{"id":356211,"date":"2025-06-20T07:38:19","date_gmt":"2025-06-20T10:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356211"},"modified":"2025-06-20T07:41:55","modified_gmt":"2025-06-20T10:41:55","slug":"cafe-com-memorias-que-o-tempo-nao-levou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cafe-com-memorias-que-o-tempo-nao-levou\/","title":{"rendered":"Caf\u00e9 com mem\u00f3rias que o tempo n\u00e3o levou"},"content":{"rendered":"<p>Foi num hotel em Goi\u00e2nia que percebi, sem aviso, o tanto de hist\u00f3ria que me atravessa. Hist\u00f3rias que n\u00e3o conto, mas que se escondem nas entrelinhas do que sou \u2014 que aparecem quando o cheiro do caf\u00e9 lembra a inf\u00e2ncia, ou quando um sil\u00eancio diz mais do que uma frase bem escrita.<\/p>\n<p>O sal\u00e3o do caf\u00e9 da manh\u00e3 tinha luz amarelada, e um ventilador de teto girava com esfor\u00e7o, como se quisesse permanecer ali apenas por cortesia.<\/p>\n<p>Os donos do hotel vieram conversar conosco. Um casal gentil e acolhedor. Disseram que haviam sido jornalistas. Trabalharam durante anos em reda\u00e7\u00f5es, de dia e de noite, narrando um pa\u00eds sempre em sobressalto. Um dia, decidiram parar. Abriram um restaurante. Depois, outro. E, com o tempo, compraram aquele hotel \u2014 que cheirava a p\u00e3o de queijo e saudade.<\/p>\n<p>Enquanto falavam, a imagem do meu pai foi surgindo como fotografia revelada em laborat\u00f3rio: primeiro borrada, depois n\u00edtida. Ele tamb\u00e9m fora jornalista. Um homem de pensamento cr\u00edtico, voz pausada e frases que deixavam rastro \u2014 dessas que a gente guarda e s\u00f3 entende de verdade muitos anos depois. Tinha uma sabedoria sem pressa. Um intelectual brasileiro daqueles que acreditaram, por um tempo, que a palavra podia transformar o mundo. Mas o mundo, por vezes, transforma a palavra em sil\u00eancio. Como tantos, ele percebeu que a sobreviv\u00eancia exigia uma escolha. E ele escolheu. Foi assim que ele prestou concurso p\u00fablico.<\/p>\n<p>Tornou-se funcion\u00e1rio administrativo. Guardou o of\u00edcio antigo como quem dobra uma camisa favorita e a deixa no fundo da gaveta: n\u00e3o por desamor, mas por necessidade. Ainda lia os jornais, ainda escrevia, mas com menos alarde. Sua voz trocou de roupa, sem nunca se calar.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, enquanto mexia o caf\u00e9 um tanto forte demais, a televis\u00e3o exibia um telejornal de vozes exaltadas e urg\u00eancias fabricadas. Ao redor, a vida real: uma senhora passava manteiga no p\u00e3o com movimentos de quem repete um ritual antigo; uma crian\u00e7a empurrava uma cadeira com o barulho t\u00edpico da inf\u00e2ncia. E os donos do hotel riam com os h\u00f3spedes, leves, como se tivessem enfim encontrado um ponto de repouso.<\/p>\n<p>Talvez meu pai tivesse feito o mesmo. Talvez fosse ele quem me ofereceria o caf\u00e9, com aquela cara de quem j\u00e1 sabia que eu ia preferir sem a\u00e7\u00facar. Ou talvez, como sempre, colocasse mesmo assim \u2014 insistente no afeto.<\/p>\n<p>O p\u00e3o de queijo &#8211; mais para um biscoito de queijo, esfarelava entre os dedos. O caf\u00e9 tinha gosto de madrugada virada. E a imagem dele, dobrando o jornal com precis\u00e3o, agora parecia uma despedida suave. Um gesto de sil\u00eancio \u2014 desses que s\u00f3 se entende depois.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi num hotel em Goi\u00e2nia que percebi, sem aviso, o tanto de hist\u00f3ria que me atravessa. Hist\u00f3rias que n\u00e3o conto, mas que se escondem nas entrelinhas do que sou \u2014 que aparecem quando o cheiro do caf\u00e9 lembra a inf\u00e2ncia, ou quando um sil\u00eancio diz mais do que uma frase bem escrita. 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