{"id":356268,"date":"2025-06-21T01:15:53","date_gmt":"2025-06-21T04:15:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356268"},"modified":"2025-06-21T00:10:23","modified_gmt":"2025-06-21T03:10:23","slug":"felinto-e-pedro-salgado-amargam-a-vida-do-adolescente-rodrigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/felinto-e-pedro-salgado-amargam-a-vida-do-adolescente-rodrigo\/","title":{"rendered":"Felinto e Pedro Salgado amargam a vida do adolescente Rodrigo"},"content":{"rendered":"<p>Aproximava-se o carnaval de 1957. Rodrigo, 13 anos rec\u00e9m-completados, estava em uma cidadezinha do litoral fluminense, onde sua fam\u00edlia tinha uma casa de veraneio. Ela gostava de carnaval, j\u00e1 havia decorado a letra das novas marchinhas que seriam cantadas nos clubes e nas ruas (naquele tempo, isso era obrigat\u00f3rio). Mas havia outros prazeres a desfrutar, a explorar, alguns deles pela primeira vez.<\/p>\n<p>Ca\u00eda a noite, Rodrigo estava em um parque ambulante montado na cidade por alguns dias. Estava sozinho \u2013 n\u00e3o por acaso, o av\u00f4 o chamava de \u201clobo solit\u00e1rio\u201d \u2013, mas n\u00e3o ligava, divertia-se assim mesmo. J\u00e1 fora no trem fantasma e outros brinquedos, chegara a vez da roda gigante.<\/p>\n<p>Comprou o ingresso, j\u00e1 ia embarcar no carrinho, quando o vendedor de bilhetes perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Meu jovem (Rodrigo detestava essa express\u00e3o, a falsa delicadeza dos adultos para com as crian\u00e7as e adolescentes, n\u00e3o era mais crian\u00e7a, era um menino grande, um rapaz!), as duas mocinhas \u2013 e apontou para duas gurias junto \u00e0 grade \u2013 compraram bilhetes mas s\u00f3 v\u00e3o na pr\u00f3xima vez, v\u00e3o ter de esperar. Voc\u00ea se importa de ir agora com elas?<\/p>\n<p>O garoto as olhou bem. Viu duas meninas magricelas mas bonitinhas, que pareciam quase da sua idade. E, detalhe importante, percebeu peitinhos em forma\u00e7\u00e3o, a inf\u00e2ncia tinha ficado para tr\u00e1s. Aquilo o decidiu.<\/p>\n<p>&#8211; Podem vir \u2013 e deu um sorriso simp\u00e1tico.<\/p>\n<p>As duas, que o olhavam de volta, deram um risinho t\u00edpico de meninas adolescentes e embarcaram.<\/p>\n<p>Enquanto a roda girava, apresentaram-se \u2013 uma era Suzana e a outra, L\u00facia, preferia ser chamada de Lucinha \u2013, falaram do carnaval que chegava, onde iriam pular, coisas assim. Foi ent\u00e3o que Rodrigo atacou:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpem perguntar, voc\u00eas t\u00eam namorado?<\/p>\n<p>As duas se entreolharam, deram aquele risinho e falaram juntas:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E j\u00e1 beijaram algu\u00e9m? Na boca? \u2013 insistiu o moleque.<\/p>\n<p>Novo risinho, dessa vez acompanhado por um certo rubor, e a mesma resposta:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu \u2013 confessou ele. E deu o bote. \u2013 Que tal se a gente aproveitasse que est\u00e1 aqui por sorte (ele queria dizer por um des\u00edgnio c\u00f3smico, um favor dos deuses, mas ainda n\u00e3o sabia usar essas express\u00f5es) e se beijasse? S\u00f3 pra aprender&#8230; Depois, cada um segue seu caminho. Ou, se a gente gostar, vira namorado, voc\u00eas decidem.<\/p>\n<p>&#8211; Vai namorar com as duas? \u2013 perguntou Suzana, a mais saidinha. Fechou os olhos e aproximou o rostinho, os l\u00e1bios entreabertos, tremendo de expectativa.<\/p>\n<p>Os dois se beijaram, de in\u00edcio meio sem jeito, sem saber como fazer. Mas os horm\u00f4nios logo afloraram, l\u00ednguas se tocaram, se enroscaram, foi uma del\u00edcia. -Ei, tamb\u00e9m quero! \u2013 protestou Lucinha.<\/p>\n<p>Suzana e Rodrigo se separaram, rindo, e ele beijou a nova parceira. Foi bom, mas n\u00e3o t\u00e3o gostoso. Ele decidiu ficar com Suzana; a amiga, promovida a rival, olhou os dois de cima abaixo, tendo na mirada uma pontinha de desprezo.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia a essa emo\u00e7\u00e3o quebrou o encanto. Rodrigo, na \u00e9poca um homem de 60 anos, deixou o mundo dos devaneios e foi arremessado nas sendas sombrias da mem\u00f3ria. Quando estavam no banquinho da roda gigante e falavam do carnaval, ele n\u00e3o mudou o assunto para beijos, como deveria.<\/p>\n<p>Em vez disso, decidiu se exibir.<\/p>\n<p>&#8211; Decorei as letras de quase todas as composi\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 daquela que fala em Felinto, Pedro Salgado? Canta pra n\u00f3s? \u2013 perguntou Lucinha.<\/p>\n<p>Era o momento de falar que n\u00e3o, que tinham coisas mais divertidas e mais gostosas a fazer, trocar beijos, por exemplo, e retomar o script imaginado. Nada disso, todo pimp\u00e3o, o ot\u00e1rio de 13 anos informou que o t\u00edtulo da marchinha era Evoca\u00e7\u00e3o n\u00ba 1 e desandou a cantar. Letra longa, ele cantava mal pra ded\u00e9u, desafinava, quando terminou, as duas adolescentes (ou quase) bocejavam de t\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8211; Parab\u00e9ns, sabe tudo de carnaval&#8230; \u2013 disse Lucinha.<\/p>\n<p>Era uma frase cheia de sarcasmo. O imbecil n\u00e3o percebeu.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>Ele tentou retomar o papo, n\u00e3o teve como, deram as \u00faltimas voltas em sil\u00eancio. A roda gigante parou, todos desceram, Suzana e Lucinha se despediram e se afastaram sem olhar para tr\u00e1s. Por\u00e9m marcaram fundo sua mem\u00f3ria, testemunhas de uma timidez mesclada a babaquice que o acompanharia pelo resto da vida, pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproximava-se o carnaval de 1957. Rodrigo, 13 anos rec\u00e9m-completados, estava em uma cidadezinha do litoral fluminense, onde sua fam\u00edlia tinha uma casa de veraneio. Ela gostava de carnaval, j\u00e1 havia decorado a letra das novas marchinhas que seriam cantadas nos clubes e nas ruas (naquele tempo, isso era obrigat\u00f3rio). Mas havia outros prazeres a desfrutar, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":356269,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-356268","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356268","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=356268"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356268\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":356270,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356268\/revisions\/356270"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/356269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=356268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=356268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=356268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}