{"id":357141,"date":"2025-07-02T15:23:46","date_gmt":"2025-07-02T18:23:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357141"},"modified":"2025-07-02T18:26:39","modified_gmt":"2025-07-02T21:26:39","slug":"lula-sequestrado-pela-burguesia-vive-emparedado-em-um-labirinto-sem-saida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-sequestrado-pela-burguesia-vive-emparedado-em-um-labirinto-sem-saida\/","title":{"rendered":"Lula, sequestrado pela burguesia ,vive emparedado em um labirinto sem sa\u00edda"},"content":{"rendered":"<p>A ordem pol\u00edtico-institucional herdada da reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o de 1988 foi posta em recesso com o impeachment de Dilma Rousseff. Morria ali a Nova Rep\u00fablica anunciada por Ulysses Guimar\u00e3es e Tancredo Neves. O golpe de Estado de 2016 se consolidou com o regime-tamp\u00e3o do vice perjuro, ponte para a ascens\u00e3o do neofascismo, pela vez primeira no Brasil a escalar o poder pela via eleitoral.<\/p>\n<p>O presidencialismo espatifa-se como bola de cristal ca\u00edda ao ch\u00e3o e, com seus estilha\u00e7os, a direita concerta o quebra-cabe\u00e7a como novo Leviat\u00e3: poderoso mostrengo que devora as institui\u00e7\u00f5es republicanas e imp\u00f5e a ingovernabilidade como est\u00e1gio preparat\u00f3rio do caos, indispens\u00e1vel para a revoga\u00e7\u00e3o do que ainda podemos chamar de &#8220;ordem democr\u00e1tica&#8221; \u2013 fr\u00e1gil, nada obstante sua permanente concilia\u00e7\u00e3o com o grande capital, no que se esmera o atual Congresso, implac\u00e1vel no desmonte do que quer que seja que possa sugerir um Estado de bem-estar social.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a circunst\u00e2ncia que nos domina: um Poder Executivo acuado, impedido de exercer o dever da governan\u00e7a; um Legislativo que n\u00e3o arrecada, mas \u00e9 senhor dos gastos; uma democracia representativa que prescinde da soberania popular. Um Executivo se esvaindo numa sangria de poder que parece n\u00e3o ter fim, prisioneiro de um Congresso abusivamente reacion\u00e1rio, na tocaia contra qualquer sinal de avan\u00e7o civilizat\u00f3rio. Em seu nome fala e age sua esc\u00f3ria, chorume poderos\u00edssimo que n\u00e3o cessa de crescer em n\u00famero de militantes, em ousadia e em chantagens contra o governo. O quadro funesto se completa com uma Faria Lima descolada do pa\u00eds e de seu povo: seus interesses deitam ra\u00edzes em Wall Street.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00e3o dos dias que demoram a passar: no Brasil de hoje, em cen\u00e1rio no qual o centro e a social-democracia (depois da fal\u00eancia dos liberais) aderiram ao conservadorismo larvar, a direita e a extrema-direita governam independentemente do resultado das elei\u00e7\u00f5es que ainda se realizam \u2013 as quais, assim, deixam de ser decisivas, e sobretudo deixam de ser instrumento de mudan\u00e7a, pois qualquer mudan\u00e7a que n\u00e3o aprofunde a explora\u00e7\u00e3o de classe ser\u00e1 vista como subversiva da ordem na qual a classe dominante (que tamb\u00e9m atende pela alcunha de &#8220;mercado&#8221;) se alimenta.<\/p>\n<p>O processo eleitoral \u00e9 mantido e, por seu interm\u00e9dio, a soberania popular conserva seu direito de fala. Mas a \u00fanica voz realmente ouvida \u00e9 a do sistema. E assim ele \u00e9 mantido porque somente s\u00e3o permitidas as mudan\u00e7as que asseguram que nada mude. A ordem se sobrep\u00f5e ao movimento, e a promessa de futuro \u00e9 a regress\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, somos um pa\u00eds impedido de ser. Esta \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o fundamental entre a necessidade de um projeto de pa\u00eds \u2013 de que carecemos desde a raiz colonial \u2013 e os interesses da classe dominante, governante desde sempre. Nosso mal de origem.<\/p>\n<p>O variegado campo da esquerda em crise, governante ou n\u00e3o, enfrenta o rescaldo de nossos erros: os muitos erros t\u00e1ticos e os graves erros estrat\u00e9gicos, como o de n\u00e3o havermos compreendido o processo hist\u00f3rico e, assim, havermos fracassado como instrumento de mudan\u00e7a. Nem revolu\u00e7\u00e3o, nem reforma. Somam-se quase quatro mandatos de quadros da centro-esquerda controlando a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u2013 neles vivendo a ilus\u00f3ria sensa\u00e7\u00e3o de poder! \u2013 e, ao fim e ao cabo, quando os sinais de hoje sugerem novas amea\u00e7as \u00e0 nossa lideran\u00e7a, nenhum abalo no sistema de poder temos por registrar. Permanecemos jungidos pelo patrimonialismo.<\/p>\n<p>Nenhuma reforma \u2013 nem as reformas estruturais prometidas e necess\u00e1rias, nem as reformas exigidas pela necessidade de modernizar o capitalismo dependente, que transita do projeto industrialista para o reino do agroneg\u00f3cio fundado nas exporta\u00e7\u00f5es de commodities e mat\u00e9rias-primas in natura. Nem a reforma pol\u00edtica, nem a reforma social \u2013 raz\u00e3o de nossa exist\u00eancia. Tampouco a reforma eleitoral, ou a reforma do Judici\u00e1rio, ou uma reforma fiscal que penalize o rentismo e proteja os assalariados.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, quem faz as reformas \u00e9 a direita: a reforma previdenci\u00e1ria, a trabalhista, a reforma administrativa (em curso) \u2013 por \u00f3bvio, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o de seus interesses de classe.