{"id":356985,"date":"2025-07-01T01:03:52","date_gmt":"2025-07-01T04:03:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=356985"},"modified":"2025-07-01T01:03:34","modified_gmt":"2025-07-01T04:03:34","slug":"delubio-tenta-resgatar-pt-raiz-que-evita-centrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/delubio-tenta-resgatar-pt-raiz-que-evita-centrao\/","title":{"rendered":"Del\u00fabio tenta resgatar PT raiz que evita Centr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Uma conversa r\u00e1pida ao telefone com Del\u00fabio Soares, na segunda, 30, que fechava o m\u00eas e reabria o caminho de novos 31 dias seguidos de esperan\u00e7a, trouxe-me \u00e0 lembran\u00e7a, ao fim do telefonema, os esfor\u00e7os que o ex-tesoureiro do PT tem feito, em viagens por esse pa\u00eds-continente, para resgatar as ra\u00edzes do PT. Era como se visse a caravana partir antes do sol nascer, como se quisesse acordar primeiro que o pr\u00f3prio Brasil. No banco da frente, de olhar baixo e m\u00e3os caladas, seguia um velho amigo dos bons tempos do Partido dos Trabalhadores. N\u00e3o era o mesmo de outros tempos. Os anos lhe penduraram sil\u00eancios no rosto e rugas de quem j\u00e1 foi bandeira, manchete, sombra e abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Agora, \u00e0 frente da chamada Caravana do PTT, ele n\u00e3o parece querer convencer ningu\u00e9m \u2014 apenas escutar, talvez entender. O Partido dos Trabalhadores de Todos pode ser mais do que uma sigla renovada. \u00c9, suponho, uma tentativa de reencontro. Um fio partido entre o sonho de um pa\u00eds e o ch\u00e3o pisado por quem ainda acredita no coletivo, mesmo quando a esperan\u00e7a desbota.<\/p>\n<p>As paradas s\u00e3o breves, mas intensas. Um olhar no fundo do outro. Um aperto de m\u00e3o que durava segundos a mais. Em cada cidade, Del\u00fabio se senta com os antigos companheiros como quem visita parentes distantes. Fala pouco e ouve muito. Lembrava de um tempo em que pol\u00edtica era feita no grito de assembleia, no cheiro de graxa, no calor dos sindicatos.<\/p>\n<p>Nas pra\u00e7as, crian\u00e7as se aproximam correndo sem saber quem ele era. Idosos cochicham, alguns sorriem. Ningu\u00e9m aplaudia com estardalha\u00e7o. Mas havia uma ternura discreta no ar. Era como se todos, em sil\u00eancio, entendessem que aquele homem de passos lentos carregava mais do que panfletos \u2014 carregava um desejo quase ing\u00eanuo de voltar ao in\u00edcio, ao cora\u00e7\u00e3o das coisas.<\/p>\n<p>Havia um tipo de poesia naquele \u00f4nibus velho que cruzava o sert\u00e3o e o cerrado. As janelas abertas deixavam entrar vento e lembran\u00e7a. E de cidade em cidade, entre uma feira e um assentamento, o que se buscava n\u00e3o era mais o poder, mas o pertencimento. O rosto do povo. A linguagem esquecida do trabalhador.<\/p>\n<p>Del\u00fabio fala em reconstru\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o com euforia. Fala como quem planta. Sabe que os brotos talvez n\u00e3o venham depressa. Sabe que o tempo hoje corre em outra frequ\u00eancia. Mesmo assim, segue. Porque h\u00e1 caminhadas que se fazem mais pela alma do que pela chegada.<\/p>\n<p>E quando a noite cae e o \u00f4nibus encosta em alguma beira de estrada para dormir, ele olha para o c\u00e9u e pensa em quantos ainda sonham. Porque, no fundo, tudo o que ele quer \u00e9 isso &#8211; que o povo volte a sonhar consigo mesmo.