{"id":356942,"date":"2025-06-30T09:30:41","date_gmt":"2025-06-30T12:30:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356942"},"modified":"2025-06-30T09:30:41","modified_gmt":"2025-06-30T12:30:41","slug":"quando-a-variant-que-sonha-nao-tem-preco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-a-variant-que-sonha-nao-tem-preco\/","title":{"rendered":"Quando a Variant que sonha n\u00e3o tem pre\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Manh\u00e3 fria de junho, antes das oito horas da manh\u00e3, encontro-me em solid\u00e3o criativa, t\u00e3o necess\u00e1ria de tempos em tempos, enquanto degusto um misto de mortadela e bebo um chocolate quente na padaria do bairro. Daqui onde me assentei, vejo meu carro. \u00c9 uma singela Volkswagen Variant, ano 1974, na cor bege-alabastro.<\/p>\n<p>Sim, amigos, uma Variant de 51 anos, que muito me alegra. Um carro antigo \u00e9, sobretudo, o testemunho da hist\u00f3ria. Um deleite est\u00e9tico.<\/p>\n<p>A Variant \u00e9 meu carro da vez. Tenho-a usado bastante. Para tudo. Trabalho, curtas viagens, uns passeios nos fins de semana com meu filho.<\/p>\n<p>Aproxima-se um homem de mim e pergunta:<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 sua?<\/p>\n<p>Respondo afirmativamente.<\/p>\n<p>\u2013 Por quanto o senhor vende?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vendo.<\/p>\n<p>\u2013 Dou vinte mil.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, obrigado.<\/p>\n<p>\u2013 Dou trinta.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vendo.<\/p>\n<p>\u2013 Mas quanto ela vale?<\/p>\n<p>Raciocino por alguns instantes. E minha resposta n\u00e3o pode ser outra, sen\u00e3o um sincero:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o fa\u00e7o ideia. N\u00e3o penso em vender, realmente n\u00e3o sei quanto vale. Talvez mais ou menos do que tenha pago quando a comprei, mas, sei l\u00e1&#8230; N\u00e3o vem ao caso.<\/p>\n<p>E continuo pensando no assunto. Pouco me importa, ademais, o quanto valha. O importante \u00e9 o que representa para mim. Representa um sonho de crian\u00e7a, de um garoto que sempre foi apaixonado por antigos modelos da VW (que, quando eu era garoto, nem eram t\u00e3o antigos assim), e hoje pode se dar ao luxo eventual de circular por a\u00ed com um Fusquinha, uma Bras\u00edlia, uma \u00fatil Kombi, ou a Variant bege, cor de sorvete de creme, meu preferido desde que abandonei o de morango.<\/p>\n<p>Afinal, o que \u00e9 a vida, sen\u00e3o os momentos de felicidade aut\u00eantica e simples entre o momento em que nascemos e aquele em que nos deixam, geralmente muito a contragosto, numa cama de pedra?<\/p>\n<p>Por que complicar os dias entre esses dois eventos colocando pre\u00e7o em algo capaz de proporcionar momentos especiais?<\/p>\n<p>Lembro uma ocasi\u00e3o em que, estando com um jovem colega advogado fazendo um lanche no Leblon, bairro do Rio de Janeiro, ap\u00f3s atendermos, em domic\u00edlio, a uma cliente em comum, senhora idosa e com muitas dificuldades de locomo\u00e7\u00e3o, ele me perguntava:<\/p>\n<p>\u2013 O que acha de eu comprar um carro importado? Talvez uma Mercedes Benz, ou uma BMW, ainda que com alguns anos de uso, para impressionar os clientes?<\/p>\n<p>Teria mil reflex\u00f5es para fazer ao responder a essa pergunta. Mas resumi a ideia dizendo a ele que devia fazer o que mais o agradasse e o deixasse \u00e0 vontade. N\u00e3o estava, e n\u00e3o estou, com muita disposi\u00e7\u00e3o para dialogar com quem faz perguntas j\u00e1 esperando, de antem\u00e3o, apenas a resposta que ressoa em seu pensamento, sem qualquer tra\u00e7o de discord\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que algum cliente deixaria de me escolher como advogado se me visse a bordo da Variant? Talvez, pensando assim, nem tenha sido uma boa ideia come\u00e7ar esta cr\u00f4nica evocando a velha desbravadora de estradas que hoje me serve.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o conta, mas deve ter muita hist\u00f3ria. Ser\u00e1 que foi o meio de locomo\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia s\u00f3 ou de v\u00e1rias? De uma pessoa solit\u00e1ria ou de algu\u00e9m com muita companhia?<\/p>\n<p>Quem sabe tenha carregado pessoas em horas felizes?<\/p>\n<p>Ter\u00e1 proporcionado o encontro de novas paisagens, novas ideias e aprendizados ou circulou apenas no espa\u00e7o limitado de alguma cidade ou bairro?<\/p>\n<p>Foi um meio de transporte ou somente enfeite de garagem?<\/p>\n<p>N\u00e3o saberei nunca. Esses testemunhos n\u00e3o ficaram gravados na sua lataria, nos pneus de perfil estreito, nos bancos macios, no arco de seu volante preto.<\/p>\n<p>Mas serei participante de uma hist\u00f3ria escrita por caminhos a trilhar daqui para a frente, no sorriso aut\u00eantico de meu menino quando digo que vamos passear de Variant, na fala do meu velho pai que diz \u201ccomo est\u00e1 boa!\u201d, nos sorrisos e coment\u00e1rios que fazem transeuntes an\u00f4nimos pelas ruas em que passamos, e mesmo no brilho sereno dos far\u00f3is que, enquanto escrevo estas linhas, dormem na garagem, talvez sonhando com poemas ainda por escrever, como aquele que dediquei ao Fusca amarelo e que se encontra no meu livro \u201cA verdade nos seres\u201d.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manh\u00e3 fria de junho, antes das oito horas da manh\u00e3, encontro-me em solid\u00e3o criativa, t\u00e3o necess\u00e1ria de tempos em tempos, enquanto degusto um misto de mortadela e bebo um chocolate quente na padaria do bairro. 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