{"id":357148,"date":"2025-07-03T06:02:44","date_gmt":"2025-07-03T09:02:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357148"},"modified":"2025-07-03T06:04:27","modified_gmt":"2025-07-03T09:04:27","slug":"camara-vira-palanque-e-marina-silva-mostra-as-garras-a-deputados-machistas-so-por-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/camara-vira-palanque-e-marina-silva-mostra-as-garras-a-deputados-machistas-so-por-fora\/","title":{"rendered":"C\u00e2mara vira palanque e Marina Silva mostra as garras a deputados machistas s\u00f3 por fora"},"content":{"rendered":"<p>A temporada de ca\u00e7a est\u00e1 aberta no Congresso Nacional. N\u00e3o se trata de javalis nem de pesticidas \u2014 o alvo agora \u00e9 gente. Mais especificamente, uma mulher, negra, amaz\u00f4nida, evang\u00e9lica e, para desespero de certos senhores engravatados, ministra. Marina Silva voltou a ocupar seu lugar habitual na mira de uma bancada que prefere motosserra a argumento, ofensa a dado t\u00e9cnico, e boi gordo a floresta viva.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 barulho de ensaio. O que se viu na audi\u00eancia da ministra na quarta-feira, 2, foi um pren\u00fancio claro de que a oposi\u00e7\u00e3o largou a fantasia da diplomacia e botou as garras de fora. A um ano e tr\u00eas meses das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, o que era embate virou emboscada, e o Congresso parece mais palanque do que Parlamento.<\/p>\n<p>Na Comiss\u00e3o de Agricultura da C\u00e2mara \u2014 onde o \u00fanico cultivo evidente \u00e9 de hostilidade \u2014 Marina foi convocada para uma audi\u00eancia que, se fosse honesta, teria outro nome. Algo do tipo ritual de apedrejamento parlamentar. Portanto, o Pal\u00e1cio do Planalto que se prepare, porque a tempestade vem do Norte, do Sul, das lavouras e dos plen\u00e1rios. A sorte \u00e9 que Marina, mesmo sendo alvo preferencial, sabe dan\u00e7ar na chuva.<\/p>\n<p>O deputado Evair de Melo, com a sutileza de um trator em mangue, resolveu inovar no repert\u00f3rio de grosserias. Comparou a ministra ao Hamas e \u00e0s Farc. Um primor de diplomacia ruralista. E, como se estivesse em um <em>stand-up<\/em> de mau gosto, resgatou sua infeliz compara\u00e7\u00e3o com o c\u00e2ncer, apenas para emendar que \u201co c\u00e2ncer, muitas vezes, tem cura\u201d \u2014 numa tentativa de dizer que a pr\u00f3pria ministra n\u00e3o teria.<\/p>\n<p>Faz-nos crer que a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o quer ouvir, quer desestabilizar. E, no subtexto dessa audi\u00eancia de 5h30, h\u00e1 uma mensagem mais ampla de que 2026 come\u00e7ou. N\u00e3o oficialmente, claro. Mas nas trincheiras da Comiss\u00e3o de Agricultura e no tom azedo de cada interven\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se ouve o tropel da pr\u00e9-campanha. E ficou claro que o deputado anda confundindo CPI com com\u00edcio e acha que analogia \u00e9 sin\u00f4nimo de crueldade gratuita. Deve ter feito curso avan\u00e7ado em ret\u00f3rica no mesmo lugar onde alguns aprendem a mentir olhando firme nos olhos.<\/p>\n<p>Marina, que j\u00e1 havia deixado o Senado em maio ap\u00f3s insultos de Pl\u00ednio Val\u00e9rio, decidiu permanecer. Mais de cinco horas de agress\u00f5es, interrup\u00e7\u00f5es, ironias. Desta vez, ela ficou at\u00e9 o fim. E respondeu como sempre, usandoa boca para disparar firmeza e f\u00e9.<\/p>\n<p>Quando o deputado Cabo Gilberto mandou que ela \u201cse acalmasse\u201d, como quem educa um c\u00e3o nervoso, como quem repreende uma crian\u00e7a teimosa ou uma esposa \u201chistericazinha\u201d, a ministra fez o que se espera de algu\u00e9m que conhece bem o perfume do machismo disfar\u00e7ado: denunciou. Sem rodeios. E sem baixar a cabe\u00e7a, ela n\u00e3o deixou barato. Denunciou o machismo embutido em cada frase que tenta domar mulheres eloquentes, vindas de um machismo que nunca se manifesta quando um homem esbraveja em plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>A ministra rebateu, resistiu e devolveu com dignidade. Citou a queda do desmatamento, o crescimento do agroneg\u00f3cio, os avan\u00e7os na renda. Mas ali, diante de olhos arregalados e dedos em riste, parecia estar no banco dos r\u00e9us. E era mesmo isso: uma tentativa de julgar n\u00e3o a ministra, mas o governo ao qual ela pertence. E mais ainda: o projeto pol\u00edtico que representa.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00fameros n\u00e3o comovem quem j\u00e1 decidiu que o debate \u00e9 guerra. Ali, a l\u00f3gica era outra: triturar o s\u00edmbolo para enfraquecer o governo. E, de quebra, alimentar a matilha virtual com mais uma farofa t\u00f3xica. Observou-se com clareza que a audi\u00eancia n\u00e3o era sobre pol\u00edtica ambiental. Era sobre pol\u00edtica eleitoral. A floresta entrou pela porta da frente, mas quem ficou no centro da sala foi 2026. O que se viu ali foi um teaser do pr\u00f3ximo embate presidencial, com direito a ataques pessoais, distor\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e aquele velho ran\u00e7o que brota sempre que uma mulher ousa pensar alto demais.<\/p>\n<p>Cinco horas e meia depois, Marina saiu de p\u00e9, sem se curvar, como sempre. Deixou no ar uma frase que parece escrita para a l\u00e1pide de muitos discursos raivosos: \u201c\u00c9 prefer\u00edvel sofrer a injusti\u00e7a do que praticar uma\u201d. Na boca de quem enfrentou tantos desertos, essa frase n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 consolo. \u00c9 profecia. Mas a oposi\u00e7\u00e3o, ao que tudo indica, discorda.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Marta Nobre \u00e9 Editora-Executiva de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A temporada de ca\u00e7a est\u00e1 aberta no Congresso Nacional. N\u00e3o se trata de javalis nem de pesticidas \u2014 o alvo agora \u00e9 gente. Mais especificamente, uma mulher, negra, amaz\u00f4nida, evang\u00e9lica e, para desespero de certos senhores engravatados, ministra. 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