{"id":355620,"date":"2025-06-10T10:16:55","date_gmt":"2025-06-10T13:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355620"},"modified":"2025-06-10T10:16:55","modified_gmt":"2025-06-10T13:16:55","slug":"dagoberto-lovatto-e-novato-personagens-de-uma-comedia-sem-autor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dagoberto-lovatto-e-novato-personagens-de-uma-comedia-sem-autor\/","title":{"rendered":"Dagoberto, Lovatto e Novato, personagens de uma com\u00e9dia sem autor"},"content":{"rendered":"<p>O aspecto l\u00fadico da sonoridade das palavras e da sua repeti\u00e7\u00e3o sempre me encantou, posto que \u00e9 o alicerce central da poesia e, na minha opini\u00e3o, tamb\u00e9m um componente muito importante da prosa.<\/p>\n<p>Um exemplo delicioso que nunca saiu da minha mente \u00e9 uma primorosa composi\u00e7\u00e3o do ef\u00eamero e peculiar grupo humor\u00edstico &#8220;Baiano e os novos Caetanos&#8221;:<\/p>\n<p>&#8220;Eu vou bate p\u00e1 t\u00fa,<br \/>\nP\u00e1 tu bat\u00ea p\u00e1 tua patota V\u00f4 bat\u00ea p\u00e1 t\u00fa, bat\u00ea p\u00e1 t\u00fa P\u00e1 t\u00fa bat\u00ea (&#8230;)<br \/>\nP\u00e1 amanh\u00e3 a p\u00e1 n\u00e3o me dizer Que eu n\u00e3o bati p\u00e1 t\u00fa<br \/>\nP\u00e1 t\u00fa pode bat\u00ea&#8221;<\/p>\n<p>Dentre a fabulosa fam\u00edlia das sonoridades &#8211; alitera\u00e7\u00e3o, asson\u00e2ncia, paronom\u00e1sia e onomatopeia &#8211; confesso que a minha preferida \u00e9 a mais moleca de todas, a asson\u00e2ncia. Todavia, fora do espa\u00e7o da arte, essa sonoridade t\u00e3o magicamente musical e sedutora tamb\u00e9m pode se transformar em armadilhas que nos colocam em situa\u00e7\u00f5es embara\u00e7osas na vida cotidiana.<\/p>\n<p>Quem me contou uma hist\u00f3ria que ilustra sobremaneira uma bem essa situa\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie foi o meu amigo Dagoberto, um sujeito cognitivamente muito capacitado e, tamb\u00e9m, um p\u00e2ndego na arte de contar causos ver\u00eddicos que, na sua verve, se transformam em saborosas com\u00e9dias.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que a engra\u00e7ada situa\u00e7\u00e3o aconteceu, Dagoberto era meu colega e diretor da Associa\u00e7\u00e3o dos empregados da Caixa Econ\u00f4mica Federal do Rio Grande do Sul, cujo presidente, na ocasi\u00e3o, era o saudoso e valoroso companheiro Valdir.<\/p>\n<p>Valdir era um l\u00edder natural respeitad\u00edssimo por toda a categoria e sua palavra e orienta\u00e7\u00e3o eram como um mandamento para quem militasse ao lado dele.<\/p>\n<p>Certa vez, Valdir convidou o superintendente da Caixa da regional Caxias do Sul, C\u00e9lio Lovatto, para um almo\u00e7o na sede da Associa\u00e7\u00e3o em Porto Alegre com o objetivo de estreitar rela\u00e7\u00f5es e discutir quest\u00f5es atinentes \u00e0 categoria naquela regi\u00e3o do estado. Lovatto era um chefe institucional tamb\u00e9m muito capacitado, estimado e respeitado por todos que o conheciam.