{"id":357239,"date":"2025-07-03T10:04:30","date_gmt":"2025-07-03T13:04:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357239"},"modified":"2025-07-03T10:34:28","modified_gmt":"2025-07-03T13:34:28","slug":"vexames-de-eduvaldo-que-se-imaginava-realeza-sendo-pobre-de-dar-pena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vexames-de-eduvaldo-que-se-imaginava-realeza-sendo-pobre-de-dar-pena\/","title":{"rendered":"Vexames de Eduvaldo, que se imaginava realeza sendo pobre de dar pena"},"content":{"rendered":"<p>Eduvaldo, o Edu, gostava de ler romances. Nos \u00faltimos tempos, vinha encarando o monumental \u2018<em>Em busca do tempo perdido<\/em>\u2019, de Marcel Proust.<\/p>\n<p>Estava fascinado pela magn\u00edfica escrita do autor e tamb\u00e9m por detalhes que lhe permitiam visualizar a sociedade na transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX \u2013 a Belle \u00c9poque.<\/p>\n<p>Um deles era a escrita de cartas. Putz, como as pessoas escreviam!<\/p>\n<p>Diariamente, ou quase, os carteiros de Paris deviam ter uma trabalheira dos diabos. Isso lhe deu uma ideia: mandou (por WhatsApp) a seguinte mensagem a todos os seus amigos: \u201cGalera, n\u00e3o seria legal se a gente n\u00e3o utilizasse e-mail nem zap ou outras redes sociais, e se comunicasse por meio de cartas, como faziam nossos av\u00f3s? Aguardo respostas\u201d.<\/p>\n<p>Estas n\u00e3o demoraram, chamando-o de ultrapassado, saudosista, coisas assim. Uma das mais veementes dizia: \u201cPorra, maluco, t\u00e1 me zoando? Meus av\u00f3s, que Deus os tenha, nunca escreveram uma carta na vida! At\u00e9 porque V\u00f4 mal sabia desenhar o nome, e V\u00f3 era analfabeta de carteirinha\u201d.<\/p>\n<p>Edu teve de recuar, momentaneamente vencido. Mas n\u00e3o desistiu de sua campanha por uma certa eleg\u00e2ncia na comunica\u00e7\u00e3o interpessoal. \u201cDepois recebo um Proust r\u00e1pido e escrevo \u2018<em>Em busca da eleg\u00e2ncia perdida<\/em>\u2019\u201d, dizia sempre a si mesmo, com um risinho.<\/p>\n<p>Outro aspecto que o fascinava era o ritual das visitas. As senhoras elegantes dirigiam-se \u00e0 casa umas das outras, mas n\u00e3o entravam, limitavam-se a entregar a um criado o seu cart\u00e3o. Pelas descri\u00e7\u00f5es do romancista, Edu soube que alguns desses cart\u00f5es de visita eram adornados por coroas principescas ou ducais (os que eram deixados por princesas ou duquesas, l\u00f3gico). Isso lhe parecia o suprassumo da eleg\u00e2ncia. Ent\u00e3o decidiu-se:<\/p>\n<p>&#8211; Vou mandar imprimir cart\u00f5es de visita com uma imagem sugestiva. E vou utilizar essa imagem nos meus e-mails, no WhatsApp, em todas as minhas redes sociais!<\/p>\n<p>Por um momento, pensou em utilizar o bras\u00e3o da fam\u00edlia Silva, que surgira no reino de Le\u00e3o, que inclui um le\u00e3o de p\u00farpura em campo de prata (o Google traz esse tipo de informa\u00e7\u00e3o, em geral in\u00fatil). Afinal, era um Silva. Por sorte, logo caiu em si: Eduvaldo da Silva era um nome pra l\u00e1 de plebeu, n\u00e3o combinaria com um bras\u00e3o fake. N\u00e3o descartou, por\u00e9m, o uso do t\u00edtulo de bar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA palavra bar\u00e3o \u00e9 de origem germ\u00e2nica e significava originalmente homem livre, guerreiro\u201d, concluiu, depois de guglar novamente. \u201cO mesmo que o var\u00e3o usado em Portugal. Os Silva leoneses eram guerreiros, cavaleiros com bras\u00e3o de armas, portanto bar\u00f5es. \u00c9, bar\u00e3o Eduvaldo da Silva n\u00e3o soa nada mal&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Que imagem