{"id":355842,"date":"2025-06-14T09:51:44","date_gmt":"2025-06-14T12:51:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355842"},"modified":"2025-06-14T09:52:46","modified_gmt":"2025-06-14T12:52:46","slug":"o-quebra-cabeca-da-anita-malfatti-que-deu-mais-de-uma-dor-de-cabeca-pra-montar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-quebra-cabeca-da-anita-malfatti-que-deu-mais-de-uma-dor-de-cabeca-pra-montar\/","title":{"rendered":"O quebra-cabe\u00e7a da Anita Malfatti que deu mais de uma dor de cabe\u00e7a pra montar"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se acontece a\u00ed com voc\u00ea, mas, aqui em casa, alguns brinquedos parecem ter vida pr\u00f3pria. Do nada, somem, como se fossem dar um passeio. Nem avisam. Nem se preocupam se vamos ou n\u00e3o sentir sua falta. No entanto, para minha surpresa, quase me fazem soltar um palavr\u00e3o vez ou outra.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, tu t\u00e1 a\u00ed, seu filho da m\u00e3e?<\/p>\n<p>Geralmente \u00e9 atr\u00e1s do sof\u00e1, debaixo da almofada do sof\u00e1, entranhado naquelas frestas do maldito sof\u00e1. Entretanto, pode se esconder, na maior cara de pau, diante dos nossos olhos bem em cima da bancada da cozinha. Mas o que mais me irrita \u00e9 ter que completar as pe\u00e7as do jogo de damas com uma tampinha de refrigerante.<\/p>\n<p>Tenho c\u00e1 minhas ideias e, com elas, acabei desenvolvendo teoria pr\u00f3pria. Nem sei se \u00e9 v\u00e1lida cientificamente, mas \u00e9 nela em que acredito. Brinquedos possuem almas sarc\u00e1sticas e, por isso, gostam de aplicar pe\u00e7as nos seres humanos. Inclusive aquelas tais pe\u00e7as de lego o fazem com frequ\u00eancia e certa maldade. Quem, afinal, nunca pisou em uma maldita pe\u00e7a de lego? E, comigo, \u00e9 sempre quando estou descal\u00e7a e, invariavelmente, naquela parte do p\u00e9 que mais d\u00f3i, tamanho o desprovimento de carnes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra que aconteceu comigo foi quando inventei de montar um quebra-cabe\u00e7a de mil pe\u00e7as. Logo eu, que nunca tive paci\u00eancia para essas tarefas de candidatos \u00e0 NASA. Seja como for, fui l\u00e1 e, destemida que estava, comprei aquela caixa repleta de desafios. Ao menos, a imagem a ser formada muito me agradava: um quadro da Anita Malfatti.<\/p>\n<p>Mal cheguei ao lar, doce lar, avisei a todos que a mesa da sala ficaria ocupada por tempo indeterminado, pois seria ali que eu iria encaixar todas aquelas pecinhas min\u00fasculas at\u00e9 que, finalmente, me depararia com uma das obras de arte da minha pintora favorita.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, mam\u00e3e, onde a gente vai comer?<\/p>\n<p>\u2014 No sof\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a senhora nunca deixou.<\/p>\n<p>\u2014 Pois, a partir de hoje, est\u00e1 permitido. Mas nada de limpar os dedos nas almofadas!<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 bom.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o quero ver nem uma migalha de p\u00e3o caindo no meu sof\u00e1!<\/p>\n<p>Depois dos avisos dados de maneira ponderada, l\u00e1 fui eu, aos 44 anos, tomar coragem para come\u00e7ar o desafio de uma vida inteira. Assim que abri a caixa, tomei aquele baita susto. Nunca imaginei que mil pe\u00e7as fossem algo t\u00e3o numeroso. Mil? Mil. Mil! Mil!! Mil!!! Mil, sim, senhora!