{"id":355888,"date":"2025-06-15T06:10:29","date_gmt":"2025-06-15T09:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=355888"},"modified":"2025-06-15T09:17:42","modified_gmt":"2025-06-15T12:17:42","slug":"marco-temporal-coloca-os-indigenas-contra-a-parede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/marco-temporal-coloca-os-indigenas-contra-a-parede\/","title":{"rendered":"Marco temporal coloca os  ind\u00edgenas contra a parede"},"content":{"rendered":"<p>A aprova\u00e7\u00e3o do novo marco temporal pela C\u00e2mara dos Deputados representa um dos maiores retrocessos nos direitos dos povos ind\u00edgenas desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira. A proposta estabelece que s\u00f3 teriam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de terras os povos que estivessem nelas no dia 5 de outubro de 1988, data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o. Essa l\u00f3gica legalista ignora s\u00e9culos de viol\u00eancia, expuls\u00f5es for\u00e7adas, massacres e deslocamentos sofridos pelas popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias, como se os ind\u00edgenas tivessem a chance de &#8220;provar resid\u00eancia&#8221; enquanto eram perseguidos e assassinados em nome do progresso.<\/p>\n<p>Esse marco temporal n\u00e3o apenas \u00e9 injusto, mas tamb\u00e9m inconstitucional. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 reconhece o direito origin\u00e1rio dos povos ind\u00edgenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam, direito esse que independe da posse f\u00edsica na data exata da promulga\u00e7\u00e3o. Impor um limite temporal \u00e9 desconsiderar a hist\u00f3ria colonial brasileira e legitimar invas\u00f5es hist\u00f3ricas. Trata-se de um revisionismo disfar\u00e7ado de legalidade, mas que atende claramente a interesses econ\u00f4micos muito bem definidos.<\/p>\n<p>O principal beneficiado? O agroneg\u00f3cio. Mais precisamente, a ala predat\u00f3ria do setor, que tem nas terras ind\u00edgenas uma fronteira desejada para expans\u00e3o de pastagens, monoculturas de exporta\u00e7\u00e3o e minera\u00e7\u00e3o. Com o marco temporal, grandes latifundi\u00e1rios ganham mais poder para avan\u00e7ar sobre \u00e1reas preservadas e culturalmente significativas, enquanto os povos origin\u00e1rios perdem territ\u00f3rio, dignidade e futuro. A justificativa? A produtividade. Mas para quem?<\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio brasileiro que defende o marco temporal n\u00e3o traz os frutos que propagandeia. Ele concentra riqueza, devasta biomas inteiros, contamina rios com agrot\u00f3xicos, gera conflitos fundi\u00e1rios violentos e expulsa popula\u00e7\u00f5es tradicionais. O suposto progresso n\u00e3o chega \u00e0s comunidades ind\u00edgenas, nem melhora os \u00edndices sociais do Brasil. O que vemos \u00e9 uma elite rural que se alimenta de incentivos p\u00fablicos, lucra com exporta\u00e7\u00f5es e n\u00e3o devolve ao pa\u00eds os benef\u00edcios prometidos, nem em empregos, nem em alimentos saud\u00e1veis, nem em sustentabilidade.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os povos ind\u00edgenas, verdadeiros guardi\u00f5es da biodiversidade, s\u00e3o criminalizados por viverem em equil\u00edbrio com a terra. O marco temporal n\u00e3o apenas os ignora, os condena \u00e0 invisibilidade jur\u00eddica, \u00e0 perda de direitos, \u00e0 viol\u00eancia. A luta contra esse projeto \u00e9 uma luta pela vida, pelo meio ambiente, pela justi\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>A sociedade civil, felizmente, tem se posicionado. Mobiliza\u00e7\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es, a\u00e7\u00f5es judiciais e resist\u00eancia em todos os n\u00edveis, mostram que os povos ind\u00edgenas n\u00e3o est\u00e3o sozinhos. Mas o avan\u00e7o do projeto revela o quanto o Congresso Nacional, est\u00e1 comprometido com interesses privados em detrimento do bem comum. Aprovar o marco temporal \u00e9 institucionalizar o genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de uma disputa por terra. Trata-se de decidir que Brasil queremos: um pa\u00eds que reconhece e respeita sua diversidade, sua hist\u00f3ria e seus povos origin\u00e1rios, ou um pa\u00eds ref\u00e9m do lucro f\u00e1cil e da destrui\u00e7\u00e3o ambiental. A escolha deveria ser \u00f3bvia. Mas, no Brasil de 2025, infelizmente, a gan\u00e2ncia ainda fala mais alto que a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Colaboradora permanente do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio, Rafaela Lopes escreve eventualmente mat\u00e9rias para outras editorias de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aprova\u00e7\u00e3o do novo marco temporal pela C\u00e2mara dos Deputados representa um dos maiores retrocessos nos direitos dos povos ind\u00edgenas desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira. A proposta estabelece que s\u00f3 teriam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de terras os povos que estivessem nelas no dia 5 de outubro de 1988, data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o. 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