{"id":356080,"date":"2025-06-18T07:54:07","date_gmt":"2025-06-18T10:54:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356080"},"modified":"2025-06-18T10:33:39","modified_gmt":"2025-06-18T13:33:39","slug":"coisa-la-do-sertao-seja-alma-ou-assombracao-mentira-bem-contada-vira-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/coisa-la-do-sertao-seja-alma-ou-assombracao-mentira-bem-contada-vira-verdade\/","title":{"rendered":"Coisa l\u00e1 do Sert\u00e3o, seja alma ou assombra\u00e7\u00e3o, mentira bem contada vira verdade"},"content":{"rendered":"<p>Pela estrada de terra batida, que serpenteava feito cobra pregui\u00e7osa no meio do mato, avan\u00e7ava, em marcha pouco mais que resignada, um burro de pelo ru\u00e7o, magro nas costelas e triste no olhar. Sobre ele, pendurado feito espantalho bem vestido, vinha um sujeito de fraque gasto, chap\u00e9u de abas largas, botinas encharcadas de lama seca e um semblante que misturava cansa\u00e7o, desgosto e uma certa indigna\u00e7\u00e3o contra os caprichos da natureza sertaneja.<\/p>\n<p>Seu nome: Janu\u00e1rio Monteiro, mo\u00e7o de letras, fidalgo de estudo, comissionado pelo Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Imp\u00e9rio para o nobre of\u00edcio de registrar, com penas, tinteiro e papel, as paisagens, o falar, as gentes e os costumes das regi\u00f5es long\u00ednquas desse vasto e misterioso Brasil.<\/p>\n<p>Naquele dia, de calor brabo e c\u00e9u azul de lascar, alcan\u00e7ava enfim as porteiras do arraial de S\u00e3o Bento do Sumidouro, vila esquecida pelo progresso, mas fervilhante de causos, cren\u00e7as e assombra\u00e7\u00f5es que, segundo diziam, nem o diabo tinha coragem de conferir muito de perto.<\/p>\n<p>Ao descer do burro, ajudado por um moleque magricela que sorriu mostrando os dentes brancos feito milho de pipoca, Janu\u00e1rio respirou fundo e encarou o cen\u00e1rio: casas de pau-a-pique, algumas de adobe, outras mais abonadas de tijolo, uma igrejinha torta com a cruz meio bamba no topo e, dominando a paisagem, a imponente casa-grande do Coronel Ambr\u00f3sio Pe\u00e7anha, Bar\u00e3o do Sumidouro, senhor de terras, de gado e, dizem, tamb\u00e9m das vontades de meio mundo dali, daquela aristocracia rural, de unhas sujas e roupas desalinhadas, muito comum no interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Bar\u00e3o, homem de porte largo, barriga avantajada e bigode que parecia duas vassouras de pia\u00e7ava viradas pra cima, aguardava o viajante vergando um terno solto, de linho branco, recostado na varanda de sua casa, balou\u00e7ando-se numa cadeira de palhinha, enquanto mascava fumo e enxotava mosca com um leque de folha de bananeira.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, ora&#8230; \u2014 rosnou entre dentes, levantando-se com esfor\u00e7o e estendendo a m\u00e3o calosa \u2014 Se num \u00e9 o dot\u00f4 Monteiro! Seja bem-vindo vossa merc\u00ea a este peda\u00e7o de mundo esquecido, onde at\u00e9 as assombra\u00e7\u00e3o t\u00eam conta na venda.<\/p>\n<p>\u2014 Muito grato, sr. Bar\u00e3o&#8230; \u2014 respondeu Janu\u00e1rio, apertando-lhe a m\u00e3o com certo receio, olhando de soslaio uma galinha que, atrevida, ciscava-lhe as botas \u2014 Vim na miss\u00e3o de recolher informa\u00e7\u00f5es sobre os costumes, as pr\u00e1ticas, os falares e&#8230; qui\u00e7\u00e1, os mitos locais.<\/p>\n<p>O brasonado puxou um banco, apontou pro viajante se sentar e, enquanto servia uma caneca de caf\u00e9 ralo, sorriu daquele jeito que s\u00f3 velho matreiro sabe sorrir.