{"id":356323,"date":"2025-06-22T00:59:13","date_gmt":"2025-06-22T03:59:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356323"},"modified":"2025-06-22T01:10:51","modified_gmt":"2025-06-22T04:10:51","slug":"nereu-vive-verdadeira-epopeia-para-manter-sua-saga-na-plaga-de-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nereu-vive-verdadeira-epopeia-para-manter-sua-saga-na-plaga-de-sempre\/","title":{"rendered":"Nereu vive verdadeira epopeia para manter sua saga na plaga de sempre"},"content":{"rendered":"<p>Todos os domingos, no in\u00edcio da noite, Nereu chegava ao Edif\u00edcio Martinelli. Cumprimentava o porteiro, que j\u00e1 o conhecia de longa data.<\/p>\n<p>Entrava ansioso no elevador e saltava no 7\u00ba andar onde havia um sal\u00e3o de baile. L\u00e1, todas as semanas, religiosamente, aconteciam as \u201cdomingueiras\u201d a partir das 19 horas, terminando por volta da meia noite.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ex\u00edmio dan\u00e7arino de todos os ritmos imagin\u00e1veis: valsa, samba, rumba, forr\u00f3, bolero e, at\u00e9 mesmo, tango, Nereu era uma dessas figuras populares, bom de conversa, simp\u00e1tico, bem-humorado, zombeteiro, comunicativo e amigo de todo mundo, al\u00e9m de ser uma pessoa muito generosa. Citar sua proverbial habilidade com as mulheres \u00e9 quase uma redund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Sua chegada no recinto, com seu inef\u00e1vel terno de linho bege, camisa de seda preta, gravata italiana florida, sapato de verniz bicolor, cravo na lapela, brilhantina no cabelo e exageradamente perfumado a \u201cLancaster\u201d, era aguardada sofregamente pelas mo\u00e7oilas, dando a impress\u00e3o de que a festa s\u00f3 come\u00e7ava a partir daquele momento.<\/p>\n<p>As que n\u00e3o conseguiam pelo menos alguns passos com ele na noite voltavam para casa frustradas. Desnecess\u00e1rio dizer tamb\u00e9m que nunca sa\u00eda, ap\u00f3s a \u00faltima m\u00fasica, sem ser acompanhado de uma delas para a inveja de todas as demais. Mas apesar de seu esp\u00edrito bo\u00eamio, nunca se atrasava para o trabalho no dia seguinte.<\/p>\n<p>Durante a semana trabalhava com afinco em um escrit\u00f3rio de contabilidade, sempre pontual e correto na execu\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es que lhe cabiam. Estimado pelos colegas e pelo chefe. Mas isso era tudo o que se sabia sobre sua vida para al\u00e9m dos bailes dominicais. Sem d\u00favida, era o estere\u00f3tipo do bom malandro. Cheio de vitalidade no auge dos seus 20 e poucos anos, isso l\u00e1 pelo in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>Em um certo DOMINGO, entretanto, ao chegar no 7\u00ba andar do Martinelli, foi abordado pelo seguran\u00e7a que controlava a entrada do sal\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Sua carteirinha?<\/p>\n<p>&#8211; Carteirinha?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sua carteirinha do Sindicato!<\/p>\n<p>&#8211; Sindicato?<\/p>\n<p>&#8211; Sim. O Senhor n\u00e3o \u00e9 s\u00f3cio do Sindicato?<\/p>\n<p>Nereu, confuso, respondeu com naturalidade que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o Senhor n\u00e3o pode entrar!<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? Faz anos que frequento esse baile todos os domingos e nunca fui barrado!<\/p>\n<p>&#8211; Pois, a partir de agora, o Sr. somente poder\u00e1 entrar se for s\u00f3cio do Sindicato.<\/p>\n<p>&#8211; Como eu fa\u00e7o para me tornar s\u00f3cio do Sindicato?<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. \u00e9 banc\u00e1rio?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o Sr. n\u00e3o pode se associar ao Sindicato.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s desfiar todos os seus artif\u00edcios de convencimento, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que aquela noite estava definitivamente prejudicada. Havia \u201cdan\u00e7ado\u201d no sentido figurado, pois n\u00e3o poderia dan\u00e7ar no sentido literal (me desculpem as leitoras e os leitores pelo trocadilho) e, contrariado, resolveu voltar para casa.