{"id":355805,"date":"2025-06-13T09:10:34","date_gmt":"2025-06-13T12:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355805"},"modified":"2025-06-13T09:53:33","modified_gmt":"2025-06-13T12:53:33","slug":"paula-e-eulalia-tinham-muito-em-comum-inclusive-o-marido-amante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/paula-e-eulalia-tinham-muito-em-comum-inclusive-o-marido-amante\/","title":{"rendered":"Paula e Eul\u00e1lia tinham muito em comum, inclusive o marido-amante"},"content":{"rendered":"<p>Paula colocou o vestido mais s\u00f3brio que possu\u00eda e maquiou-se discretamente, bem menos que o habitual. Enfeitou-se com fitas, adorava faz\u00ea-lo. \u201c\u00c9 como se envolvessem n\u00e3o meu corpo, mas minha ess\u00eancia de mulher\u201d, imaginou sonhadora. Colocou um colarzinho dourado, presente do Afr\u00e2nio. Olhou-se criticamente no espelho e gostou do que viu. Ia a um escrit\u00f3rio de advocacia, pois Jorge, um amante velho, rico e rec\u00e9m-falecido, a havia contemplado no testamento. \u201cNa certa me deixou uma lembrancinha sem valor\u201d, disse para si mesma com uma ponta de amargura. \u201cQue nem esse colar. \u00c9 o que sempre fazem&#8230;\u201d. E saiu.<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia colocou um vestido elegante, com um decote um pouquinho mais ousado, e maquiou-se. P\u00f4s um lindo colar de p\u00e9rolas, presente do Afr\u00e2nio. Olhou-se criticamente no espelho e gostou do que viu. Ia ao m\u00e9dico e depois faria umas comprinhas. &#8220;Adoro ir de loja em loja, \u00e9 o jeito para trazer alguma cor \u00e0 minha vida mon\u00f3tona\u201d, disse para si mesma com uma ponta de amargura. \u201c\u00c9 o que sempre fa\u00e7o\u201d. E saiu.<\/p>\n<p>Entraram quase juntas no mesmo edif\u00edcio, tomaram s\u00f3 as duas o elevador, apertaram andares diferentes, o 13\u00ba e o 16\u00ba. Mas, no 11\u00ba andar, o aparelho parou de repente, com um solavanco. Minutos depois, pelo comunicador, um funcion\u00e1rio explicou que sentia muito, mas o conserto levaria no m\u00ednimo meia hora.<\/p>\n<p>As duas mulheres se entreolharam, num sil\u00eancio inc\u00f4modo. Minutos depois, Paula n\u00e3o resistiu:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, a senhora \u00e9 dona Eul\u00e1lia, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia olhou-a da cabe\u00e7a aos p\u00e9s e viu uma mulher madura, ainda atraente, com um rosto simp\u00e1tico. Vestia roupas simples mas n\u00e3o vulgares (exceto, talvez, pelas fitas, que ainda assim combinavam com ela).<\/p>\n<p>Respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Sou sim. E a senhora \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me chame de senhora, sou a Paula&#8230; \u2013 falou com um risinho.<\/p>\n<p>Calou-se, respirou fundo, como se tivesse chegado a uma decis\u00e3o, e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Ficar presa neste elevador me d\u00e1 a oportunidade de falar com a senhora, o que nunca imaginei que fosse acontecer. A senhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Me chama de voc\u00ea &#8211; interrompeu Eul\u00e1lia, interessada na conversa, apesar de sentir que pisava terreno perigoso, provavelmente ouviria coisas que a machucariam.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 bom \u2013 concordou Paula. \u2013 Voc\u00ea e eu temos muita coisa em comum. Somos mulheres maduras, mais ou menos da mesma idade. E temos o Afr\u00e2nio&#8230; \u2013 completou olhando a outra nos olhos, desafiadora.<\/p>\n<p>-\u00c9, j\u00e1 sabia que ele tinha uma&#8230; \u2013 N\u00e3o completou, nem precisava.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, sou a outra do Afr\u00e2nio. Ele faz quest\u00e3o que eu n\u00e3o me vista como uma vagabunda, gosta de me exibir para os amigos. \u2013<\/p>\n<p>E deu uma guinada na conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, j\u00e1 tinha visto voc\u00ea de longe, mas o que reconheci foi o colar. Ele me mostrou no dia em que comprou. Como pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o, me deu essa correntinha dourada. E esperou que eu demonstrasse, na cama, todo o meu agradecimento&#8230;Que imbecil!