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, pois ent\u00e3o vosmec\u00ea vai ter servi\u00e7o pra mais de m\u00eas, que aqui o mato \u00e9 fechado, e as hist\u00f3ria&#8230; mais fechada ainda!<br \/>\nFez uma pausa, olhou pros lados como quem verifica se ningu\u00e9m escuta, e, baixando o tom, lascou:<\/p>\n<p>\u2014 Oc\u00ea j\u00e1 ouviu fal\u00e1&#8230; do bugio moqueado?<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio arqueou as sobrancelhas.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me&#8230; bugio&#8230; moqueado?<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, dot\u00f4&#8230; E cruzou os bra\u00e7os sobre a pan\u00e7a \u2014 Um bugio safado, ladino, sabido que s\u00f3. Dizem que foi pego no la\u00e7o, moqueado no varal, e nem assim morreu. No outro dia&#8230; tava l\u00e1, no alto da gameleira, cuspindo na cabe\u00e7a do povo e&#8230; falando. Isso memo que vosmec\u00ea ouviu. Falando!<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio ajeitou os \u00f3culos, puxou do bolso um caderninho de capa de couro e molhou a pena no tinteiro que trazia sempre consigo.<\/p>\n<p>\u2014 Fascinante&#8230;! Isso parece indicar uma pr\u00e1tica lend\u00e1ria, ou quem sabe, um fen\u00f4meno de&#8230; \u2014 buscava palavras \u2014&#8230; de tradi\u00e7\u00e3o oral popular, com resqu\u00edcios de animismo e cren\u00e7as tot\u00eamicas.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o gargalhou, batendo a coxa com for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Tot\u00eamico ou n\u00e3o, dot\u00f4&#8230; O bicho t\u00e1 l\u00e1! Quem duvida&#8230; que v\u00e1 no Cap\u00e3o das Almas&#8230; mas v\u00e1 munido de reza braba, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 bugio que mora por l\u00e1, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E, ent\u00e3o, cruzando os bra\u00e7os e olhando o horizonte, encerrou:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui, seu dot\u00f4&#8230; at\u00e9 o mato tem mais hist\u00f3ria que muito livro seu da cidade.<\/p>\n<p>A noite chegou de mansinho, derramando seu manto negro sobre o sert\u00e3o, pontuado aqui e ali pelos lampejos tr\u00eamulos dos candeeiros e pela sinfonia dos grilos, sapos e bugios. Dos comuns, era de se presumir. Na varanda da casa-grande do Bar\u00e3o do Sumidouro, uma roda se formava como se fosse missa, mas em vez de padre, quem oficiava era a boa aguardente, a prosa ligeira e o cheiro de torresmo pururucando na gordura.<\/p>\n<p>Ali estavam reunidos os figur\u00f5es do lugar: o pr\u00f3prio Bar\u00e3o, sentado no centro da roda; Zezeca Bentinho, caboclo magro feito vara de pescar, chap\u00e9u enfiado at\u00e9 as orelhas e um cigarro de palha eternamente aceso no canto da boca; Dona Mundica, parteira, benzedeira e, segundo dizem, meio bruxa, meio santa, conforme o creio-em-Deus-padre de quem fala, o botic\u00e1rio Taveira e o Mamede, turco dono de um secos e molhados na vila. Havia mais uns dois ou tr\u00eas curiosos, al\u00e9m de Janu\u00e1rio Monteiro, que observava tudo com aquele misto de fasc\u00ednio e incredulidade t\u00edpico dos homens da cidade quando se veem no meio de coisa que os livros n\u00e3o elucidam.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o, seu dot\u00f4&#8230; \u2014 come\u00e7ou Zezeca, ajeitando o chap\u00e9u \u2014 O sinh\u00f4 quer sab\u00ea se \u00e9 inven\u00e7\u00e3o? Pois n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o, senhor. Bugio aqui n\u00e3o \u00e9 bicho&#8230; \u00e9 crist\u00e3o disfar\u00e7ado!