usaria, afinal, nos seus cart\u00f5es e redes sociais? Assumiria o bras\u00e3o de armas leon\u00eas ou seria mais discreto? A solu\u00e7\u00e3o para suas d\u00favidas veio do livro 2, \u2018<em>\u00c0 sombra das raparigas em flor<\/em>\u2019, do romance de Proust. Nele, o autor conta que o papel timbrado da carta que Gilberte, seu primeiro amor, lhe envia, \u201ctinha um sinete prateado representando um cavaleiro com o seu capacete, a cujos p\u00e9s se retorcia a divisa <em>Per viam rectam<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Ele leu a descri\u00e7\u00e3o, a releu, e lembrou que Swann, pai de Gilberte, era plebeu. Um plebeu rico, que frequentava pr\u00edncipes e princesas, mas plebeu. Quase igual a ele, que era um plebeu pobre, pobre, pobre, de marr\u00e9 marr\u00e9 marr\u00e9.<\/p>\n<p>A imagem, decidiu-se, ia ser a de um cavaleiro de capacete; achou prudente acrescentar um cavalo, Proust n\u00e3o informara se o quadr\u00fapede estava presente no papel timbrado dos Swann. Quanto \u00e0 frase em latim, n\u00e3o ousou plagiar a cita\u00e7\u00e3o do romance, optou pela orgulhosa m\u00e1xima da cidade de S\u00e3o Paulo, Non ducor duco (n\u00e3o sou conduzido, conduzo). Se lhe perguntassem por que ele, catarinense, usava a frase paulistana, tinha a resposta na ponta da l\u00edngua:<\/p>\n<p>-Tamb\u00e9m n\u00e3o sou conduzido, conduzo.<\/p>\n<p>E a\u00ed deu bosta.<\/p>\n<p>Primeiro, com a imagem. Fez pose para a foto, de capacete na cabe\u00e7a, com uma express\u00e3o que imaginava heroica, mas que lhe deu a apar\u00eancia de um pe\u00e3o rude, de vaquejada. O cavalo tamb\u00e9m n\u00e3o lembrava um equino medieval, parecia sa\u00eddo, pra l\u00e1 de b\u00eabado, do show sertanejo de uma Festa de Pe\u00e3o e Boiadeiro. Seja como for, mandou imprimir junto \u00e0 imagem duas vers\u00f5es escritas, uma apenas com o seu nome e outra como bar\u00e3o Eduvaldo da Silva, esta \u00faltima destinada a recentes conhecidos.<\/p>\n<p>Ele nunca soube se errou a escrita, se foi culpa de sua p\u00e9ssima caligrafia ou, mais prov\u00e1vel, se o engano foi da gr\u00e1fica, mas o timbre, a ser utilizado em seus cart\u00f5es de visita, e-mails e postagens em todas as suas redes sociais, trazia impressas as palavras Non ducor, ducu. Com u, n\u00e3o o. E o pobre imbecil s\u00f3 percebeu depois de ter enviado dezenas de mensagens por todas as redes e distribu\u00eddo centenas de cart\u00f5es.<\/p>\n<p>A tigrada fez a festa, passando a cham\u00e1-lo de \u201cbar\u00e3o ducu\u201d ou, os mais chegados, de \u201cEdu ducu\u201d. J\u00e1 seus desafetos fizeram ainda pior, modificando ligeiramente a pron\u00fancia do ducu, fazendo o \u201cdu\u201d soar um pouquinho como \u201cdao\u201d.<\/p>\n<p>Desesperado, mandou fazer nova impress\u00e3o com a frase correta e exigiu ser chamado de Eduvaldo, para evitar a rima f\u00e1cil ou, pelo menos, distanci\u00e1-la do Edu, mas era tarde demais. Virou alvo de zombarias generalizadas e sofreu adoidado com elas, a ponto de quase chorar de gratid\u00e3o quando era chamado simplesmente de bar\u00e3o pelos que n\u00e3o conheciam os detalhes do vexame.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduvaldo, o Edu, gostava de ler romances. Nos \u00faltimos tempos, vinha encarando o monumental \u2018Em busca do tempo perdido\u2019, de Marcel Proust. Estava fascinado pela magn\u00edfica escrita do autor e tamb\u00e9m por detalhes que lhe permitiam visualizar a sociedade na transi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX \u2013 a Belle \u00c9poque. 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