<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia sorriu, mesmo sem querer. Tinha a mesma opini\u00e3o sobre o marido.<\/p>\n<p>E prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Posso perguntar o que a levou a essa vida?<\/p>\n<p>&#8211; Olha, muitas de n\u00f3s falam em incesto, em abandono pelo namorado depois que ele se aproveitou delas. E em muitos casos \u00e9 a pura verdade. Tamb\u00e9m se fala que \u00e9 um problema social, express\u00e3o do machismo, da domina\u00e7\u00e3o do homem sobre as mulheres, e claro que \u00e9 verdade. Mas a coisa \u00e9 mais complicada. N\u00e3o d\u00e1 pra fazer isso sem gostar de sexo, e nem todas as mulheres gostam. Eu adoro, fiz escolhas erradas, ganhava muito dinheiro e presentes caros, depois eles diminu\u00edram e hoje \u00e9 tarde demais para seguir outro caminho.<\/p>\n<p>Paula continuou a falar, como se quisesse aproveitar cada segundo daquele tempo fora do tempo para desabafar.<\/p>\n<p>&#8211; Uma coisa \u00e9 certa: quem inventou a express\u00e3o \u201cmulher de vida f\u00e1cil\u201d n\u00e3o sabia o que estava dizendo. Por exemplo, voc\u00ea com certeza nunca passou fome, eu j\u00e1, diversas vezes. Os homens pensam em voc\u00ea como uma mulher atraente, em mim como uma mulher gostosa e coisas mais pesadas.<\/p>\n<p>Mas a coisa \u00e9 mais complicada,, mulher alguma tem vida f\u00e1cil. As m\u00e3os dos homens, do Afr\u00e2nio, deixam marcas vis\u00edveis na minha pele, na sua as marcas s\u00e3o invis\u00edveis mas est\u00e3o a\u00ed, uma mulher consegue v\u00ea-las. E concluiu, com uma guinada que surpreendeu a si mesma:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, tenho pena de voc\u00ea. Alugo meu corpo a Afr\u00e2nio, mas voc\u00ea \u00e9 dele, pertence a ele. \u2013 E o Afr\u00e2nio \u00e9 horr\u00edvel na cama! \u2013 acrescentou com um sorriso c\u00famplice, de mulher para mulher. \u2013 Grunhe feito um porco enquanto transa e n\u00e3o me espera nunca, s\u00f3 pensa nele! Voc\u00ea j\u00e1 teve prazer em seus bra\u00e7os?<\/p>\n<p>Eul\u00e1lia relutou em responder mas admitiu.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca \u2013, falou num fio de voz.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 que posso ter outros homens. Posso mont\u00e1-los, dom\u00e1-los e, \u00e0s vezes, chegar ao cl\u00edmax. H\u00e1 noites em que me entrego por uma car\u00edcia, um gesto carinhoso, por um poema. Voc\u00ea muito provavelmente n\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 propriedade privada dele, uma mulher privada de um amante. Tadinha!<\/p>\n<p>Nesse momento, o funcion\u00e1rio da portaria informou que o elevador se moveria em instantes.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, aproveitei esse tempo e esse espa\u00e7o m\u00e1gicos para botar pra fora muitas coisas que sentia sobre Afr\u00e2nio. E para dizer que minha vida \u00e9 dura, mas tem momentos de prazer. A sua&#8230; \u2013 n\u00e3o completou, nem precisava.<\/p>\n<p>Paula falou r\u00e1pido, enquanto o elevador subia:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pretendo tornar a ver o Afr\u00e2nio, voc\u00ea agora \u00e9 minha amiga \u2013 e acrescentou com um sorriso ir\u00f4nico. \u2013 Se bem que nem sempre cumpro minhas promessas&#8230;<\/p>\n<p>O elevador deteve-se no 13\u00ba andar, a porta se abriu e Paula saiu para o corredor.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, minha amiga. Que os anjos a protejam.<\/p>\n<p>&#8211; E a voc\u00ea tamb\u00e9m, minha amiga \u2013 respondeu Eul\u00e1lia, antes que a porta fechasse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula colocou o vestido mais s\u00f3brio que possu\u00eda e maquiou-se discretamente, bem menos que o habitual. Enfeitou-se com fitas, adorava faz\u00ea-lo. \u201c\u00c9 como se envolvessem n\u00e3o meu corpo, mas minha ess\u00eancia de mulher\u201d, imaginou sonhadora. Colocou um colarzinho dourado, presente do Afr\u00e2nio. Olhou-se criticamente no espelho e gostou do que viu. 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