<\/p>\n<p>O povo riu, mas Dona Mundica ajeitou-se na cadeira, s\u00e9ria:<\/p>\n<p>\u2014 E digo mais&#8230; Aquilo \u00e9 coisa dos encantados. N\u00e3o se pega, n\u00e3o se mata, nem se olha direito. Quem olha, endoidece&#8230; Ou, ent\u00e3o, se enrosca com alma d\u2019outro mundo sem saber.<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio, equilibrando o caderno no joelho, fez cara de quem escuta e de quem, secretamente, n\u00e3o acredita em uma v\u00edrgula.<br \/>\n\u2014 Mas&#8230; perdoem minha insist\u00eancia \u2014 aparteou \u2014&#8230; como se deu o epis\u00f3dio do&#8230; moqueamento?<\/p>\n<p>O Bar\u00e3o limpou a garganta, cuspiu de lado, com a precis\u00e3o de quem treinou aquilo a vida inteira, e come\u00e7ou:<\/p>\n<p>\u2014 Foi numa sexta-feira de treze, dia de lua cheia. Zezeca aqui pode confirmar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Aconfirmo, sim, senhor \u2014 acenou Zezeca, cheio de import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem&#8230; Apareceu esse bugio atrevido, coisa mais do demo. N\u00e3o era bicho comum, n\u00e3o&#8230; Era dado a mexer nas coisas dos outros. Roubava roupa no varal, fugia com as boneca das menina, pegava pinga do alambique, chicoteava as mula e at\u00e9&#8230; \u2014 olhou pros lados, abaixando a voz \u2014&#8230; at\u00e9 desvirginou um p\u00e9 de milho! Um dia, me tomou um belo cachimbo de espuma do mar, que eu havia deixado esfriar em cima da escrivaninha.<\/p>\n<p>O povo explodiu em risadas, enquanto Dona Mundica fazia o sinal da cruz.<\/p>\n<p>\u2014 Eu mesmo disse \u2014 continuou o Bar\u00e3o: \u201cIsso n\u00e3o pode ficar assim, n\u00e3o!\u201d A\u00ed pegamo o la\u00e7o, eu, Zezeca e mais uns dois retireiro, e fomos no Cap\u00e3o. Os escravos sumiram. Pois o bicho tava l\u00e1, empoleirado na gameleira, rindo da nossa cara, cuspindo&#8230; E n\u00e3o \u00e9 que o danado falou?<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio desdenhou:<\/p>\n<p>\u2014 Falou&#8230; o qu\u00ea, exatamente?<\/p>\n<p>Zezeca se adiantou, abrindo os bra\u00e7os, olhos arregalados:<\/p>\n<p>\u2014 Disse assim, \u00f3: \u201c\u00d4, seus bob\u00e3o, larga de s\u00ea besta que esse galho aqui tem dono!\u201d \u2014 e ainda deu risada, cuspindo em n\u00f3s e puxando dum pito!<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed, num deu outra \u2014 retomou o Bar\u00e3o. Arremessei o la\u00e7o, Zezeca puxou, derrubamo o bicho, amarramo e levamo pra ro\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 E fizeram o qu\u00ea? \u2014 perguntou Janu\u00e1rio, anotando tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Moquiemo, uai. Fez-se um moqu\u00e9m, botamo o bicho no varal de pau roli\u00e7o, fogo de lenha por baixo, e foi defumando, defumando.<\/p>\n<p>Dona Mundica, de olhos emba\u00e7ados, balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, como quem v\u00ea uma trag\u00e9dia anunciada.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 que&#8230; \u2014 continuou o Coronel, baixando ainda mais o tom \u2014&#8230; de madrugada, o fio do c\u00e3o sumiu. A corda tava l\u00e1, a trave do moqu\u00e9m tamb\u00e9m. Mas o bicho&#8230; nada! Nem rastro. E no outro dia&#8230;<\/p>\n<p>Zezeca completou, erguendo o dedo:<\/p>\n<p>\u2014 No outro dia, tava na mesma gameleira, rindo da nossa cara e gritando: \u201cMoqu\u00e9m de v\u00e9io num segura bugio sabido, n\u00e3o, si\u00f4!