{"id":355755,"date":"2025-06-12T13:50:24","date_gmt":"2025-06-12T16:50:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355755"},"modified":"2025-06-12T14:31:08","modified_gmt":"2025-06-12T17:31:08","slug":"esquece-que-existo-disse-o-pistonista-e-o-mundo-quase-vive-novo-dias-do-diluvio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/esquece-que-existo-disse-o-pistonista-e-o-mundo-quase-vive-novo-dias-do-diluvio\/","title":{"rendered":"Esquece que existo, disse o pistonista. E o mundo quase vive novo dias do dil\u00favio"},"content":{"rendered":"<p>Escrevi certa vez que gosto de transformar piadas cabeludas, que aprendi na adolesc\u00eancia, em contos. Este texto pertence a esse g\u00eanero, digamos, piadesco-contesco.<\/p>\n<p>Um esclarecimento, na piada, o personagem se chama Kalil, o que propicia uma rima cabeluda e quase her\u00e9tica. Mantive a quase heresia, mas mudei o nome do cara para Manuel, com a idade, estou ficando mais comedido (aten\u00e7\u00e3o, uma palavra s\u00f3 e com o). E acrescentei novos elementos n\u00e3o piadescos. \u00c9 o jeito, escrevo contos&#8230;<br \/>\n&#8230;..<br \/>\nManuel, 35 anos, era um p\u00e9ssimo tocador de piston. Participava de uma banda de jazz e da charanga que animava os bailinhos na cidade, mas o que o levava ao s\u00e9timo c\u00e9u era acompanhar, com seu piston, as prociss\u00f5es locais. Era crist\u00e3o fervoroso, embora seu comportamento n\u00e3o fosse dos mais cat\u00f3licos: tra\u00e7ava, naturalmente em segredo, a mulher de um colega de banda, pegava, em segredo maior ainda, a filha de 20 anos do casal (filha de cria\u00e7\u00e3o, mas duvidava que, se o corno e a amante descobrissem, se ativessem a tais detalhes). Enfim, reconhecia que, com sua vida, iria direto pro inferno, mas tinha esperan\u00e7a de que sua f\u00e9 e a presen\u00e7a em todas as manifesta\u00e7\u00f5es religiosas o pudessem salvar.<\/p>\n<p>Certa noite, uma prociss\u00e3o serpenteava pelas ruas, e ele imp\u00e1vido, com seu piston. Sentia uma religiosidade maior que a habitual crescer em seu peito e se ofereceu de corpo e alma a Jesus, murmurando, \u201cMestre, quero segui-Lo\u201d. De repente, deixou o n\u00edvel dos c\u00e9us, voltou \u00e0 terra e tremeu nas bases. Sabia que, no final do evento, seria entoada uma can\u00e7\u00e3o em louvor \u00e0 Virgem em que ele sempre derrapava. Mas preparou-se e foi em frente, n\u00e3o tinha outro jeito.<\/p>\n<p>A tigrada comprimiu-se na pra\u00e7a principal, onde uma int\u00e9rprete apresentaria a composi\u00e7\u00e3o \u201cAve Maria dos seus andores\u201d, sucesso na voz de Aguinaldo Rayol. A mulher n\u00e3o lhe chegava aos p\u00e9s, mas, Manuel sabia, pelo menos n\u00e3o desafinava. J\u00e1 ele e seu piston&#8230;<\/p>\n<p>Foi entoada a primeira metade do primeiro verso, \u201cAve Maria\u201d. Manuel sapecou logo em seguida, \u201cLa la li la l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, meu bom Jesus, n\u00e3o desafinei \u2013 murmurou, enquanto se preparava para a continua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDos seus andores&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cLa la li la d\u00e3&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E o piston de Manuel, como sempre fazia, derrapou nas notas finais.<\/p>\n<p>Nesse momento, ele viu a imagem de Jesus libertar-se das madeiras a que suas m\u00e3os e p\u00e9s estavam presos e manifestar-se em toda a Sua gl\u00f3ria. Foi um ser de aspecto heroico que lhe dirigiu as seguintes palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Se quiseres siga-Me, Manuel. Mas vai tocar piston mal assim na casa do chap\u00e9u!<\/p>\n<p>(Esse era o fim da piada, com uma rima das cascudas para Kalil, nada dif\u00edcil de imaginar. Ao chamar o pistonista de Manuel, a coisa ficou mais amena E a conclus\u00e3o \u00e9 exclusivamente deste escriba.)<\/p>\n<p>Manuel ficou possesso. Sabia que n\u00e3o tocava bem, mas foi sacanagem de JC zoar com ele, em plena prociss\u00e3o. E quase falando palavr\u00e3o? Era um bom improvisador, como todo jazzista, deu o troco de bate-pronto.<\/p>\n<p>&#8211; Cristo, olha pra isto! Olha, JC, esquece que eu existo!<\/p>\n<p>Jesus tinha outros planos. De um momento para outro, Manuel deixou de existir; simultaneamente, desapareceram todas as mem\u00f3rias e registros de sua passagem pela Terra. Sumiram o RG, o certificado de reservista, boletos em seu nome, tudo que o designasse; e foi varrido da mente dos que o conheciam: seus pais, amigos, desafetos e meros conhecidos, os colegas da charanga e da banda de jazz, o corno, a amante e a dadivosa filha do casal. (Por um tempo, m\u00e3e e filha ficaram com uma inexplic\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de vazio interior, logo preenchido pelos pr\u00e9stimos de sol\u00edcitos cavalheiros.)<\/p>\n<p>Animado, Jesus at\u00e9 pensou em aproveitar o embalo e acabar com toda a esp\u00e9cie humana, como seu Pai havia feito nos dias de No\u00e9, mas desistiu, afinal a coisa n\u00e3o era t\u00e3o grave assim. Deu de ombros e voltou \u00e0 cruz a que estava preso.<\/p>\n<p>Quando acabou a can\u00e7\u00e3o, a tigrada na pra\u00e7a se dispersou, toda pimpona, sem saber que a humanidade escapara por pouco de uma segunda extin\u00e7\u00e3o, mais definitiva que o Dil\u00favio. Tudo culpa de um mau pistonista que n\u00e3o aceitava cr\u00edticas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevi certa vez que gosto de transformar piadas cabeludas, que aprendi na adolesc\u00eancia, em contos. Este texto pertence a esse g\u00eanero, digamos, piadesco-contesco. Um esclarecimento, na piada, o personagem se chama Kalil, o que propicia uma rima cabeluda e quase her\u00e9tica. 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