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo <strong>Notibras<\/strong> publicou uma s\u00e9rie de reportagens sobre o assunto. A primeira foi numa manh\u00e3 nublada em que a caravana chegou ao acampamento do MST, em um dos muitos assentamos dos sem-terra. A terra rec\u00e9m-revolvida exalava cheiro de promessa, e as lonas negras balan\u00e7avam com o vento como bandeiras silenciosas de uma resist\u00eancia que nunca dorme.<\/p>\n<p>Del\u00fabio desceu devagar, com os sapatos cobertos pela poeira vermelha do ch\u00e3o. Ao seu redor, homens e mulheres levantavam estacas, cuidavam das hortas comunit\u00e1rias, e recebiam o visitante com olhos desconfiados, mas n\u00e3o hostis. N\u00e3o havia tapete, microfone nem palanque. Havia caf\u00e9 coado, p\u00e3o de milho e cadeiras de pl\u00e1stico dispostas em roda.<\/p>\n<p>Ali, mais uma vez, ele ouviu mais do que falou. Uma senhora de m\u00e3os calejadas contou sobre o neto que estudava agronomia. Um rapaz falou da biblioteca feita com doa\u00e7\u00f5es. Uma menina de oito anos recitou de mem\u00f3ria o nome dos m\u00e1rtires de Eldorado dos Caraj\u00e1s. E Del\u00fabio, com os olhos \u00famidos, compreendeu que aquela luta, mais do que ideol\u00f3gica, era visceral; era o povo plantando sua perman\u00eancia no mundo.<\/p>\n<p>Antes de partir, caminhou at\u00e9 o marco de entrada do acampamento. Tocou a madeira como quem benze. E disse, com voz quase rouca: \u201c\u00c9 aqui que a alma do partido ainda respira.\u201d<\/p>\n<p>A caravana seguiu. O tempo parecia se curvar \u00e0quela viagem. Era como atravessar p\u00e1ginas de um livro que o Brasil esqueceu de reler. Passaram por sindicatos esvaziados, r\u00e1dios comunit\u00e1rias, antigos diret\u00f3rios onde ainda restavam cartazes de campanhas de outrora. Cada parada era uma esp\u00e9cie de ora\u00e7\u00e3o laica. Tratava-se de um reencontro com a f\u00e9 que nasce do trabalho coletivo.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, semanas depois, o \u00f4nibus apontou no ABC Paulista.<\/p>\n<p>O c\u00e9u carregado parecia chorar discretamente sobre S\u00e3o Bernardo do Campo. A velha regi\u00e3o industrial \u2014 hoje mais silenciosa, mais vertical \u2014 ainda guardava nos muros e no concreto os ecos das greves, das assembleias, da funda\u00e7\u00e3o de um partido que nasceu para ter cheiro de povo.<\/p>\n<p>Del\u00fabio desceu no Sindicato dos Metal\u00fargicos. L\u00e1 dentro, alguns rostos conhecidos. Outros novos, curiosos. O sal\u00e3o ainda mantinha aquele ar de catedral laica, onde a esperan\u00e7a um dia subiu em caminh\u00f5es e falou alto ao mundo.<\/p>\n<p>Ele caminhou devagar at\u00e9 o centro do palco. N\u00e3o pediu sil\u00eancio. N\u00e3o pediu aplausos. Apenas tirou do bolso uma pequena foto amarelada: era de uma plen\u00e1ria de 1983, todos mais jovens, mais magros, mais famintos de justi\u00e7a. Mostrou \u00e0 plateia sem dizer palavra.<\/p>\n<p>E naquele instante breve, entre o som da chuva e os suspiros de quem lembrava, houve um pacto invis\u00edvel: de que mesmo ferido, o sonho ainda poderia ser reparado.<\/p>\n<p>Porque h\u00e1 trajet\u00f3rias que, mesmo longe da perfei\u00e7\u00e3o, se tornam necess\u00e1rias apenas por tentarem de novo. E naquele fim de tarde, no cora\u00e7\u00e3o do ABC, Del\u00fabio n\u00e3o parecia um homem que voltava ao partido.