\u201d<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio deixou a pena suspensa no ar.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9&#8230; Inacredit\u00e1vel!<\/p>\n<p>\u2014 Pois num \u00e9? \u2014 respondeu Zezeca \u2014 E quem num credita&#8230; que v\u00e1 no Cap\u00e3o das Almas a conferir!<\/p>\n<p>O sil\u00eancio se fez por um instante, quebrado s\u00f3 pelo estalar da gordura na frigideira. At\u00e9 os grilos pareceram se calar.<br \/>\nDona Mundica, ent\u00e3o, levantou-se devagar, pegou seu embornal de rezas e benzimentos, e sentenciou:<br \/>\n\u2014 Se for, que v\u00e1 com reza forte&#8230; Porque naquele mato, seu dot\u00f4&#8230; tem mais do que bugio. Tem coisa que nem Deus olha sem acender vela.<\/p>\n<p>O dia amanheceu com aquele c\u00e9u de anil t\u00e3o limpo que at\u00e9 parecia pecado ter nuvem. Mas, no terreiro da casa-grande, pairava um certo peso no ar \u2014 coisa que nem sol forte dissipava. Janu\u00e1rio Monteiro, de botas lustradas pelo criadinho de dentro durante a noite, ajeitava seu fraque j\u00e1 mais pu\u00eddo do que digno, enquanto organizava no alforge o caderno, o tinteiro, a pena, um peda\u00e7o de p\u00e3o dormido com carne de porco e, por precau\u00e7\u00e3o, um ter\u00e7o que Dona Mundica lhe enfiou no bolso.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9&#8230; como posso dizer&#8230; uma preven\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica? \u2014 perguntou ele, ajeitando os \u00f3culos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 reza pra desviar coisa ruim \u2014 respondeu Dona Mundica, ajeitando o len\u00e7o na cabe\u00e7a. \u2014 E num discuta, n\u00e3o&#8230; que discuss\u00e3o espanta a ben\u00e7a.<\/p>\n<p>Zezeca j\u00e1 estava pronto fazia tempo: cal\u00e7a de saco amarrada na cintura, palet\u00f3 de baeta, fac\u00e3o na m\u00e3o, chap\u00e9u de palha e sorriso de quem ia mais pra se divertir do que pra guiar algu\u00e9m. Dona Mundica os acompanharia, solene e protetora.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e2mo, uai&#8230; que o Cap\u00e3o n\u00e3o espera e nem gosta de quem chega depois do meio-dia. De tarde pra frente, as coisa l\u00e1 fica esquisita.<\/p>\n<p>A trilha come\u00e7ava apertada, atravessando um campo de capim gordura que batia na cintura. Por cima, o c\u00e9u, por baixo, a terra vermelha, fofa, que se agarrava nas botas feito praga. As cigarras chiavam alto, e l\u00e1 adiante, o cap\u00e3o se avistava como uma mancha verde-escura no meio do pasto seco, erguendo-se feito ilha de mata num mar de terra.<\/p>\n<p>Conforme adentravam o mato, a luz do sol se filtrava em feixes tortos de \u00e1rvores antigas, pintando o ch\u00e3o de dourado e sombra. O cheiro da mata era forte, mistura de folhas podres, seiva, cip\u00f3 e bicho.<\/p>\n<p>\u2014 Presta aten\u00e7\u00e3o, dot\u00f4&#8230; \u2014 cochichou Zezeca \u2014 Aqui, a mata escuta mais que gente. E se ela num gosta do que ouve&#8230; ela responde.<\/p>\n<p>\u2014 Responde como? \u2014 perguntou Janu\u00e1rio, puxando o len\u00e7o pra enxugar o suor.<\/p>\n<p>\u2014 Depende&#8230; \u2014 disse Dona Mundica, com voz de quem fala coisa s\u00e9ria. \u2014 \u00c0s veiz responde com vento gelado&#8230; outras, com galho quebrando&#8230; e tem veiz que responde com sumi\u00e7o.<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio ajeitou os \u00f3culos, olhou pra tr\u00e1s, pensou no caminho de volta&#8230; e seguiu.