<\/p>\n<p>Tentei n\u00e3o demonstrar espanto diante dos olhares da minha filha e do meu marido. \u00c9 l\u00f3gico que n\u00e3o daria o bra\u00e7o a torcer \u00e0quela altura do campeonato. E, apesar do quase nocaute, precisava me recompor para bolar uma estrat\u00e9gia para, caso perdesse, que fosse por pontos. A briga seria renhida, mesmo porque nunca fui de levar desaforo para casa.<\/p>\n<p>Os primeiros dias foram aguerridos, ningu\u00e9m ousava me perturbar enquanto eu me engalfinhava com aquelas incont\u00e1veis mil pe\u00e7as sobre a mesa. Talvez minha fam\u00edlia estivesse at\u00e9 gostando, pois deixou de ouvir minhas broncas na hora das refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Juliana, tire os cotovelos da mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Adriano, voc\u00ea precisa mesmo fazer barulho enquanto mastiga?<\/p>\n<p>\u2014 Quando \u00e9 que voc\u00eas v\u00e3o aprender que o garfo fica na m\u00e3o esquerda?<\/p>\n<p>J\u00e1 na segunda semana, meu corpo come\u00e7ou a sentir cansa\u00e7o. A mente, ent\u00e3o, j\u00e1 havia se pirulitado para o espa\u00e7o. E olha que, apesar da figura come\u00e7ar a tomar forma, ainda faltava boa parte daquelas pe\u00e7as do Diabo. Afinal, quem foi o cretino que inventou um jogo que s\u00f3 se pode perder?<\/p>\n<p>\u2014 Mara, meu amor, voc\u00ea t\u00e1 precisando de ajuda?<\/p>\n<p>\u2014 Ajuda? T\u00e1 me chamando de incompetente?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, querida. S\u00f3 que voc\u00ea parece estar obcecada com essa coisa.<\/p>\n<p>Nem quis prosseguir com aquela discuss\u00e3o, pois bem sabia que n\u00e3o iria acabar bem. Voltei meus olhos para aquele ex\u00e9rcito inimigo e fiquei ali por horas. Alguns progressos, afinal. Aos poucos, encaixei pe\u00e7a por pe\u00e7a e, quando o dia estava amanhecendo, eis que restava apenas um espa\u00e7o para a \u00faltima.<\/p>\n<p>Cad\u00ea a derradeira pe\u00e7a? Teria se escondido atr\u00e1s do sof\u00e1, debaixo das almofadas ou, ent\u00e3o, se embrenhado naquelas frestas trai\u00e7oeiras? Por mais que eu procurasse, n\u00e3o conseguia encontr\u00e1-la, at\u00e9 que percebi a Bebel, nossa buldogue, com algo na boca. N\u00e3o era poss\u00edvel que a danada estivesse mastigando a \u00faltima pe\u00e7a. E n\u00e3o \u00e9 que estava?!<\/p>\n<p>Consegui salvar aquele pedacinho de papel\u00e3o ou, ent\u00e3o, o que restou dele. Um pouco amassado, cheio de baba e sem uma ponta. N\u00e3o fiquei com raiva da Bebel por isso, j\u00e1 que tive at\u00e9 vontade de rir. Ali\u00e1s, gargalhei e meus olhos se encheram de l\u00e1grimas. Peguei a coleira da minha filha de quatro patas e fomos dar uma volta.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quando irei comprar outro quebra-cabe\u00e7a. Ouvi dizer que existem alguns de cinco mil pe\u00e7as e de at\u00e9 muito mais. N\u00e3o sei&#8230; Bem, talvez aconte\u00e7a, mas n\u00e3o no momento. Vou passar um tempo apenas jogando bolinha para a Bebel, que adora. Quanto \u00e0 mesa, voltou \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o original. Mas nada de colocar os cotovelos!<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro 57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/15.0.3\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se acontece a\u00ed com voc\u00ea, mas, aqui em casa, alguns brinquedos parecem ter vida pr\u00f3pria. Do nada, somem, como se fossem dar um passeio. 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