{"id":356510,"date":"2025-06-25T02:45:43","date_gmt":"2025-06-25T05:45:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356510"},"modified":"2025-06-25T08:25:39","modified_gmt":"2025-06-25T11:25:39","slug":"lula-frustra-eleitor-nordestino-de-baixa-renda-ao-tirar-dinheiro-e-dar-a-classe-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-frustra-eleitor-nordestino-de-baixa-renda-ao-tirar-dinheiro-e-dar-a-classe-media\/","title":{"rendered":"Lula frustra eleitor nordestino de baixa renda ao tirar dinheiro e dar \u00e0 classe m\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1der Filho, um oligarca paraense, est\u00e1 deixando os nordestinos de baixa renda soltando fogo pelas narinas. De quebra, esse povo sofrido come\u00e7a a sinalizar querer dist\u00e2ncia do presidente Lula. Algo do tipo dar as costas, como o Diabo faz com a cruz. A verdade \u00e9 que o presidente tem deixado frustrado o povo que lhe d\u00e1 votos. Esse sentimento reina ao menos no sert\u00e3o de Pernambuco, por onde andei nos \u00faltimos dias. Passeando de carro, a partir do Cabo de Santo Agostinho at\u00e9 Serrita, no alto ser\u00e3o, testemunhei um cen\u00e1rio triste. E de revolta.<\/p>\n<p>Deixei o litoral com o dia amanhecendo. \u00c0 tarde, parei em uma das cidades do interior. O sol ent\u00e3o j\u00e1 corria para o horizonte, com a velocidade de suor na testa de retirante. No alpendre da venda de seu Epif\u00e2nio, quatro bancos de madeira se alinhavam como soldados derrotados.<\/p>\n<p>Sentados neles, cada qual com um copo de alum\u00ednio, estavam Z\u00e9 Pequeno, Dona Creuza, Man\u00e9 do INSS, o vereador Florismar e o radialista Djalminha, dono da r\u00e1dio comunit\u00e1ria da cidade. De canto, encostado na parede como quem escuta com os olhos, Chico de Lurdinha fumava um cigarro de palha e deixava o mundo acontecer.<\/p>\n<p>O assunto era o Minha Casa, Minha Vida. Os di\u00e1logos, pontualmente anotados, podem ser assim reproduzidos:<\/p>\n<p>Z\u00e9 Pequeno: \u201cMinha Casa Minha Vida virou Minha Casa, Minha Hipoteca. Agora \u00e9 pra doutor com sal\u00e1rio de dez conto e SUV na garagem. E eu? Fico na rede, esperando promessa virar cimento.\u201d<\/p>\n<p>Dona Creuza (batendo com a m\u00e3o na coxa esquerda), n\u00e3o deixou por menos: \u201cOxente! E a gente que acreditou nas palavras doces do Lula, feito mel de engenho? Disse que era pra pobre, pra n\u00f3s&#8230; Agora at\u00e9 arquiteto vai ganhar apartamento com varanda gourmet.\u201d<\/p>\n<p>Por sua vez, Man\u00e9 do INSS, um senhor de meia-idade, ranzinza, disse, com a m\u00e3o tr\u00eamula segurando o copo, que \u201cisso \u00e9 que d\u00e1 votar com o cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o com a planilha. Os rico t\u00e3o entrando pela porta da frente e a gente, de novo, pela janela&#8230; quando tem janela!\u201d<\/p>\n<p>De Florismar, que tentava ostentar uma pose de lideran\u00e7a, ouvi algo de quem parecia estar em um palanque em per\u00edodo eleitoral, com uma estrela no peito encimada com um 13 em destaque: &#8220;Companheiros, calma! Isso \u00e9 uma readequa\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria para ampliar o espectro da classe beneficiada&#8230; Classe m\u00e9dia tamb\u00e9m sofre!&#8221;<\/p>\n<p>O riso seco de Djalminha interrompeu o vereador:<\/p>\n<p>&#8220;Sofre? Classe m\u00e9dia sofre \u00e9 pra escolher o vinho do m\u00eas. Aqui a gente sofre pra n\u00e3o morrer com a goteira na testa. Florismar, diga a verdade. Voc\u00eas desandaram foi a puxar sardinha pro pessoal do Sudeste, os do apartamento, da Faria Lima, n\u00e9 n\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>Z\u00e9 Pequeno desabafou:<\/p>\n<p>&#8220;Meu filho mora em Juazeiro, fez cadastro na Caixa, e sabe o que ofereceram? Um financiamento de 45 anos com entrada de 20 mil. Ele \u00e9 gar\u00e7om, porra! Vai vender rim pra dar entrada?