{"id":356722,"date":"2025-06-28T00:10:35","date_gmt":"2025-06-28T03:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356722"},"modified":"2025-06-28T13:00:40","modified_gmt":"2025-06-28T16:00:40","slug":"manjar-das-letras-eternas-e-magias-de-geraldo-seabra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/manjar-das-letras-eternas-e-magias-de-geraldo-seabra\/","title":{"rendered":"Manjar das letras eternas e magias de Geraldo Seabra"},"content":{"rendered":"<p>Final dos anos 50 do s\u00e9culo passado. Era uma sala pequenina, t\u00edmida como quem chega de mansinho \u00e0 festa da vida, numa casa igualmente modesta, no cora\u00e7\u00e3o acolhedor do bairro de Casa Forte, em Recife. A noite j\u00e1 passava das dez, e mesmo assim os olhos das crian\u00e7as brilhavam como vagalumes inquietos \u2014 n\u00e3o por sono, mas por expectativa. Elas aguardavam, com uma rever\u00eancia que s\u00f3 os inocentes conhecem, a chegada do Jornal do Comm\u00e9rcio do dia seguinte.<\/p>\n<p>E l\u00e1 vinha ele, o her\u00f3i cotidiano, com o jornal debaixo do bra\u00e7o e o perfume inconfund\u00edvel da tinta fresca das velhas rotativas acompanhando cada passo. Geraldo Seabra, pai, jornalista, mago \u2014 e, para n\u00f3s, filhos e filhas, uma esp\u00e9cie de Tit\u00e3 das palavras \u2014 entrava em cena como quem trazia o pr\u00f3prio Olimpo embrulhado em papel impresso.<\/p>\n<p>Havia abra\u00e7os, beijos, tumulto e afeto. Disput\u00e1vamos o jornal como cavaleiros por um trof\u00e9u sagrado, mesmo que fosse apenas para espiar as manchetes da primeira p\u00e1gina. Naquela casa simples e cheia de amor, entre estantes improvisadas e mesas que mal aguentavam o peso dos livros, fomos herdeiros de uma das maiores fortunas: o gosto pela leitura.<\/p>\n<p>N\u00e3o era raro trope\u00e7ar num Dante Alighieri, que nos arrastava aos terrores do Inferno e nos fazia sonhar com uma chance redentora no Purgat\u00f3rio. Alexandre Dumas nos fazia mosqueteiros por algumas tardes, e Cervantes \u2014 ah, Cervantes! \u2014 nos ensinava que at\u00e9 a loucura pode ter dignidade. Moby Dick, Barsa, almanaques, efem\u00e9rides, livros de alquimia e astrologia conviviam conosco como se fossem parte da fam\u00edlia. E, de certo modo, eram.<\/p>\n<p>Brinquedos eram poucos. Roupas, o suficiente. Mas p\u00e3o \u2014 ah, o p\u00e3o! \u2014 nunca faltava. No final da tarde, caminh\u00e1vamos juntos at\u00e9 a padaria do vov\u00f4 Jos\u00e9 Seabra, e volt\u00e1vamos com os p\u00e3es quentinhos, embrulhados em sacos de pano, feitos de massa pura e sem bromato. \u00c0 mesa, al\u00e9m do p\u00e3o, havia \u00e0s vezes cuscuz, outras vezes fruta-p\u00e3o. Mas sempre, sempre havia fartura de afeto.<\/p>\n<p>Pelos cantos da casa, pilhas de pap\u00e9is rabiscados, calend\u00e1rios astrais, florais de Bach e frascos de homeopatia escondidos como pequenos segredos m\u00e1gicos. Era comum recebermos visitas ilustres \u2014 Paulo Freire, o educador da esperan\u00e7a, Albino, o m\u00e9dico das plantas, e Marab\u00e1, o astr\u00f3logo de mil mapas celestes.<\/p>\n<p>Um salto no tempo \u2014 n\u00e3o por falta de fatos, mas por falta de espa\u00e7o nesta cr\u00f4nica \u2014 nos leva ao Planalto Central, \u00e0 jovem Bras\u00edlia dos anos 60. Foi ali, sob o comando da matriarca Madalena, que nossa fam\u00edlia de retirantes nordestinos encontrou nova morada e reencontrou os bra\u00e7os de Geraldo Seabra, agora diretor da \u00daltima Hora, sucursal da capital.