{"id":356865,"date":"2025-06-29T00:11:32","date_gmt":"2025-06-29T03:11:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356865"},"modified":"2025-06-29T02:13:24","modified_gmt":"2025-06-29T05:13:24","slug":"conheca-o-homem-que-levou-a-feira-de-caruaru-ao-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/conheca-o-homem-que-levou-a-feira-de-caruaru-ao-mundo\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a o homem que levou a Feira de Caruaru ao mundo"},"content":{"rendered":"<p>Todos os domingos, Onildo Almeida tem um compromisso inadi\u00e1vel. Trajado elegantemente com camisa de alfaiataria e cal\u00e7a impec\u00e1vel, ele deixa sua casa antes das 7h da manh\u00e3 acompanhado da esposa, Lenita, para ir \u00e0 Feira de Caruaru.<\/p>\n<p>\u00c9 comum que seu momento de compras seja interrompido por um pedido de foto, um abra\u00e7o ou um convite para um papo. Algum desavisado que passa por ali pode n\u00e3o saber, mas Onildo, aos 96 anos, \u00e9 o maior vendedor da Feira de Caruaru.<\/p>\n<p>Embora nunca tenha tido com\u00e9rcio no local, foi ele quem comp\u00f4s os versos que exaltam a diversidade de produtos da feira em que \u201cde tudo que h\u00e1 no mundo\u201d tem para vender. Sua can\u00e7\u00e3o Feira de Caruaru ficou imortalizada na voz de Luiz Gonzaga e se tornou a primeira de muitas obras de Onildo a serem gravadas pelo Rei do Bai\u00e3o.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, Onildo Almeida era um jovem apresentador de programas de audit\u00f3rio na R\u00e1dio Difusora de Caruaru, mas tamb\u00e9m se aventurava na m\u00fasica. Lan\u00e7ou seu primeiro disco, um \u00e1lbum que continha uma \u00fanica can\u00e7\u00e3o, uma homenagem \u00e0 Feira de Caruaru, \u00e0 cidade e \u00e0 cultura nordestina. A m\u00fasica fez sucesso na regi\u00e3o, mas n\u00e3o ultrapassou as barreiras estaduais.<\/p>\n<p>Filho de um comerciante bem-sucedido na cidade, ele e seus seis irm\u00e3os cresceram em uma fam\u00edlia musical. As irm\u00e3s se dedicavam ao piano e os homens, ao viol\u00e3o, ao violino e ao bandolim. Aos 13 anos, Onildo j\u00e1 compunha suas primeiras can\u00e7\u00f5es e adolescente j\u00e1 se apresentava com o quarteto vocal Vocalistas Tropicais.<\/p>\n<p>Em uma de suas idas \u00e0 Caruaru em meados de 1950, Luiz Gonzaga, que j\u00e1 era um \u00eddolo na \u00e9poca, se apresentou na Difusora, a r\u00e1dio onde Onildo trabalhava, e ouviu Feira de Caruaru pela primeira vez.<\/p>\n<p>&#8220;Ele pegou o disco e perguntou quem era o cantor. Meu irm\u00e3o, que trabalhava na r\u00e1dio como operador, me apresentou&#8221;, relembra o compositor. &#8220;Ele me disse: &#8216;Como \u00e9 que voc\u00ea tem um neg\u00f3cio desse que n\u00e3o me mostra?&#8217; Eu respondi: &#8216;T\u00e1 na sua m\u00e3o!'&#8221;.<\/p>\n<p>Nascia assim a parceria.<\/p>\n<p>Em 21 de mar\u00e7o de 1957, Gonzag\u00e3o gravou pela primeira vez a can\u00e7\u00e3o que se tornou um grande sucesso. O LP de 78 rota\u00e7\u00f5es teve 100 mil c\u00f3pias vendidas em dois meses. A marca fez com que o Rei do Bai\u00e3o conquistasse o primeiro disco de ouro da carreira.<\/p>\n<p>\u201cPelo simples fato de Gonzaga gravar, j\u00e1 era uma um acontecimento, n\u00e9? Um acontecimento raro. Ele pegar e gravar uma m\u00fasica do jeito que eu fiz e n\u00e3o alterou nada\u201d, recordou Onildo sobre a sensa\u00e7\u00e3o de ouvir sua can\u00e7\u00e3o cantada na voz de Seu Luiz.<\/p>\n<p><strong>Parcerias<\/strong><br \/>\nFeira de Caruaru foi regravada por outros artistas e em diversos idiomas, inclusive em outros pa\u00edses. O encontro do compositor carurarense com o filho de Exu, no Sert\u00e3o de Pernambuco, rendeu uma amizade e uma parceria frut\u00edfera. Gonzaga gravaria ainda Aproveita Gente, Onde o Nordeste Garoa, Z\u00e9 Dantas, S\u00f3 Xote, Sanfoneiro Z\u00e9 Tatu e muitas outras can\u00e7\u00f5es de Onildo. Outros gigantes da m\u00fasica nordestina como Marin\u00eas, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e Jorge de Altinho tamb\u00e9m recorreram ao &#8220;poeta do agreste&#8221; para compor seu repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Onildo tamb\u00e9m