&#8221;<\/p>\n<p>A conversa, animada, fez com que me aproximasse e pedisse um refrigerante. Nesse momento ouvi Chico de Lurdinha, que falava baixo, como quem reza:<\/p>\n<p>&#8220;Quem planta promessa colhe desilus\u00e3o. Lula voltou, mas parece que esqueceu o caminho do beco.&#8221;<\/p>\n<p>O sil\u00eancio que se seguiu foi quebrado apenas pelo barulho de um jegue ruminando no terreiro. Parecia rir.<\/p>\n<p>Dona Creuza retomou a palavra, sugerindo que Lula mudasse o nome do programa: &#8216;Minha Casa, Minha Desist\u00eancia&#8217;. A gente entra, sonha, e sai devendo at\u00e9 o suspiro&#8221;, justificou.<\/p>\n<p>O vereador Florismar, j\u00e1 demonstrando inc\u00f4modo, ajeitou o surrado bon\u00e9 vermelho do PT, desabafou, com a voz quase alterada, enfatizando que seus companheiros &#8216;t\u00eam mem\u00f3ria curta&#8217;. E frisou: &#8220;foi esse homem que trouxe luz, \u00e1gua e dignidade pra gente.&#8221;<\/p>\n<p>Inconformado, Djalminha, levantando-se do banco com raiva, questionou:<\/p>\n<p>&#8220;Luz? T\u00e3o \u00e9 apagando a nossa esperan\u00e7a com discurso de palanque. Essa nova fase do programa \u00e9 t\u00e3o popular quanto imposto novo. Eu falo amanh\u00e3 na r\u00e1dio!&#8221;<\/p>\n<p>E saiu pisando forte, como se cada pegada quisesse furar o solo rachado.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Pequeno, depois de um breve suspiro, afirmou que &#8220;no fim das contas, casa popular \u00e9 igual a milagre: s\u00f3 acontece pra quem j\u00e1 nasceu aben\u00e7oado.&#8221;<\/p>\n<p>Chico puxou outra tragada, olhou o c\u00e9u limpo e completou:<\/p>\n<p>&#8220;No sert\u00e3o, promessa n\u00e3o constr\u00f3i parede. Constr\u00f3i raiva.&#8221;<\/p>\n<p>Como a noite avan\u00e7ava r\u00e1pido, despedi-me, troquei n\u00famero de telefones com o radialista, retornei ao carro e segui para meu destino, ainda distante cerca de 80 quil\u00f4metros. Enfim, em Serrita, me permiti descansar ap\u00f3s uma longa ducha em uma aconchegante pousada da cidade.<\/p>\n<p>Feriado no Nordeste na ter\u00e7a, 24, quando se comemora o S\u00e3o Jo\u00e3o, recebi uma longa mensagem do meu coleguinha radialista Djalminha.<\/p>\n<p>O texto come\u00e7ava dizendo que dois dias depois do bate-boca sobre a nova imagem de Lula, algo como um Robin Hood pelo avesso que tira dos pobres para dar aos ricos, a cidadezinha foi sacudida por uma raridade: uma audi\u00eancia p\u00fablica organizada \u00e0s pressas na escola municipal. Como tema, &#8220;Habita\u00e7\u00e3o e os Novos Rumos do Minha Casa Minha Vida&#8221;. Na pr\u00e1tica, afirmava Djalminha, era mais um com\u00edcio disfar\u00e7ado. No palco improvisado, uma mesa de pl\u00e1stico, tr\u00eas microfones chiando e sete copos com \u00e1gua quente. Atr\u00e1s dela, um cartaz mal colado: \u201cMCMV: Inclus\u00e3o para Todos\u201d.<\/p>\n<p>Segue o relato do dirigente da r\u00e1dio comunit\u00e1ria:<\/p>\n<p>Entre o p\u00fablico, 87 cadeiras de pl\u00e1stico, quase todas ocupadas por gente suada, desconfiada e cansada de esperar.<\/p>\n<p>No palanque, os personagens j\u00e1 estavam postos: o vereador Florismar, o engenheiro da Caixa Econ\u00f4mica, doutor Laerte, a deputada estadual Jussara, o l\u00edder comunit\u00e1rio Seu Bibiano, e a pastora Leninha da Promessa, que trazia na m\u00e3o uma B\u00edblia e um panfleto da pr\u00f3xima vig\u00edlia.<\/p>\n<p>Na plateia, voltavam os de sempre: Dona Creuza, Z\u00e9 Pequeno, Chico de Lurdinha, Man\u00e9 do INSS e agora tamb\u00e9m o jovem Iuri, entregador de aplicativo e formado em Geografia, e Maria Quentinha, cozinheira e empreendedora que vendia marmitas pra obra que nunca vinha.<\/p>\n<p>O microfone chia. O primeiro a falar \u00e9 o engenheiro doutor Laerte:<\/p>\n<p>\u2014 Doutor Laerte (com voz de quem nunca suou na vida):<\/p>\n<p>&#8220;O novo modelo do programa visa atender fam\u00edlias com renda de at\u00e9 R$ 8 mil. Estamos modernizando o acesso \u00e0 moradia digna, com padr\u00e3o construtivo elevado e foco em sustentabilidade.