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o sab\u00edamos, ao deixar os quintais de terra batida de Casa Forte rumo ao cerrado vermelho da nova capital, \u00e9 que tamb\u00e9m embarcar\u00edamos num choque de mundos. Bras\u00edlia era um sonho concreto, mas seus blocos de cimento frio abrigavam crian\u00e7as vindas de todos os cantos \u2014 e entre elas, muitas do chamado Sul Maravilha, com seus sotaques cortantes, brinquedos importados e modos de quem parecia viver em outro Brasil.<\/p>\n<p>N\u00f3s, pequenos nordestinos de p\u00e9s descal\u00e7os e vocabul\u00e1rio carregado de \u201coxente\u201d e \u201cvisse\u201d, v\u00edamos nos colegas sulistas uma esp\u00e9cie de espelho emba\u00e7ado, onde nosso jeito de ser era ora curiosidade, ora motivo de estranhamento. Mas aos poucos, com a mesma naturalidade com que mistur\u00e1vamos cuscuz ao leite de coco, fomos nos misturando tamb\u00e9m aos outros, ensinando e aprendendo, at\u00e9 que nossas diferen\u00e7as se tornaram tempero \u2014 e n\u00e3o muro.<\/p>\n<p>Mas, voltemos ao aniversariante. Se antes era jornalista, ali Geraldo Seabra assumia tamb\u00e9m o manto de Mago. Num ambiente solene, em semic\u00edrculo ao redor de uma mesa coberta com toalha branca, ele nos iniciava no sagrado. Havia ta\u00e7a, adaga, bast\u00e3o, alfarr\u00e1bios e velas \u2014 um verdadeiro altar de sabedoria. Nascia o Col\u00e9gio dos Magos de Bras\u00edlia, onde magos, bruxas, aprendizes e curiosos bebiam da fonte eterna do conhecimento oculto.<\/p>\n<p>O tempo passou, mas a seiva continua viva. Filhos, netos e seguidores atenderam ao chamado \u2014 tornaram-se tar\u00f3logos, astr\u00f3logos, quir\u00f3logos, sacerdotisas, jornalistas, professores&#8230; todos reunidos sob a mesma estrela que um dia brilhou nos olhos do Mago Geraldo. O Col\u00e9gio dos Magos virou Col\u00e9gio dos Magos e Sacerdotisas, mas o cora\u00e7\u00e3o era o mesmo.<\/p>\n<p>Quando partiu, partiu como queria: sem choro nem vela, apenas com a leveza de uma fita amarela com o nome dela \u2014 o amor eterno que o acompanhava. Hoje, no dia em que completaria 102 anos, temos certeza de que o Mago Geraldo continua enviando mensagens divinas das estrelas mais altas do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Antes de partir, ele nos deixou sua \u00faltima li\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cChego aos oitenta satisfeito, realizado, feliz. Ensinei o que sabia. Vi m\u00e9dicos, engenheiros, donas de casa e trabalhadores buscando o que \u00e9 eterno: a consci\u00eancia desperta. Agora quero que mais pessoas aprendam, se iluminem, despertem. Porque a magia, meus filhos, n\u00e3o \u00e9 feiti\u00e7o: \u00e9 amor em movimento.\u201d<\/p>\n<p>E n\u00f3s seguimos. De olhos atentos, como crian\u00e7as esperando o jornal, seguimos a estrela de Geraldo Seabra, o homem que nos deu o p\u00e3o, os livros, a magia \u2014 e um amor que n\u00e3o cabe em palavras.<\/p>\n<p>Assim \u00e9. Assim foi. E assim ser\u00e1.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Giovanni de Farias Seabra, doutor em Geografia, professor titular da UFPB<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra Neto, jornalista, diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Final dos anos 50 do s\u00e9culo passado. Era uma sala pequenina, t\u00edmida como quem chega de mansinho \u00e0 festa da vida, numa casa igualmente modesta, no cora\u00e7\u00e3o acolhedor do bairro de Casa Forte, em Recife. 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