{"id":355667,"date":"2025-06-11T07:26:22","date_gmt":"2025-06-11T10:26:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355667"},"modified":"2025-06-11T07:27:30","modified_gmt":"2025-06-11T10:27:30","slug":"serrita-faz-festa-em-julho-para-manter-viva-a-cultura-do-sertao-de-pernambuco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/serrita-faz-festa-em-julho-para-manter-viva-a-cultura-do-sertao-de-pernambuco\/","title":{"rendered":"Serrita faz festa em julho para manter viva a cultura do sert\u00e3o de Pernambuco"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00e1 chegando a hora (e os dias) de provar que no sert\u00e3o, at\u00e9 o sil\u00eancio tem canto. E em julho, l\u00e1 pelas bandas de Serrita, no cora\u00e7\u00e3o empoeirado de Pernambuco, onde o galope vira ladainha e a f\u00e9 se veste de couro. A Missa do Vaqueiro n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 missa \u2014 \u00e9 manifesto. \u00c9 celebra\u00e7\u00e3o de um povo que se recusa a desaparecer, mesmo quando o ch\u00e3o racha e o c\u00e9u n\u00e3o chove. Quem j\u00e1 assistiu &#8211; estou entre esses privilegiados &#8211; abe disso.<\/p>\n<p>Desde 1970, quando o padre, o poeta e o vaqueiro se juntaram \u2014 Domingos S\u00e1vio, Luiz Gonzaga e Raimundo Jac\u00f3 (vivos apenas na mem\u00f3ria) \u2014 o sert\u00e3o viu nascer um altar no campo. Nada de vitral ou catedral. O templo \u00e9 o c\u00e9u aberto, e o incenso se mistura \u00e0 fuligem dos arreios.<\/p>\n<p>Chegam aos poucos, como quem n\u00e3o quer deixar pegada, mas deixam rastro de hist\u00f3ria; S\u00e3o os vaqueiros, com seus gib\u00f5es curtidos de sol e tempo, montados em cavalos que conhecem mais as veredas que o pr\u00f3prio GPS do mundo moderno. V\u00eam de todo canto, como romeiros de uma devo\u00e7\u00e3o sem dogma: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 f\u00e9 em Deus \u2014 \u00e9 f\u00e9 no gado, na seca que um dia passa, na vida que insiste em se manter viva.<\/p>\n<p>Quando l\u00e1 estive, naquele julho aceso de sol, dentre veio tamb\u00e9m Z\u00e9 Louren\u00e7o, o vaqueiro velho da Baixa do Mulungu. O cavalo, j\u00e1 cansado. Ele, mais ainda. O gib\u00e3o pendia nos ombros como rel\u00edquia. O couro do chap\u00e9u rachado parecia rezar junto com ele. Era sua \u00faltima Missa do Vaqueiro \u2014 pelo menos era o que dizia a si mesmo, e ao menino que trazia na garupa &#8211; o neto, Davi, olhos arregalados, primeira vez ali.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f4, e Raimundo Jac\u00f3 era de verdade? \u2014 perguntou Davi, entre o trote e o calor.<\/p>\n<p>\u2014 Era sim, meu filho. Morreu matado, mas vive todo ano nesse terreiro de f\u00e9. Era vaqueiro dos bons. Andava com as costas feridas, mas a alma limpa. Desses que n\u00e3o foge de gado nem de palavra.<\/p>\n<p>\u2014 E o senhor conheceu ele?<\/p>\n<p>Z\u00e9 co\u00e7ou o queixo encardido de tempo.<\/p>\n<p>\u2014 De vista e de respeito. Tava em toda conversa de fogueira. Vaqueiro n\u00e3o morre, Davi. Vira rastro, vira canto de aboio, vira exemplo.<\/p>\n<p>O menino ficou em sil\u00eancio. Guardava cada palavra como quem ajunta pedras para um futuro muro de lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Durante a missa, o velho Z\u00e9 fazia o sinal da cruz com a m\u00e3o firme. A b\u00ean\u00e7\u00e3o do padre parecia entrar pelas costuras do gib\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o ouvia bem, mas cada palavra lhe chegava inteira: &#8220;aben\u00e7oados sejam os vaqueiros do sert\u00e3o, os vivos e os que j\u00e1 se foram&#8221;.<\/p>\n<p>Na hora do ofert\u00f3rio, Z\u00e9 tirou do alforje uma espora antiga. Era do pai dele. Entregou ao neto, com a solenidade de um testamento:<\/p>\n<p>\u2014 Guarda, Davi. Isso aqui n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ferro. \u00c9 raiz.<\/p>\n<p>O menino segurou como se fosse um relic\u00e1rio. Depois, os dois voltaram em sil\u00eancio. Um pensava no fim. O outro, no come\u00e7o.<\/p>\n<p>Passaram-se muitos anos.<\/p>\n<p>A poeira subiu de novo pelas bandas de Serrita. Era julho, claro. O c\u00e9u, sem nuvem, mas cheio de promessa. E entre os vaqueiros que vinham de longe, surgiu um rapaz, montado firme, gib\u00e3o novo, mas j\u00e1 riscado de luta.<\/p>\n<p>Chamava-se Davi Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>Trazia na cintura a espora do av\u00f4. No rosto, a sombra do mesmo chap\u00e9u. No peito, um aperto doce \u2014 desses que s\u00f3 sente quem volta, depois que o mundo girou. Olhava o altar de ch\u00e3o batido com olhos de saudade e gratid\u00e3o. Sabia que agora era ele quem carregava a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na hora da missa, ajoelhou-se entre os velhos. Rezou com os olhos fechados. Quando o padre disse \u201cos vivos e os que j\u00e1 se foram\u201d, Davi n\u00e3o respondeu \u201cam\u00e9m\u201d. Respondeu com um aboio. Forte. Dolorido. Lindo.<\/p>\n<p>A Missa do Vaqueiro n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no calend\u00e1rio. Ela est\u00e1 no sangue. No couro. No choro contido. No orgulho em sil\u00eancio. Porque ali, entre um \u201cam\u00e9m\u201d e um aboio, o sert\u00e3o n\u00e3o apenas reza.<\/p>\n<p>Ele se reconhece. E se reconduz.<\/p>\n<p>Hoje fa\u00e7o minhas as palavras de Gon\u00e7alves Dias, em I Juca Pirama. &#8220;Meninos, eu vi&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 chegando a hora (e os dias) de provar que no sert\u00e3o, at\u00e9 o sil\u00eancio tem canto. 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