<\/p>\n<p>Mas ele nunca foi de se dar por vencido. Na SEGUNDA-FEIRA levantou-se cedo, como sempre, e foi para o escrit\u00f3rio. Por\u00e9m, n\u00e3o para trabalhar, mas para pedir demiss\u00e3o. Superada a fase em que seu superior hier\u00e1rquico tentou, sem sucesso, demov\u00ea-lo da ideia, pois o considerava um funcion\u00e1rio exemplar e acreditava ter um belo futuro na empresa, foi at\u00e9 o departamento de pessoal, para comunicar sua decis\u00e3o e solicitar provid\u00eancias urgentes, renunciava ao aviso pr\u00e9vio e pedia a libera\u00e7\u00e3o imediata de sua carteira de trabalho, com a devida baixa, era uma emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Tomadas as medidas iniciais, embarcou no primeiro bonde no bairro de Santana, onde ficava o escrit\u00f3rio, e desembarcou no Largo de S\u00e3o Bento, ponto final da linha. Caminhando pelas ruas se deparou com o pr\u00e9dio onde funcionava o Banco Moreira Salles, na Pra\u00e7a do Patriarca. Na portaria foi identificado e encaminhado ao 5\u00ba andar, onde funcionava o departamento de sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>L\u00e1 preencheu uma ficha de emprego e o atendente o informou que, de acordo com as orienta\u00e7\u00f5es da chefia da \u00e1rea, as inscri\u00e7\u00f5es eram aceitas at\u00e9 a sexta-feira de uma semana, para triagem e, se aprovadas, os candidatos seriam encaminhados para o teste e a entrevista na ter\u00e7a-feira da semana seguinte.<\/p>\n<p>No entanto, Nereu tinha pressa e tentou convenc\u00ea-lo a passar sua ficha para an\u00e1lise naquele mesmo dia, a fim de poder realizar as pr\u00f3ximas etapas do processo j\u00e1 no dia seguinte. Como o atendente argumentava ser imposs\u00edvel, pois havia norma interna determinando o procedimento, usou toda seu arsenal de persuas\u00e3o para convenc\u00ea-lo a conversar com o gerente da \u00e1rea, para conseguir uma autoriza\u00e7\u00e3o especial. N\u00e3o se sabe quais os argumentos utilizados, mas a autoriza\u00e7\u00e3o foi dada.<\/p>\n<p>Na TER\u00c7A-FEIRA, com 15 minutos de anteced\u00eancia, ele era o primeiro da fila. Foi aprovado no teste e na entrevista, em seguida foi orientado para realiza\u00e7\u00e3o de exames m\u00e9dicos e chapa dos pulm\u00f5es. Havia 15 candidatos al\u00e9m dele, sendo poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o dos exames em apenas 4 pessoas a cada dia, mas como havia sido o primeiro a fazer o teste e ter sido muito bem avaliado, foi encaminhado j\u00e1 na manh\u00e3 seguinte \u00e0 cl\u00ednica conveniada.<\/p>\n<p>Na \u01eaUARTA-FEIRA, passou praticamente o dia todo em uma \u201cvia-sacra\u201d de consult\u00f3rios: cl\u00ednico geral, otorrinolaringologista, oftalmologista, ortopedista, dentista etc. e v\u00e1rios exames de laborat\u00f3rio. Os resultados deviam ser retirados em 24 horas.<\/p>\n<p>Com os resultados dos exames m\u00e9dicos aprovados, a carteira profissional e todos os demais documentos solicitados, compareceu na \u01eaUINTA-FEIRA de volta ao departamento de pessoal do banco. O \u201cdossi\u00ea\u201d foi recepcionado e devidamente protocolado. L\u00e1 foi informado que os documentos iriam passar pela confer\u00eancia do gerente e a resposta demoraria mais um dia.<\/p>\n<p>Retornou ao banco na SEXTA-FEIRA e recebeu finalmente a not\u00edcia t\u00e3o aguardada: estava tudo certo. Assinou o contrato de trabalho, Nereu, a partir daquele instante era um banc\u00e1rio. Carteira profissional em m\u00e3os com seu novo registro, correu \u00e0 sede administrativa do Sindicato dos Banc\u00e1rios, na R. S\u00e3o Bento, 365, 15\u00ba andar, sala 1. L\u00e1 preencheu a ficha de filia\u00e7\u00e3o, entregou dois retratos 3 X 4 e sentou-se em um sof\u00e1 na sala de espera, aguardando ansiosamente a confec\u00e7\u00e3o de sua carteirinha.<\/p>\n<p>No S\u00c1BADO, aproveitou o dia para conhecer, no mesmo pr\u00e9dio, a sala 2, oposta \u00e0 sede administrativa, onde funcionava a parte social da entidade: sal\u00e3o de jogos, com duas mesas de pingue-pongue, pebolim, sinuca, xadrez, dama e carteado; um restaurante bandej\u00e3o, caf\u00e9, a barbearia e um sal\u00e3o de beleza; e ficou admirado com o que viu.<\/p>\n<p>DOMINGO, 7h da noite, terno de linho bege, camisa de seda preta, gravata italiana florida, sapato de verniz bicolor, cravo na lapela, brilhantina no cabelo e exageradamente perfumado a \u201cLancaster\u201d, chega ao 7\u00ba andar do Martinelli, carteirinha do sindicato na m\u00e3o. Adalberto, o seguran\u00e7a de quase 2 m de altura e 1 m de largura, olha atentamente para a foto e para o rosto de Nereu e, com o semblante grave, autoriza sua entrada.<\/p>\n<p>Ele adentra glorioso o espa\u00e7o e jura ter ouvido o suspiro coletivo das mo\u00e7as presentes.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Nota do autor<\/strong>: Homenagem a um saudoso amigo, ex-diretor e ex-funcion\u00e1rio do Sindicato dos Banc\u00e1rios de S\u00e3o Paulo, Osasco e Regi\u00e3o que tinha muitas hist\u00f3rias sobre suas aventuras para contar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os domingos, no in\u00edcio da noite, Nereu chegava ao Edif\u00edcio Martinelli. Cumprimentava o porteiro, que j\u00e1 o conhecia de longa data. Entrava ansioso no elevador e saltava no 7\u00ba andar onde havia um sal\u00e3o de baile. 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