<\/p>\n<p>Conservamos intocadas as estruturas herdadas em 2003, e intocadas as entregamos \u00e0 direita em 2019, e caminhamos para de novo devolv\u00ea-las intocadas \u00e0 direita em 2027. Confundindo recuo permanente com habilidade pol\u00edtica, trocamos o avan\u00e7o pela concilia\u00e7\u00e3o e, de tanto perseguirmos acordos com as for\u00e7as dominantes, nos vemos hoje apartados de nossas bases sociais origin\u00e1rias. Os marqueteiros do terceiro andar do Pal\u00e1cio do Planalto n\u00e3o sabem explicar a crise de popularidade do presidente Lula.<\/p>\n<p>Eleito em 2022, a duras penas, mas renovando o compromisso de resgatar a imensa d\u00edvida social do Estado brasileiro, e tendo diante de si uma extrema-direita que acumulava \u2013 como acumula ainda \u2013 condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas de voltar ao poder (assim reeditando a longa noite bolsonarista \u2013 que n\u00e3o pode ser esquecida, embora represente uma mem\u00f3ria dolorosa), o presidente Lula teria tudo para n\u00e3o se auto imolar no altar do rentismo. Pesaram mais, por\u00e9m, as condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis sob as quais assumiu, e o antigo l\u00edder sindical, tido e havido como bom negociador, se afirma sobre o estadista.<\/p>\n<p>O governo \u00e9 presa do &#8220;ajuste fiscal&#8221; \u2013 o mantra do sistema que se imp\u00f5e contra qualquer expectativa de desenvolvimento, conditio sine qua non para qualquer projeto de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda, as car\u00eancias fundamentais de nosso povo.<\/p>\n<p>O sistema econ\u00f4mico \u00e9 dominante porque seus mecanismos \u2013 objetivos e ideol\u00f3gicos \u2013 pervadem toda a estrutura econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica. A privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m um processo pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, que n\u00e3o se mede apenas com a transfer\u00eancia do controle acion\u00e1rio do Estado para o setor privado, mas se revela, fundamentalmente, quando a pol\u00edtica submete a gest\u00e3o p\u00fablica \u00e0 l\u00f3gica das corpora\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n<p>\u00c9 a vit\u00f3ria do neoliberalismo regendo um governo origin\u00e1rio das lutas dos trabalhadores, porque a esquerda no governo assimila os padr\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos do mundo que sonha, ou sonhou, p\u00f4r por terra \u2013 como o colonizado reproduz a ideologia do colonizador, o dominado se p\u00f5e a servi\u00e7o do dominador \u2013 e assim ca\u00edmos na cilada de aparecermos, diante do povo oprimido, como defensores da ordem que condenamos.<\/p>\n<p>Sabidamente, o eixo do poder pol\u00edtico no Brasil mudou, e o fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 de hoje. Seu ponto de refer\u00eancia exemplar \u00e9 o golpe de 2016 \u2013 golpe parlamentar, manobra de c\u00fapula que prescinde de fardados nas ruas e toques de recolher, e pode efetivar-se sem repress\u00e3o policial. Mas o quadro de hoje n\u00e3o caiu do colo dos deuses: resulta de transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas fermentadas por largos anos nas bases da sociedade, para as quais n\u00e3o tivemos olhos para ver antes que viessem \u00e0 tona e explodissem como aluvi\u00e3o que n\u00e3o cessa de crescer \u2013 e diante do qual a esquerda, em todos os seus matizes, n\u00e3o cessa de se surpreender. Assustada, recua.<\/p>\n<p>O eixo do poder mudou porque a ordem social que lhe d\u00e1 vida mudara antes, determinando uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que pode consolidar-se se n\u00e3o for bem compreendida para ser bem enfrentada. Esse enfrentamento, por\u00e9m, depende da capacidade da esquerda de, a partir da constru\u00e7\u00e3o de um projeto de pa\u00eds contempor\u00e2neo com a realidade hist\u00f3rica, construir, na sociedade, uma nova maioria pol\u00edtica. Nestes termos, a sustentabilidade do governo, revisto, se torna necess\u00e1ria, e as elei\u00e7\u00f5es de 2026 assumem caracter\u00edsticas decisivas \u2013 mas n\u00e3o encerram a hist\u00f3ria toda, pois permanecem t\u00e3o-s\u00f3 como ponto de partida de um projeto de poder seguidamente desviado pelas distor\u00e7\u00f5es impostas pelo eleitoralismo que confunde meio com fim.<\/p>\n<p>O que fazer \u00e9 um \u00f3bvio ululante (aproveitando a express\u00e3o grafada por Nelson Rodrigues): fazer pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Como nos ensinou Marx n&#8217;O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte: &#8220;Os homens fazem sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas n\u00e3o a fazem como querem; n\u00e3o a fazem sob circunst\u00e2ncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.&#8221;<\/p>\n<p>No labirinto no qual foi enredado pelas circunst\u00e2ncias, Lula \u00e9 um Teseu desamparado; sem o fio de Ariadne \u2013 um projeto pol\u00edtico claro que fale ao povo \u2013 busca sa\u00edda pedindo ajuda, ou benevol\u00eancia, ao carcereiro mortal: a elite pol\u00edtico-financeira que o sequestrou, e que o detesta. O 1% de rentistas que concentra aproximadamente 48% da riqueza nacional.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de mudar o rumo.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ordem pol\u00edtico-institucional herdada da reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o de 1988 foi posta em recesso com o impeachment de Dilma Rousseff. Morria ali a Nova Rep\u00fablica anunciada por Ulysses Guimar\u00e3es e Tancredo Neves. 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