fez a cabe\u00e7a dos tropicalistas. Em You Don&#8217;t Know Me, can\u00e7\u00e3o de Transa, \u00e1lbum emblem\u00e1tico de Caetano Veloso de 1972, gravado quando o artista estava exilado em Londres, Caetano faz uma colagem de cita\u00e7\u00f5es, entre elas um trecho de A Hora do Adeus, parceria de Onildo Almeida e Luiz Queiroga, gravada por Luiz Gonzaga no \u00e1lbum Olha Eu Aqui de Novo de 1967: &#8220;Eu agrade\u00e7o ao povo brasileiro \/ Norte, Centro, Sul inteiro \/ Onde reinou o bai\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>No mesmo ano, Gilberto Gil gravou o arrasta-p\u00e9 Sai do Sereno, composi\u00e7\u00e3o de Onildo, no \u00e1lbum Expresso 2222 &#8211; o primeiro que o m\u00fasico baiano lan\u00e7ou ap\u00f3s o retorno ao Brasil com o fim de seu ex\u00edlio em Londres.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia musical<\/strong><br \/>\nAo longo de quase um s\u00e9culo de m\u00fasica, Onildo Almeida se tornou uma refer\u00eancia musical e inspira\u00e7\u00e3o para novos artistas nordestinos. Isso fica evidente na maneira como \u00e9 celebrado durante os festejos juninos em Caruaru. Este ano, durante a festa, ele foi convidado especial da Orquestra de P\u00edfanos de Caruaru e se apresentou em um dos palcos do S\u00e3o Jo\u00e3o de Caruaru dedicados \u00e0 m\u00fasica alternativa, junto com a banda pernambucana Diablo Angel.<\/p>\n<p>A banda, que tem dez anos de estrada, lan\u00e7ou neste m\u00eas de junho uma vers\u00e3o com pegada pop rock de Feira de Caruaru com a participa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Onildo.<\/p>\n<p>&#8220;Estar com ele no palco, poder cantar com ele estas m\u00fasicas que fazem parte da nossa hist\u00f3ria \u00e9 um privil\u00e9gio. Eu cresci com essas can\u00e7\u00f5es. Era aquele desafio gostoso, era quase como memorizar um repente, aquela letra de \u2018Feira de Caruaru\u2019 &#8220;, diz Kira Derne, vocalista da Diablo Angel, que tamb\u00e9m nasceu na cidade.<\/p>\n<p>Entre encontros, ensaios e apresenta\u00e7\u00f5es ao lado de Onildo, ela aproveita para aprender com o mestre.<\/p>\n<p>&#8220;Ele \u00e9 muito generoso. Eu estou sempre tentando escut\u00e1-lo, especialmente como uma jovem compositora. Voc\u00ea ter a oportunidade de estar com ele, de aprender sobre processo criativo, como ele aborda a escrita de uma can\u00e7\u00e3o, as hist\u00f3rias de como foram escritas suas principais can\u00e7\u00f5es&#8230;Eu aproveito cada minuto ao lado dele&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>Homenagens <\/strong><br \/>\nCelebrado como o homem que apresentou Caruaru ao mundo, Onildo \u00e9 uma figura querida na cidade e costuma ir \u00e0s escolas conversar com as crian\u00e7as sobre m\u00fasica e cultura nordestina. Ele diz n\u00e3o recusar convites, mas n\u00e3o costuma ultrapassar os limites da cidade: odeia viajar.<\/p>\n<p>As homenagens chegam em sua casa e emolduram as paredes de sua sala, uma esp\u00e9cie de museu particular que conta sua hist\u00f3ria de sucesso na m\u00fasica e as amizades que fez pelo caminho.<\/p>\n<p>Quase sete d\u00e9cadas depois de ser inspira\u00e7\u00e3o para Onildo, a Feira de Caruaru segue sendo uma grande atra\u00e7\u00e3o na cidade. Hoje, ostenta o registro de Patrim\u00f4nio Imaterial Brasileiro concedido pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan).<\/p>\n<p>Embora por l\u00e1 ainda se encontrem os mais variados tipos de frutas regionais, arreios para cavalos e os bonecos de barro dos disc\u00edpulos do Mestre Vitalino, o espa\u00e7o n\u00e3o ficou imune \u00e0 invas\u00e3o de produtos chineses, como acontece em outros com\u00e9rcios locais no Brasil. Ainda assim, para Onildo, n\u00e3o h\u00e1 lugar igual:<\/p>\n<p>&#8220;Eu costumo dizer que toda cidade tem feira e toda feira \u00e9 igual. Mas, na verdade, n\u00e3o \u00e9. A de Caruaru, quando voc\u00ea procura uma coisa no com\u00e9rcio que n\u00e3o encontra, vai para a feira. \u00c9 uma feira que tem tudo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os domingos, Onildo Almeida tem um compromisso inadi\u00e1vel. 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