t\u00e3o sens\u00edveis, como viol\u00eancia dom\u00e9stica, luto ou infertilidade, voc\u00ea se protege de alguma forma? Ou \u00e9 a escrita que te oferece abrigo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei definir o que me atrai nessas tem\u00e1ticas. Ou\u00e7o, vejo, me incomodo, sinto e escrevo. O comportamento humano me causa curiosidade desde crian\u00e7a, sempre fui tive muita sensibilidade pelas dores alheias, especialmente as dores caracter\u00edsticas das mulheres, que s\u00e3o ao mesmo tempo da outra e de todas n\u00f3s. Cresci vendo telenovela e jornais sensacionalistas. Minha m\u00e3e ouvia programas nas r\u00e1dios AM e eu amava um quadro do Programa Eli Correia chamado &#8220;Que saudade de voc\u00ea&#8221;, em que ele lia cartas contando trag\u00e9dias, muitas trazendo cren\u00e7as no sobrenatural, ficava fascinada com aquelas hist\u00f3rias. Talvez essa exposi\u00e7\u00e3o precoce a temas tr\u00e1gicos tenha me moldado enquanto escritora. Conforme fui amadurecendo e entendendo a din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es humanas, me compreendendo enquanto mulher numa sociedade ainda muito patriarcal, as hist\u00f3rias de viol\u00eancia contra n\u00f3s mulheres passaram a me causar revolta, indigna\u00e7\u00e3o e desejo de mudan\u00e7a. A escrita \u00e9 uma forma de extrapolar esses sentimentos. Escrever sobre a dor \u00e9 cutucar feridas, sinto as dores das minhas personagens e isso muitas vezes me angustia. Mas, ao mesmo tempo, escrever sobre isso \u00e9 uma forma de elaborar quest\u00f5es que me incomodam, de me desconstruir e reconstruir. Nesse sentido funciona de modo semelhante a uma terapia. Embora as hist\u00f3rias de minhas personagens n\u00e3o sejam minhas hist\u00f3rias, suas dores respingam em mim e me ajudam a lidar com as minhas dores tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Como sua trajet\u00f3ria como educadora e revisora alimenta (ou desafia) sua cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? Voc\u00ea escreve com a autora, a professora ou a leitora em mente?<\/strong><\/p>\n<p>Roseane: Sempre acreditei na figura do professor pesquisador; o h\u00e1bito de pesquisar em meu trabalho como professora se estende ao of\u00edcio de escritora. Mesmo na fic\u00e7\u00e3o, precisamos ser respons\u00e1veis com certas quest\u00f5es. Al\u00e9m disso, ser professora exige da gente saber observar. Ao longo de minha trajet\u00f3ria, fui refinando minha capacidade de observar e analisar para poder agir. Esse olhar apurado para as pessoas e as situa\u00e7\u00f5es em que vivem s\u00e3o essenciais para construir os personagens e as tramas que os cercam.<\/p>\n<p>Com &#8220;quem&#8221; escrevo? Num primeiro momento, escrevo com os personagens. S\u00e3o eles que gritam em minha cabe\u00e7a e pedem para que suas hist\u00f3rias sejam trazidas ao mundo. Mas essa \u00e9 uma escrita ainda muito primitiva do que vai ser levado a p\u00fablico, um primeiro rascunho. E \u00e9 a\u00ed que entram todas as minhas outras faces. A leitora \u00e9 a primeira a agir, determinando o que agrada e o que n\u00e3o agrada, o que \u00e9 excesso e o que ainda precisa ser dito. A Roseane autora vem junto com a Roseane leitora, fazendo os refinamentos que o texto exige, trazendo a ele o estilo desejado necess\u00e1rio para que se torne literatura. A revisora est\u00e1 ali o tempo todo, \u00e0s vezes brigando com a autora que quer se ver livre das amarras que padronizam os textos, \u00e0s vezes aplaudindo uma cria\u00e7\u00e3o diferente, mas principalmente nas diversas reescritas do texto.<\/p>\n<p><strong>Se pudesse conversar com uma de suas protagonistas, qual seria? E o que voc\u00ea perguntaria a ela?