<\/p>\n<p>Parecia, simplesmente, um homem que voltava para casa.<\/p>\n<p>Depois do reencontro no ABC, a caravana do PTT poderia ter encerrado sua jornada. J\u00e1 havia o registro das imagens, os apertos de m\u00e3o, os olhos marejados diante de um sal\u00e3o que cheirava a hist\u00f3ria. Mas algo havia mudado. O que era para ser um percurso de lembran\u00e7as transformou-se em movimento.<\/p>\n<p>Nas redes sociais, jovens militantes come\u00e7aram a compartilhar imagens da caravana com legendas como \u201cVoltar pra avan\u00e7ar\u201d, \u201cPovo \u00e9 raiz\u201d, e at\u00e9 mesmo \u201cO novo vem do ch\u00e3o\u201d. Em universidades, grupos de estudo come\u00e7aram a reler textos esquecidos de quando a pol\u00edtica ainda era feita de corpo presente. Nos bairros, panfletos brotavam em portas de padarias, e em acampamentos, novas assembleias come\u00e7aram a ser organizadas \u00e0 luz de lampi\u00f5es, com vozes cansadas, mas inteiras.<\/p>\n<p>Del\u00fabio, que come\u00e7ara a viagem como um homem em busca de reden\u00e7\u00e3o, agora assistia, quase com espanto, a uma fagulha se acender no que julgavam cinzas. J\u00e1 n\u00e3o se tratava mais dele. A caravana havia se tornado um organismo aut\u00f4nomo, respirando por si mesma, criando novos condutores, vozes, desejos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem assegure que, num ponto da viagem, um grupo de jovens lhe entregou um documento: o Manifesto da Terra e da Cidade. Eram sete p\u00e1ginas escritas \u00e0 m\u00e3o, costurando ideias de reforma agr\u00e1ria, economia solid\u00e1ria, pol\u00edtica de vizinhan\u00e7a e tecnologia comunit\u00e1ria. Assinado por \u201cMilitantes do Amanh\u00e3\u201d, o texto n\u00e3o pedia aval, mas apenas respeito.<\/p>\n<p>Del\u00fabio leu em sil\u00eancio. E ao final, sem dizer palavra, entregou sua caneta. Como quem diz &#8220;agora \u00e9 com voc\u00eas.&#8221;<\/p>\n<p>A caravana ent\u00e3o virou rede. Come\u00e7am a nascer \u201ccaravanas-filhas\u201d em Pernambuco, no Maranh\u00e3o, no interior de S\u00e3o Paulo. Nada oficial. Nada hier\u00e1rquico. Apenas gente se reunindo para ouvir, lembrar e plantar ideias.<\/p>\n<p>O PTT, at\u00e9 ent\u00e3o um s\u00edmbolo em busca de voz, come\u00e7a a ganhar contorno. N\u00e3o era um partido. \u00c9 um gesto coletivo. Um murm\u00fario que se espalha devagar, como quem semeia sem pressa, mas com f\u00e9.<\/p>\n<p>Del\u00fabio, j\u00e1 n\u00e3o ocupa o banco da frente do partido que fundou. Tamb\u00e9m n\u00e3o discursa pregando contra quem preferiu se aliar ao Centrao. Em cada parada, senta num canto, ouve. E quando perguntam o que pode vir a ser o PTT, ele apenas sorri:<\/p>\n<p>\u2014 Talvez seja s\u00f3 o povo querendo se lembrar de si mesmo.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma conversa r\u00e1pida ao telefone com Del\u00fabio Soares, na segunda, 30, que fechava o m\u00eas e reabria o caminho de novos 31 dias seguidos de esperan\u00e7a, trouxe-me \u00e0 lembran\u00e7a, ao fim do telefonema, os esfor\u00e7os que o ex-tesoureiro do PT tem feito, em viagens por esse pa\u00eds-continente, para resgatar as ra\u00edzes do PT. 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