{"id":357484,"date":"2025-07-06T07:16:30","date_gmt":"2025-07-06T10:16:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357484"},"modified":"2025-07-06T07:50:15","modified_gmt":"2025-07-06T10:50:15","slug":"manuel-bandeira-que-encantou-o-rio-e-o-brasil-pode-ficar-a-ver-navios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/manuel-bandeira-que-encantou-o-rio-e-o-brasil-pode-ficar-a-ver-navios\/","title":{"rendered":"Manuel Bandeira, que encantou o Rio e o Brasil, pode ficar a ver navios"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes \u00e9 lament\u00e1vel como n\u00f3s, brasileiros, tratamos as mem\u00f3rias. Li estarrecido no jornal que t\u00famulos do cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, no Rio de Janeiro, ser\u00e3o retomados pela administra\u00e7\u00e3o privada do local, pois os donos dos jazigos perp\u00e9tuos n\u00e3o s\u00e3o mais localizados e n\u00e3o pagam uma taxa anual. O que resta, na hist\u00f3ria, de pessoas extintas dos anos de 1860 para frente, ser\u00e1 demolido.<\/p>\n<p>Em outras cidades do mundo, cemit\u00e9rios antigos s\u00e3o atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica. Lembrei-me de um antigo cemit\u00e9rio judeu que visitei em Veneza, com seus t\u00famulos dos s\u00e9culos XIV a XVII. Ser\u00e1 que a edilidade local estaria cobrando taxas, sob pena de desalojar seus ocupantes? E nem se poderia dizer que em Veneza h\u00e1 mais espa\u00e7o que no Rio de Janeiro, a pretexto de alegar a exiguidade do ambiente para novas sepulturas.<\/p>\n<p>Creio que um dos habitantes ilustres do citado cemit\u00e9rio carioca n\u00e3o deve ser molestado. Trata-se de Manuel Bandeira, poeta maior de nossas letras, cuja sepultura visitei uma vez em que estive no Rio. Ele repousa no mausol\u00e9u da Academia Brasileira de Letras, de que era membro, desde 13 de outubro de 1968, no nicho 61. Ele e os demais membros da ABL t\u00eam o sossego garantido da \u00faltima morada. Creio que nenhuma administra\u00e7\u00e3o v\u00e1 cometer o desatino de lhes perturbar o descanso.<\/p>\n<p>Afora esse local, alguma refer\u00eancia sobre o poeta tamb\u00e9m pode ser vista na portaria do Edif\u00edcio S\u00e3o Miguel, na avenida Beira Mar 406, bem pertinho da ABL e do Vilarino, famoso bar onde nasceu a bossa nova. Ali foi um dos endere\u00e7os de Manuel Bandeira na Cidade Maravilhosa \u2013 o pen\u00faltimo, para ser mais preciso, pois, quando morreu, morava na Aires Saldanha 72, em Copacabana, esquina com Miguel Lemos.<\/p>\n<p>Bandeira morou em dois apartamentos no S\u00e3o Miguel. O primeiro era voltado para o p\u00e1tio que servia de estacionamento, mas tamb\u00e9m abrigava monturos de lixo, onde um homem, feito bicho, engolia qualquer coisa que nele encontrasse, como mostrado nos versos de \u201cO Bicho\u201d, em \u201cBelo Belo\u201d, de 1948.<\/p>\n<p>Vi ontem um bicho<br \/>\nNa imund\u00edcie do p\u00e1tio<br \/>\nCatando comida entre os detritos.<br \/>\nQuando achava alguma coisa,<br \/>\nN\u00e3o examinava nem cheirava:<br \/>\nEngolia com voracidade.<br \/>\nO bicho n\u00e3o era um c\u00e3o,<br \/>\nN\u00e3o era um gato,<br \/>\nN\u00e3o era um rato.<br \/>\nO bicho, meu Deus, era um homem.<\/p>\n<p>Depois, mudou-se para um outro, com vista livre. Este, voltado para a Ba\u00eda de Guanabara, o Aterro do Flamengo e o aeroporto Santos Dumont, apareceu lindamente em sua lira. Era nele que o poeta tomava li\u00e7\u00f5es de partir, como ele diz no poema \u201cLua Nova\u201d, publicado em \u201cOpus 10\u201d, de 1952:<\/p>\n<p>(&#8230;) Todas as manh\u00e3s o aeroporto em frente me d\u00e1 li\u00e7\u00f5es de partir:<br \/>\nHei de aprender com ele<br \/>\nA partir de uma vez<br \/>\n\u2013 Sem medo,<br \/>\nSem remorso,<br \/>\nSem saudade. (&#8230;)<\/p>\n<p>Esse pr\u00e9dio \u00e9 mostrado no curta-metragem realizado em 1959, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em que Bandeira aparece preparando o pr\u00f3prio caf\u00e9 da manh\u00e3 e se vestindo para sair, enquanto sua voz recita poemas antol\u00f3gicos. Vale a pena assistir, encontra-se no YouTube, sob o t\u00edtulo \u201cO Poeta do Castelo\u201d (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kFB2WQWniyM&amp;t=100s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kFB2WQWniyM&amp;t=100s<\/a>).<\/p>\n<p>N\u00e3o seria nada mal se o apartamento do bardo fosse convertido em um pequeno museu, aberto \u00e0 visita\u00e7\u00e3o, como tantos cong\u00eaneres na Europa. Mas n\u00e3o creio que isso aconte\u00e7a, infelizmente, dado o pouco prest\u00edgio que a hist\u00f3ria tem entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>O Brasil, infelizmente, ainda hesita em transformar em patrim\u00f4nio vivo aquilo que \u00e9 imortal na palavra. O apartamento de Bandeira, como sua poesia, guarda um sil\u00eancio cheio de hist\u00f3ria \u2013 que talvez jamais se quebre em homenagem. Mas enquanto houver quem leia e escreva com a alma, como ele, sua presen\u00e7a continuar\u00e1 pairando sobre os versos e as janelas do Rio.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 81, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes \u00e9 lament\u00e1vel como n\u00f3s, brasileiros, tratamos as mem\u00f3rias. Li estarrecido no jornal que t\u00famulos do cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, no Rio de Janeiro, ser\u00e3o retomados pela administra\u00e7\u00e3o privada do local, pois os donos dos jazigos perp\u00e9tuos n\u00e3o s\u00e3o mais localizados e n\u00e3o pagam uma taxa anual. 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