<\/strong><\/p>\n<p>Roseane: Com Ol\u00edvia. N\u00e3o tenho uma pergunta espec\u00edfica para fazer a ela, mas \u00e9, das minhas personagens, aquela com quem mais me identifico. Ela tamb\u00e9m \u00e9 professora, gosta de coisas que eu gosto, pensamos de modo muito parecido. N\u00e3o tocaria em sua ferida se ela n\u00e3o tocasse no assunto. Confesso que, por ter sido minha primeira protagonista, me mantive em minha zona de conforto, usando muito de mim para caracterizar minha personagem, por isso tanta identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>In Vitro amplia o debate sobre maternidade e afeto em contextos nada idealizados. O que voc\u00ea espera provocar nos leitores com essa nova obra?<\/strong><\/p>\n<p>In Vitro (n\u00e3o sei ainda se a editora vai querer manter esse t\u00edtulo) surge da ideia de criar uma fic\u00e7\u00e3o inspirada nos crimes de um ex-m\u00e9dico famoso. Foram muitas tentativas de escrita at\u00e9 chegar num formato que me permitiu contar o que pretendia. N\u00e3o fica claro se a busca de Helen pela maternidade \u00e9, de fato, um desejo de ser m\u00e3e, de amar, cuidar e educar; ou se \u00e9 uma busca por cumprir um papel social que acredita ser o seu: o desejo de mostrar ao mundo uma fam\u00edlia perfeita, o que a deixa obcecada pelo desejo de gestar. No entanto, a realidade vai se tornando cada vez mais distante de sua idealiza\u00e7\u00e3o, culminando num filho negligenciado e uma m\u00e3e mentalmente doente. Espero provocar nos leitores, al\u00e9m de curiosidade que o leve a tentar juntar as partes do quebra-cabe\u00e7a que a leitura traz, reflex\u00f5es acerca dos temas direta ou indiretamente abordados: preconceitos, sa\u00fade mental, \u00e9tica m\u00e9dica, maternidade como realiza\u00e7\u00e3o de toda mulher, estruturas familiares etc.<\/p>\n<p><strong>Qual dos seus livros foi o mais dif\u00edcil de escrever?<\/strong><\/p>\n<p>In Vitro. Meu primeiro romance escrito em primeira pessoa, o que pode ser banal para muita gente, mas pra mim gera uma dificuldade imensa. Por ter me inspirado em hist\u00f3rias reais, a constru\u00e7\u00e3o do enredo demandou, al\u00e9m de muita pesquisa, um grande cuidado na representa\u00e7\u00e3o dos personagens e dos fatos, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil lidar com um tema t\u00e3o delicado e que machucou tanta gente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da dificuldade com o tema, esbarrei em v\u00e1rias dificuldades t\u00e9cnicas: a estrutura do texto, a voz narrativa, a escolha discursiva, o papel de cada personagem&#8230; enfim, foi um grande desafio dar a essa hist\u00f3ria um tom que me agradasse e que possa vir a agradar futuros leitores. Acho que nunca precisei reescrever tantas vezes uma hist\u00f3ria, mudando tom, foco narrativo, discursos. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 contada de forma linear, cronol\u00f3gica. A escolha de como intercalar os cap\u00edtulos n\u00e3o foi f\u00e1cil, foi um jogo de tentativa e erro constante. E a cada lacuna percebida, novas configura\u00e7\u00f5es eram exigidas na organiza\u00e7\u00e3o. Eu j\u00e1 havia escrito contos sem uma ordem cronol\u00f3gica, mas, por se tratar de textos mais enxutos, encaixar os cap\u00edtulos \u00e9 algo mais control\u00e1vel. Num romance \u00e9 muito mais desafiador e s\u00f3 vou saber se deu certo quando o livro chegar nas m\u00e3os dos leitores.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Para os livros f\u00edsicos, atrav\u00e9s do e-mail: roseanesousa@hotmail.com<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.amazon.com.br\/stores\/Roseane-Sousa\/author\/B098BPLMS5?ref=dbs_a_mng_rwt_scns_share%3Ffbclid%3DPAZXh0bgNhZW0CMTEAAae37bx588RT9Egnol5Mu9hvbFFlItp-TN1iKEpXrDuDZAXj3qxnrcUJNVbWcw_aem_kuYlmSvfpSDChgd7L2IZ8A&amp;isDramIntegrated=true&amp;shoppingPortalEnabled=true\">www.amazon.com.br\/stores\/Roseane-Sousa\/author\/B098BPLMS5?ref=dbs_a_mng_rwt_scns_share%3Ffbclid%3DPAZXh0bgNhZW0CMTEAAae37bx588RT9Egnol5Mu9hvbFFlItp-TN1iKEpXrDuDZAXj3qxnrcUJNVbWcw_aem_kuYlmSvfpSDChgd7L2IZ8A&amp;isDramIntegrated=true&amp;shoppingPortalEnabled=true<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algumas escritoras constroem pontes entre o vivido e o imaginado. 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