{"id":357108,"date":"2025-07-02T10:11:07","date_gmt":"2025-07-02T13:11:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357108"},"modified":"2025-07-02T10:35:40","modified_gmt":"2025-07-02T13:35:40","slug":"pode-acreditar-e-de-pequenino-que-se-torce-o-pepino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pode-acreditar-e-de-pequenino-que-se-torce-o-pepino\/","title":{"rendered":"Pode acreditar; \u00e9 de pequenino que se torce o pepino"},"content":{"rendered":"<p>Drago e Lupo, chamados pela galera, respectivamente, de Drag\u00e3o e Lobinho (pelos que n\u00e3o tinham receio de levar uns cascudos) eram colegas de escola. Estudavam no mesmo internato exclusivo, car\u00edssimo e, digamos, compreensivo e tolerante. Mas n\u00e3o eram amigos, longe disso. Antes, como \u00f3leo e \u00e1gua. Seus santos n\u00e3o batiam; mais precisamente, os dois moleques n\u00e3o gostavam do cheiro um do outro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou com a cara dele \u2013 resumiam, com a simplicidade de garotos de 8 anos, quando perguntados sobre a inimizade.<\/p>\n<p>Os dois estavam na mesma s\u00e9rie, mas n\u00e3o tinham muito conv\u00edvio, at\u00e9 porque estudavam em hor\u00e1rios diferentes, Lupo de manh\u00e3 e Drago \u00e0 tarde.<\/p>\n<p>O primeiro, moreno e forte, adorava esportes; o segundo, lourinho, esguio e de uma palidez quase doentia, cobria sempre o corpo, conseguira dispensa das aulas de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica (repetindo, o col\u00e9gio era compreensivo e tolerante) e passava suas horas livres na biblioteca, lendo pesados volumes sobre ocultismo. Devido a isso, Lupo estava entre os alunos mais populares, enquanto Draco era visto como um estranho no ninho.<\/p>\n<p>A rixa come\u00e7ou nem eles sabem como. Um disse uma abobrinha, o outro respondeu com um vegetal equivalente, e logo passaram \u00e0 fase das ofensas m\u00fatuas.<\/p>\n<p>&#8211; Ot\u00e1rio!<\/p>\n<p>&#8211; Perdedor!<\/p>\n<p>E combinaram sair na porrada \u00e0s 18 horas, na quadra poliesportiva.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que ambos j\u00e1 conheciam palavr\u00f5es cabeludos, mas demonstravam um certo pudor em recorrer a eles. Era como se os termos de baixo cal\u00e3o fossem diminu\u00ed-los, reduzi-los ao n\u00edvel da tigrada. Esta, por sua vez, ficou radiante pela perspectiva de assistir de camarote a uma briga de socos, que provavelmente resultaria em olhos pretos e perda de dentes (dos permanentes, de prefer\u00eancia; os de leite n\u00e3o tinham gra\u00e7a, ca\u00edam por qualquer coisinha).<\/p>\n<p>Na hora marcada, os dois entraram no grande c\u00edrculo improvisado pela molecada, Lupo de short e camiseta, Drago de mangas compridas e \u00f3culos escuros. Como fazem os combatentes desde tempos imemoriais, come\u00e7aram por trocar insultos. Dessa vez, por\u00e9m, n\u00e3o depreciavam o advers\u00e1rio, preferiam louvar suas respectivas linhagens.<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai \u00e9 rico!<\/p>\n<p>&#8211; O meu \u00e9 mais!<\/p>\n<p>Dupla bola fora. Para manter os rebentos naquele internato exclusivo, compreensivo e tolerante, os pais de todos os alunos tinham de ter bastante dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Minha fam\u00edlia mora em um castelo!<\/p>\n<p>&#8211; A minha tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>Verdade. N\u00e3o faltavam castelos naquele trecho da Europa Oriental, em sua grande maioria caindo aos peda\u00e7os, em ru\u00ednas, mas castelos pra plebeu algum botar defeito.<\/p>\n<p>Percebendo que o jogo estava empatado, um deles (n\u00e3o importa qual) apelou:<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai mata!!!<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai mata!!!<\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o do verbo os conduziu ao paroxismo da raiva. Com a descarga de adrenalina, teve in\u00edcio a dupla transforma\u00e7\u00e3o. Os caninos de Drago cresceram, os bra\u00e7os de Lupo cobriram-se de pelos. A tigrada arregalou os olhos, sem acreditar no que estava vendo.<\/p>\n<p>A metamorfose n\u00e3o se completou. Percebendo que estavam \u00e0 beira de conjurar poderes que ainda n\u00e3o eram seus, de revelar segredos zelosamente guardados havia gera\u00e7\u00f5es, os dois se controlaram, desistiram da briga e se afastaram, cada um pro seu lado. Drago, como sempre, seguiu sozinho, Lupo afastou com safan\u00f5es os colegas ansiosos por parabeniz\u00e1-lo por seu desempenho na briga e, em especial, por lhe perguntar por que diabo haviam crescido pelos em seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Dessa vez, n\u00e3o houve mortos nem feridos, mas o aviso estava dado.<\/p>\n<p>Haveria novos confrontos entre eles, por\u00e9m n\u00e3o mais entre um vampirinho e um filhote de lobisomem, e sim quando estivessem em plena posse de seus poderes. O \u00f3dio entre as duas esp\u00e9cies de bestas-feras era milenar.<\/p>\n<p>E, se dependesse de Drago e de Lupo, continuaria vivo pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos, am\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Drago e Lupo, chamados pela galera, respectivamente, de Drag\u00e3o e Lobinho (pelos que n\u00e3o tinham receio de levar uns cascudos) eram colegas de escola. Estudavam no mesmo internato exclusivo, car\u00edssimo e, digamos, compreensivo e tolerante. Mas n\u00e3o eram amigos, longe disso. Antes, como \u00f3leo e \u00e1gua. 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