&#8221;<\/p>\n<p>Dona Creuza, gritando do fund\u00e3o da plateia, provocou gargalhadas ao dizer que &#8220;sustent\u00e1vel \u00e9 minha lona azul, que sustenta chuva h\u00e1 cinco anos! O senhor j\u00e1 morou em barro, doutor?&#8221;<\/p>\n<p>Florismar, tentando acalmar os \u00e2nimos, exclamou, na ponta dos p\u00e9s:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos manter o respeito, companheira! O governo t\u00e1 fazendo o que pode, num cen\u00e1rio de restri\u00e7\u00f5es fiscais&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>O vereador foi interrompido por Iuri, levantando com celular na m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Restri\u00e7\u00f5es pra n\u00f3s, n\u00e9? Porque pra financiar pr\u00e9dio de rico, dinheiro apareceu. T\u00f4 aqui com o portal da transpar\u00eancia aberto. Quase meio bilh\u00e3o pra construir condom\u00ednio em S\u00e3o Bernardo com piscina. Piscina, visse?!<\/p>\n<p>Jussara, sem ter mais o que fazer, mostrado um sorriso geladoa, questionou o entregador por App:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ter responsabilidade com as palavras, jovem. O programa foi ampliado para contemplar a diversidade socioecon\u00f4mica brasileira.<\/p>\n<p>Chico de Lurdinha, quase sem abrir a boca, n\u00e3o deixou de reagir:<\/p>\n<p>&#8211; Diversidade \u00e9 n\u00f3s se lascando enquanto eles nadam&#8230;<\/p>\n<p>Maria Quentinha, com uma marmita na m\u00e3o, rodou a baiana, afirmando que comprou um freezer novo achando que ia vender quentinha pra pedreiro. Depois caiu na realidade: &#8220;S\u00f3 que nem pedreiro tem, porque nem obra come\u00e7ou!&#8221;<\/p>\n<p>A pastora Leninha da Promessa levantou-se, b\u00edblia numa m\u00e3o, microfone na outra:<\/p>\n<p>\u2014 A Palavra diz que na casa do Pai h\u00e1 muitas moradas. Mas aqui na Terra, parece que s\u00f3 tem vaga pro povo de condom\u00ednio fechado. Irm\u00e3os, vamos orar para que caia do c\u00e9u n\u00e3o s\u00f3 o Esp\u00edrito, mas tamb\u00e9m o financiamento com juros baixos!<\/p>\n<p>Seguiram-se risos abafados. Murm\u00farios. Um homem do lado de fora gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui s\u00f3 caiu foi a esperan\u00e7a!<\/p>\n<p>Seu Bibiano, batendo na mesa, pediu sil\u00eancio e disse, entre solu\u00e7os, que ningu\u00e9m quer migalha, apenas um teto. E acrescentou: &#8220;Aqui tem gente com tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es morando embaixo do mesmo telhado furado. Se n\u00e3o tem casa pra n\u00f3s, ent\u00e3o o nome do programa devia ser \u2018Minha Casa, Minha Mentira!\u2019&#8221;<\/p>\n<p>A plateia, conta o radialista, se levantou em palmas. A deputada levantou-se, ajeitou o tailleur e se despediu, dizendo que tinha uma agenda a cumprir em Petrolina.<\/p>\n<p>&#8220;Gravei tudo &#8211; revela Djalminha. &#8220;Vai pro ar amanh\u00e3. O povo n\u00e3o vai ser feito de besta calada. Se a casa n\u00e3o vem, a revolta vai!&#8221;, escreveu na mensagem, em tom amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>O &#8216;coleguinha&#8217; l\u00e1 do alto ser\u00e3o encerra seu relato citando Chico de Lurdinha, que voltou a olhar para o c\u00e9u. Dessa vez, uma nuvem se formava. Sorridente, como quem sabe das coisas do alto da sua longevidade, exclamou enquanto o ambiente era esvaziado:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1 armando trovoada&#8230; ou \u00e9 chuva, ou \u00e9 revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1der Filho, um oligarca paraense, est\u00e1 deixando os nordestinos de baixa renda soltando fogo pelas narinas. De quebra, esse povo sofrido come\u00e7a a sinalizar querer dist\u00e2ncia do presidente Lula. Algo do tipo dar as costas, como o Diabo faz com a cruz. 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