{"id":357397,"date":"2025-07-05T10:24:02","date_gmt":"2025-07-05T13:24:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357397"},"modified":"2025-07-05T10:24:02","modified_gmt":"2025-07-05T13:24:02","slug":"dor-da-guerra-provoca-exilio-da-infancia-inocente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dor-da-guerra-provoca-exilio-da-infancia-inocente\/","title":{"rendered":"Dor da guerra provoca exilio da inf\u00e2ncia inocente"},"content":{"rendered":"<p>A escolinha ficava na curva do estrad\u00e3o. Longe de l\u00e1 havia a casa grande e a fazenda aos p\u00e9s da serra da Mantiqueira. O pai servia as vacas todas \u00e0s madrugadas com capim gordur\u00e3o e, de embornal tran\u00e7ado no peito, corria para a escolinha atr\u00e1s da instru\u00e7\u00e3o. Entre outras hist\u00f3rias, tem a da cobra.<\/p>\n<p>Certo dia, ao servir as vacas, l\u00e1 no cesto estava a terr\u00edvel urut\u00fa-estrela. A picada foi quase fatal. O pai agonizou durante dias at\u00e9 que feito um Perseu que voa com suas sand\u00e1lias aladas, que n\u00e3o volta jamais o olhar para a face da terr\u00edvel Medusa mas apenas para a imagem que v\u00ea refletida no escudo de bronze, rasgar com o canivete, em del\u00edrio, a bolha pustulenta que o convidava para o passeio ao al\u00e9m, al\u00e9m do sonho do r\u00e1dio que ainda iria sonhar, do trem, das plataformas e da mulher com os filhos que um dia viria a ter.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que ele n\u00e3o aceitou o insinuante convite da v\u00edbora e deste saio ileso. O pai-menino, livre para correr em busca da instru\u00e7\u00e3o e para construir a sua met\u00e1fora de um dia ser homem, um homem do mundo.<\/p>\n<p>A chuva caia sobre o vale do Para\u00edba e volta da escolinha tornara-se um desafio. O pai acelerou os p\u00e9s de anjo e encarou o barro. L\u00e1 pelas tantas passou um caminh\u00e3o. A corona foi quase que inevit\u00e1vel. Uma crian\u00e7a correndo na chuva? Quem n\u00e3o proporia um atalho contra a dist\u00e2ncia e o frio da \u00e1gua que a tudo molhava?<\/p>\n<p>O pai subiu na carroceria do pequeno caminh\u00e3o. Pisou firme por sobre o encerado at\u00e9 se acomodar e curtir o prazer da ajuda. Anos depois, ao nos contar este epis\u00f3dio, o pai jamais demonstrou qualquer tra\u00e7o de medo, decep\u00e7\u00e3o ou desconfian\u00e7a. O fato \u00e9 que tudo estava l\u00e1. Os primeiros contatos com a hist\u00f3ria dos homens; com a dor dos homens que primam por destruir as coisas, o entorno e a vida dos seres em nome de conceitos e ideias que jamais poder\u00e3o brotar nova vida.<\/p>\n<p>Ao pisar mais forte, tentando se acomodar na rabeira do velho fordinho &#8211; que pulava mais que as vacas quando ele trazia o gordur\u00e3o para a refei\u00e7\u00e3o matinal -, o pai sentiu algo mole sob os p\u00e9s, como se o mundo come\u00e7asse a se esfacelar. Havia um dilema colocado ali. Levantar ou n\u00e3o o encerado?:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! Nunca sei quando tomar a atitude certa, na hora certa! Sei que estou pisando em alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 gordur\u00e3o, nem vaca morta, nem um carregamento da geleia que a m\u00e3e Cristina me d\u00e1 nos caf\u00e9s das manh\u00e3s&#8230; mas&#8230; eu quero olhar; quero ver tudo o que h\u00e1 para ser visto!, pensou o menino.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, nos descreveria em detalhes o ocorrido ressaltando que aquele fato recuperado da inf\u00e2ncia lhe havia dado &#8220;a perfeita no\u00e7\u00e3o de que as coisas n\u00e3o t\u00eam paz&#8221;.<\/p>\n<p>Tomou coragem e decidiu levantar o encerado. A chuva cobria tudo. N\u00e3o foi preciso muito esfor\u00e7o para descobrir a imagem que o marcaria pela vida. O som da voz humana, quase um fiapo de voz, o alertou antes da descoberta crucial:<\/p>\n<p>&#8211; Pelo amor de Deus, pisa mais forte e acaba de me matar!&#8230;a dor \u00e9 insuport\u00e1vel!<\/p>\n<p>Ao levantar a ponta do encerado, o pai encontrou v\u00e1rios corpos de jovens soldados, destro\u00e7ados e empilhados, como a carne das vacas que ele alimentava e depois acabariam no matadouro da velha cidade. Era a guerra de 1932, na divisa da S\u00e3o Paulo com Minas, ao p\u00e9 da serra da Mantiqueira, onde existiu a fazenda de nossos av\u00f3s e tamb\u00e9m um menino, com os olhos d&#8217;alma, que amava as vacas provedoras de leite e que, a partir daquele dia, aprendeu a amar e a chorar frente \u00e0s circunst\u00e2ncias dos homens.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s este dia, o pai jamais seria o mesmo; \u00e0s vezes, sem raz\u00e3o aparente, ele tocava na terr\u00edvel est\u00f3ria da urut\u00fa-estrela. Como sempre, esbo\u00e7ava o sorriso matreiro &#8211; mais para mineiro do que para paulista -, enquanto acariciava o grosso bigode, num ritual de d\u00favida e de al\u00edvio. Poucas vezes, ao contar-nos outras hist\u00f3rias, o pai retornou ao epis\u00f3dio dos pracinhas paulistas. De certo mesmo, permanece a impress\u00e3o de que o horror da guerra, para sempre, determinou a perda da inoc\u00eancia e o seu definitivo ex\u00edlio da inf\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escolinha ficava na curva do estrad\u00e3o. Longe de l\u00e1 havia a casa grande e a fazenda aos p\u00e9s da serra da Mantiqueira. O pai servia as vacas todas \u00e0s madrugadas com capim gordur\u00e3o e, de embornal tran\u00e7ado no peito, corria para a escolinha atr\u00e1s da instru\u00e7\u00e3o. Entre outras hist\u00f3rias, tem a da cobra. 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