<\/p>\n<p>De repente, um estalo seco. Todos pararam.<\/p>\n<p>\u2014 Ouviram? \u2014 sussurrou Zezeca. \u2014 Isso \u00e9 galho quebrando&#8230; E n\u00e3o foi bicho leve, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Mais dois passos&#8230; e outro estalo. Depois, um som estranho, meio riso, meio grunhido, meio fala atravessada:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4, cumpade&#8230; esse galho aqui tem dono, viu?!<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio quase deixou cair o caderno. Olhou pra Dona Mundica, que apertava o ter\u00e7o, e pra Zezeca, que fingia procurar alguma coisa na ponta do fac\u00e3o, mas com os olhos arregalados feito boi na faca.<\/p>\n<p>\u2014 Sai do galho, seu mo\u00e7o&#8230; que esse aqui num foi feito pra p\u00e9 de besta, n\u00e3o! \u2014 gritou de novo a voz, mais perto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, do alto de uma gameleira, algo se moveu. Galhos balan\u00e7aram, folhas voaram e \u2014 PLOFT! \u2014 uma casca de jaca velha acertou bem no chap\u00e9u de Janu\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00f4mi da cidade num aprende, n\u00e3o&#8230; vem mex\u00ea onde num deve! \u2014 vociferou a voz, seguida de uma risada escandalosa, gutural e, sim, absolutamente&#8230; humana. Ou quase.<\/p>\n<p>Zezeca fingiu puxar o fac\u00e3o, mas trope\u00e7ou de prop\u00f3sito, rolando no ch\u00e3o. Dona Mundica fez o sinal da cruz, deu dois passos pra tr\u00e1s e disparou:<\/p>\n<p>\u2014 Vumbora, Zezeca! Isso a\u00ed num \u00e9 bicho, nem \u00e9 gente&#8230; \u00e9 coisa do meio!<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio, tentando segurar a compostura, anotou apressadamente: \u201cFen\u00f4meno ac\u00fastico inexplic\u00e1vel. Poss\u00edvel manifesta\u00e7\u00e3o de cren\u00e7a local. Ou&#8230;\u201d \u2014 n\u00e3o conseguiu terminar. Uma segunda casca \u2014 dessa vez de coit\u00e9 \u2014 veio voando e acertou-lhe as costas.<\/p>\n<p>\u2014 Corre, dout\u00f4! \u2014 gritou Zezeca, j\u00e1 desembestado pelo mato.<\/p>\n<p>E foi cada um pra um lado. Janu\u00e1rio com o fraque rasgado, o alforge batendo no ombro, os \u00f3culos quase caindo do nariz; Dona Mundica segurando o ter\u00e7o numa m\u00e3o e a saia na outra; e Zezeca, que trope\u00e7ava mais do que corria, soltando gargalhadas que n\u00e3o denunciavam se ele tinha mais medo ou mais gosto pela confus\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 l\u00e1 atr\u00e1s, no alto da \u00e1rvore, ouviu-se, sumindo com o vento:<\/p>\n<p>\u2014 Moqu\u00e9m de v\u00e9io num segura bugio sabido, n\u00e3o&#8230; \u00f4 ra\u00e7a besta, si\u00f4!<\/p>\n<p>O sol j\u00e1 se inclinava pro lado de l\u00e1 do morro quando Janu\u00e1rio Monteiro, mo\u00e7o da corte, bacharel, cambaleando, arrastou-se de volta ao terreiro da casa-grande. O fraque parecia ter lutado com on\u00e7a: rasgado nos ombros, sujo de barro, folhas grudadas por todo lado. O alforge pendia de uma al\u00e7a s\u00f3, e seus \u00f3culos, tortos no rosto, denunciavam que aquele n\u00e3o fora, nem de longe, um passeio acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Zezeca veio logo atr\u00e1s, limpando o suor com a manga da camisa e segurando o riso como quem segura xixi de menino na porta do banheiro. Dona Mundica, mais pra brava que pra assustada, vinha rezando baixinho, com o ros\u00e1rio de contas pretas escorrendo ligeiro pelos dedos e a cara de quem n\u00e3o ia se meter em outra dessas nem se pagassem.