{"id":355748,"date":"2025-06-12T14:02:52","date_gmt":"2025-06-12T17:02:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355748"},"modified":"2025-06-12T14:03:53","modified_gmt":"2025-06-12T17:03:53","slug":"nos-dias-de-tanto-frio-um-mergulho-chulap-e-tudo-muda-com-historia-de-velho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nos-dias-de-tanto-frio-um-mergulho-chulap-e-tudo-muda-com-historia-de-velho\/","title":{"rendered":"Nos dias de tanto frio, um mergulho &#8211; chulap -, e tudo muda com hist\u00f3ria de velho"},"content":{"rendered":"<p>Estamos na praia. O mar logo ali. E, no entanto, o frio pega e o vento sul corta a alma. Alma?<\/p>\n<p>A pele sente gelo debaixo de tantas blusas. O corpo d\u00f3i enquanto o velho cara caminha buscando romper mais uma trilha. Por aqui \u00e9 mesmo assim: ver\u00e3o de festa; inverno de capote pesado, cachecol, gorro de l\u00e3 e trilhas a caminhar.<\/p>\n<p>Faz anos que o cara cumpre a mesma rotina das esta\u00e7\u00f5es. Mais um inverno e enfrentamento. &#8220;(&#8230;) no junho passado foi aquele encontro com a doidinha no Cost\u00e3o. Neste junho, o que ser\u00e1?&#8221;<\/p>\n<p>Passado o tempo de abertura do mercadinho, o cara terminou o caf\u00e9 com p\u00e3o de queijo na padaria da pequena vila, comprou cigarros e foi caminhar.<\/p>\n<p>Chegou na Prainha e a mar\u00e9 era vazante. Lembrou-se de dona Nh\u00e1 Biloca e das rezas contra o quebranto. Tirou as chinelas e molhou os p\u00e9s feito ritual. E a\u00ed veio o drag\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;T\u00e1 a fim de ir? Munta a\u00ed, se agarra nas escamas e vamos nessa!&#8221;<\/p>\n<p>O cara nem pensou duas vezes. E l\u00e1 foram eles em dire\u00e7\u00e3o ao mar grande.<\/p>\n<p>Chulap e Chulap &#8211; mergulha e volta. E o cara agarrado na escama dorsal do drag\u00e3o seguindo firme.<\/p>\n<p>&#8220;Agora \u00e9 a divisa, o mar grande. Vamos?&#8221;<\/p>\n<p>Chulap e foram.<\/p>\n<p>Logo avistou a Ilha dos Corais. O Cost\u00e3o de pedras era o \u00fanico porto poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O drag\u00e3o gritou para o cara pular. E l\u00e1 foi ele se esfolando pelas pedras com navalhas de mariscos&#8230; Aportou. Estava na ilha.<\/p>\n<p>Subiu pela picada em meio ao caminho na pequena mata. Chegou em frente \u00e0 casa&#8230; Anos se misturaram. N\u00e3o sabia mais do ontem e nem do hoje.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m na pequena casa. Lembrou-se na caverna de pedras sobre o mar. E l\u00e1 estava ele:<\/p>\n<p>&#8220;Seu Jo\u00e3o!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Oi, Jo\u00e3o para te servi, fio!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o era poss\u00edvel! Seu Jo\u00e3o morrera h\u00e1 mais de vinte anos! Mas estava ali mais forte que o cara ainda todo cortado dos mariscos nas pedras.<\/p>\n<p>&#8220;Vem c\u00e1 fio, vamu por umas plantinhas a\u00ed&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>O cara dormiu at\u00e9 a manh\u00e3 do outro dia. Acordou e Seu Jo\u00e3o estava ao lado dele.<\/p>\n<p>Perguntou como seria isto poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Seu Jo\u00e3o apenas respondeu:<\/p>\n<p>&#8220;Ihhh&#8230;morri l\u00e1 no continente, mas voltei pra casa, aqui na ilha.&#8221;<\/p>\n<p>Durante a semana foram dias m\u00e1gicos. Pescarias, madrugadas contando causos e hist\u00f3rias, e cantando can\u00e7\u00f5es com o viol\u00e3o velhinho dele.<\/p>\n<p>Teve at\u00e9 a ca\u00e7a aos gamb\u00e1s da ilha com potes de cacha\u00e7a na frente da cabana. Os gamb\u00e1s bebiam e amanheciam chapados.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 chegara a hora.<\/p>\n<p>&#8220;Vai fio, vorta pra l\u00e1. L\u00e1 ainda \u00e9 o teu lugar&#8221;.<\/p>\n<p>O cara abra\u00e7ou o Seu Jo\u00e3o para nunca mais. Subiu no dorso do drag\u00e3o e seguiram pelo mar rumo ao rio da Guarda. Na beira da Prainha, o cara ainda pode ouvir o drag\u00e3o desejando felicidades e aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se esque\u00e7a das sand\u00e1lias, os p\u00e9s doem, meu amigo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>*Gilberto Motta<\/strong>: jornalista, professor, escritor. Nasceu num circo teatro rodando pelo interior do Brasil. Estudou, fez mestrado e virou professor. Aposentou-se h\u00e1 alguns anos e vive na pequena comunidade da Guarda do Emba\u00fa SC. De l\u00e1, envia os sinais de fuma\u00e7a atrav\u00e9s de seus textos e garrafas de algoritmos n\u00e1ufragos.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>*Tasso Claudio Scherer<\/strong>, nascido em Florian\u00f3polis, \u00e9 um ex\u00edmio captador de imagens do cotidiano da cidade, embora se declare fot\u00f3grafo amador por excel\u00eancia. Come\u00e7ou a fotografar em 2011, para acompanhar o nascimento e crescimento do filho ca\u00e7ula. Gostou da empreitada e foi se aperfei\u00e7oando com diversos cursos, entre os que se destacam no Senac e na Univali. Dono da livraria &#8220;Desterrados&#8221;, na Rua Tiradentes, no Centro de Florian\u00f3polis, busca sempre um \u00e2ngulo diferenciado nas suas fotos. A Ilha e sua luz; as ruas e casar\u00f5es; o mar e os amanheceres s\u00e3o suas molduras preferidas. N\u00e3o gosta &#8220;do cinza, nem do fascismo.&#8221; Gosta &#8220;da vida, das cores e das gentes&#8221;. Fonte Tasso Scherer &#8211; Minha hist\u00f3ria &#8211; Floripa Centro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos na praia. O mar logo ali. E, no entanto, o frio pega e o vento sul corta a alma. Alma? A pele sente gelo debaixo de tantas blusas. O corpo d\u00f3i enquanto o velho cara caminha buscando romper mais uma trilha. 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