<\/p>\n<p>Como forma de cortesia, Valdir pediu ao diretor Dagoberto que apanhasse Lovatto no ao hotel em que estaria hospedado e o conduzisse at\u00e9 a sede social onde ocorreria o almo\u00e7o, reiterando expressamente a orienta\u00e7\u00e3o de tratamento VIP ao ilustre convidado. Como ainda n\u00e3o conhecia Lovatto pessoalmente, Dagoberto pediu uma descri\u00e7\u00e3o f\u00edsica do mesmo, o que lhe foi relatado com a m\u00e1xima precis\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Chegando ao hotel quase ao meio-dia, Dagoberto vislumbrou um homem de blazer que estava parado pr\u00f3ximo \u00e0 porta do estabelecimento. Ele correspondia perfeitamente \u00e0 descri\u00e7\u00e3o que lhe fora dada por Valdir.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, estacionou o ve\u00edculo na frente do hotel e, dali mesmo, perguntou ao homem em voz alta:<\/p>\n<p>-Tu \u00e9 o Lovatto?<\/p>\n<p>O homem aproximou-se do ve\u00edculo e respondeu:<\/p>\n<p>-Sou sim! Pois n\u00e3o?<\/p>\n<p>Obtida a identifica\u00e7\u00e3o positiva da autoridade, Dagoberto, muito expansivo, quis se mostrar simp\u00e1tico:<\/p>\n<p>-Como vai o amigo? Fez boa viagem?<\/p>\n<p>O homem, um tanto surpreso, respondeu:<\/p>\n<p>-Fiz sim&#8230;mas j\u00e1 faz um bom tempo!<\/p>\n<p>Querendo ampliar a camaradagem, Dagoberto replicou:<\/p>\n<p>-J\u00e1 est\u00e1 com fome? Tem um churrasco raiz a sua espera! Parecendo at\u00f4nito, o homem de blazer falou:<\/p>\n<p>-Agrade\u00e7o&#8230; mas vou ter que trabalhar at\u00e9 as quinze horas hoje. Um tanto confuso, Dagoberto tentou fazer gra\u00e7a:<\/p>\n<p>-Trabalhar? Nada disso! Hoje o homem da Serra merece uma folga com carne boa regada \u00e0 cerveja!<\/p>\n<p>Agora ainda mais perplexo, o homem ponderou:<\/p>\n<p>-Olha, talvez esteja havendo algum engano&#8230;<\/p>\n<p>-Como assim? Tu n\u00e3o \u00e9 o Lovatto?<\/p>\n<p>-Lovatto?<\/p>\n<p>Repentinamente, outro homem sa\u00eddo do hall do hotel dirige-se a Dagoberto:<\/p>\n<p>-Tu \u00e9 o Dagoberto da Associa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>-Sou sim&#8230;e quem \u00e9 o senhor?<\/p>\n<p>-Sou C\u00e9lio Lovatto, o Valdir me avisou que tu virias me buscar para o almo\u00e7o!<\/p>\n<p>Atarantado, Dagoberto dirigiu um olhar furioso para o homem com quem havia conversado at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>-Mas, afinal&#8230;o senhor \u00e9 quem?<\/p>\n<p>-Eu sou Ariclenes, recepcionista e controlador de acesso do hotel.<\/p>\n<p>-Ariclenes? Recepcionista? Mas quando eu perguntei&#8230;<\/p>\n<p>-Ah, entendi que o senhor tinha perguntado se eu era novato por aqui! E como trabalho no hotel h\u00e1 apenas uma semana&#8230;<\/p>\n<p>Constrangido at\u00e9 a medula, Dagoberto finalmente cumprimentou o verdadeiro Lovatto e falou apressadamente:<\/p>\n<p>-Vamos embora, Lovatto, o Valdir est\u00e1 nos esperando!<\/p>\n<p>-Quase me levaram por engano hein&#8230;sibilou sardonicamente, Ariclenes.<\/p>\n<p>-Como? quis saber Lovatto.<\/p>\n<p>Quase fuzilando novamente o recepcionista com os olhos, Dagoberto conduziu Lovatto para o carro e finalizou a conversa:<\/p>\n<p>-N\u00e3o d\u00e1 bola para esse sujeito, Lovatto. Ele n\u00e3o bate bem da cabe\u00e7a!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aspecto l\u00fadico da sonoridade das palavras e da sua repeti\u00e7\u00e3o sempre me encantou, posto que \u00e9 o alicerce central da poesia e, na minha opini\u00e3o, tamb\u00e9m um componente muito importante da prosa. 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