<\/p>\n<p>Na varanda, o Bar\u00e3o do Sumidouro j\u00e1 os aguardava, recostado na cadeira de palhinha, balan\u00e7ando devagar e mascando fumo, cercado de duas escravinhas. Quando viu o estado de Janu\u00e1rio, deu uma cuspida pro lado, ajeitou o chap\u00e9u e soltou, sem sequer disfar\u00e7ar o sorriso torto no canto da boca:<\/p>\n<p>\u2014 Uai&#8230; parece que a pesquisa do dot\u00f4 rendeu, n\u00e3o foi?<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio largou-se no banco mais pr\u00f3ximo, ajeitou os \u00f3culos com ar de desgra\u00e7a e respirou fundo. Puxou do caderninho \u2014 agora todo amassado, com as folhas meio arrancadas \u2014, folheou, ajeitou a pena e, ap\u00f3s alguns segundos em sil\u00eancio, rabiscou com m\u00e3o tr\u00eamula:<\/p>\n<p>\u201cConstato, na presente data, que h\u00e1, nas regi\u00f5es interioranas do Imp\u00e9rio, fen\u00f4menos culturais cuja ess\u00eancia escapa \u00e0 l\u00f3gica cartesiana, situando-se na t\u00eanue linha entre o cr\u00edvel e o m\u00edtico&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Fez uma pausa. Suspirou. Olhou pros lados. Zezeca acendia uma palhinha como quem nada tinha a ver com aquilo. Dona Mundica, de bra\u00e7os cruzados, olhava pro ch\u00e3o, batendo o p\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, riscando a linha que come\u00e7ara, escreveu de novo:<\/p>\n<p>\u201cOu, simplesmente, que nesse sert\u00e3o danado de Deus&#8230; o matuto \u00e9 mais sabido que muito letrado da Corte.\u201d<\/p>\n<p>O bar\u00e3o soltou uma gargalhada t\u00e3o escandalosa que at\u00e9 o cachorro da varanda se assustou. Bateu a m\u00e3o na barriga e, piscando pro viajante, arrematou:<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o, dot\u00f4&#8230; O senhor veio buscar verdade&#8230; mas aqui, verdade e causo d\u00e1 no mesmo. Quem sabe, acredita. Quem n\u00e3o sabe&#8230; aprende na marra.<\/p>\n<p>Janu\u00e1rio, ajeitando os \u00f3culos, tentou recompor um fiapo de dignidade, pigarreou e, como quem faz discurso, declarou:<\/p>\n<p>\u2014 Eu&#8230; eu honestamente n\u00e3o sei se fui enganado, se fui testemunha de um fen\u00f4meno etnogr\u00e1fico singular ou se, simplesmente, entrei pro rol dos trouxas que o mato carrega no bico.<\/p>\n<p>Zezeca, que at\u00e9 ent\u00e3o se segurava, explodiu em riso, quase se engasgando no pr\u00f3prio assobio.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 sei de uma coisa, seu dot\u00f4&#8230; \u2014 disse, batendo-lhe o ombro com a m\u00e3o calejada \u2014&#8230; Bugio sabido&#8230; moqu\u00e9m n\u00e3o segura!<\/p>\n<p>E todos riram. Riram largo, riram alto, riram at\u00e9 a barriga doer, porque no sert\u00e3o, no fundo, o que vale mesmo \u00e9 isso: a prosa bem fiada, a vida bem vivida e a certeza de que, no final das contas, a d\u00favida \u00e9 mais divertida que a resposta.<\/p>\n<p>E assim se deu o caso \u2014 ou o causo \u2014 do Bugio do Cap\u00e3o das Almas, que, at\u00e9 hoje, ningu\u00e9m sabe se era bicho, alma penada, esp\u00edrito zombeteiro ou s\u00f3 a mais pura, leg\u00edtima e bem tramada esperteza de quem aprendeu, no meio da mata, que mentira bem contada vira verdade&#8230; se tiver quem acredite.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela estrada de terra batida, que serpenteava feito cobra pregui\u00e7osa no meio do mato, avan\u00e7ava, em marcha pouco mais que resignada, um burro de pelo ru\u00e7o, magro nas costelas e triste no olhar. 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