{"id":356288,"date":"2025-06-21T03:47:09","date_gmt":"2025-06-21T06:47:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356288"},"modified":"2025-06-21T03:47:09","modified_gmt":"2025-06-21T06:47:09","slug":"briga-de-doentes-mentais-deixa-um-morto-em-maceio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/briga-de-doentes-mentais-deixa-um-morto-em-maceio\/","title":{"rendered":"Briga de doentes mentais deixa um morto em Macei\u00f3"},"content":{"rendered":"<p>Na abafada quinta-feira, 19, longe dos holofotes e das boas inten\u00e7\u00f5es das campanhas de sa\u00fade mental, dois internos do Hospital Portugal Ramalho, em Macei\u00f3, travaram o que os funcion\u00e1rios chamaram de \u201cmais uma briga de doidos\u201d. A frase, dita com a frieza de quem j\u00e1 viu demais e sentiu de menos, ecoa ainda pelos corredores mofados da ala psiqui\u00e1trica como um epit\u00e1fio precoce.<\/p>\n<p>Um dos doentes, Francisco \u2014 conhecido entre os internos como \u201cChico dos Rel\u00e2mpagos\u201d por gritar com as nuvens e conversar com postes \u2014 n\u00e3o resistiu aos golpes. Morreu ali mesmo, no ch\u00e3o frio do pavilh\u00e3o 4, entre colch\u00f5es rasgados, grades improvisadas e um sil\u00eancio que, ironicamente, ensurdece.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o oficial fala em \u201cdesentendimento entre pacientes com hist\u00f3rico de agressividade\u201d. A nota da Secretaria de Sa\u00fade veio enxuta, burocr\u00e1tica, com menos emo\u00e7\u00e3o que um bilhete de farm\u00e1cia: \u201co caso est\u00e1 sendo apurado\u201d. Como se Chico fosse apenas mais um n\u00famero no prontu\u00e1rio. Como se morrer por uma \u201cbriga de doidos\u201d fosse coisa que se apura com formul\u00e1rio e uma sindic\u00e2ncia interna que morre antes da pr\u00f3xima reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas quem anda pelos corredores daquele hosp\u00edcio sabe que nada ali \u00e9 novo. A superlota\u00e7\u00e3o virou rotina. Os enfermeiros, sobrecarregados, funcionam como carcereiros improvisados. Os m\u00e9dicos, poucos e rotativos, prescrevem mais calmantes que escuta. E os internos? Esses caminham em c\u00edrculos, entre surtos, sonecas e cigarros contados, esperando a hora em que o pr\u00f3prio corpo decida parar de resistir.<\/p>\n<p>Chico era esquizofr\u00eanico, sim. Tinha surtos, falava sozinho, tinha medo do \u201chomem da porta vermelha\u201d. Mas tamb\u00e9m era um artista. Desenhava rostos nos guardanapos do refeit\u00f3rio e tocava ritmos imagin\u00e1rios na borda da cama. Em outro tempo, em outro pa\u00eds talvez, seria caso de tratamento, cuidado, acolhimento. Aqui virou manchete t\u00edmida, quase escondida no notici\u00e1rio local: \u201cPaciente morre ap\u00f3s briga no hospital psiqui\u00e1trico\u201d.<\/p>\n<p>Morreu, mas n\u00e3o sozinho. Morreu com ele a esperan\u00e7a de que algum plano nacional de sa\u00fade mental funcione. Morreu a promessa da reforma psiqui\u00e1trica. Morreu o discurso bonito da humaniza\u00e7\u00e3o do tratamento. Tudo isso esvaiu-se com o sangue que secou no canto da parede onde ningu\u00e9m passou pano.<\/p>\n<p>O outro envolvido na briga, cujo nome n\u00e3o ser\u00e1 citado aqui por respeito ao anonimato do del\u00edrio, permanece internado. Sabe-se l\u00e1 at\u00e9 quando. Ele n\u00e3o entende o que fez. Chora, \u00e0s vezes. Ri, outras tantas. \u00c0s vezes chama por Chico. \u201cCad\u00ea o homem que fazia trov\u00e3o com as m\u00e3os?\u201d, perguntou, segundo um t\u00e9cnico de enfermagem.<\/p>\n<p>O Estado, esse ente invis\u00edvel e insano em sua pr\u00f3pria l\u00f3gica, continua. Assinando pap\u00e9is, lan\u00e7ando campanhas publicit\u00e1rias sobre \u201cjaneiros brancos\u201d e prometendo mutir\u00f5es de acolhimento. Enquanto isso, no hosp\u00edcio de Macei\u00f3, a loucura continua sendo tratada com tranca, tapa e descaso.<\/p>\n<p>E Chico? Chico agora \u00e9 estat\u00edstica. Mas poderia ter sido poesia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na abafada quinta-feira, 19, longe dos holofotes e das boas inten\u00e7\u00f5es das campanhas de sa\u00fade mental, dois internos do Hospital Portugal Ramalho, em Macei\u00f3, travaram o que os funcion\u00e1rios chamaram de \u201cmais uma briga de doidos\u201d. 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