{"id":357528,"date":"2025-07-07T00:58:49","date_gmt":"2025-07-07T03:58:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357528"},"modified":"2025-07-07T01:11:01","modified_gmt":"2025-07-07T04:11:01","slug":"um-dia-alguem-dira-que-ao-irmos-embora-deixamos-historias-a-ser-contadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-dia-alguem-dira-que-ao-irmos-embora-deixamos-historias-a-ser-contadas\/","title":{"rendered":"Um dia, algu\u00e9m dir\u00e1 que ao irmos embora, deixamos hist\u00f3rias a ser contadas"},"content":{"rendered":"<p>Hav\u00edamos deixado a tia Ism\u00e1lia no Cemit\u00e9rio do Caju. Viveu sozinha por muitos anos, coitada, desde a morte do marido. Eu mesmo pouco havia convivido com tio Jorge, lembro apenas de relance, na inf\u00e2ncia, daquela figura lusitana baixinha e gorda, que usava um bon\u00e9 cinza e era divertido. Dirigia um Fusca azul.<\/p>\n<p>O casal n\u00e3o teve filhos. Mas amou generosamente os sobrinhos e sobrinhos-netos. Eu me encaixo na \u00faltima categoria, sou o ca\u00e7ula dos sobrinhos-netos. Os mais velhos que eu aproveitaram mais, sem d\u00favida. Eu convivi com ela mais velhinha, j\u00e1 sem o s\u00edtio de Itagua\u00ed, vendido porque ela n\u00e3o se animava de cuidar na aus\u00eancia de tio Jorge. Estive l\u00e1 umas duas vezes com meu pai, ajudando a recolher algumas coisas, antes de ele ser passado de porteira fechada ao novo dono.<\/p>\n<p>Tia Ism\u00e1lia era a representante de uma ra\u00e7a extinta. Derradeiro elo entre n\u00f3s e gente nossa que s\u00f3 conhecemos atrav\u00e9s dos relatos dos mais velhos. Ela era irm\u00e3 de meu av\u00f4 paterno, a que mais tempo viveu dentre os cinco filhos de meus bisav\u00f3s.<\/p>\n<p>Exercera alguma fun\u00e7\u00e3o no servi\u00e7o p\u00fablico, a qual eu nunca entendi direito. Certamente foi no Tribunal de Contas, e se aposentou por tempo de servi\u00e7o. Ganhava bem, era saud\u00e1vel, independente, mas o tempo chegou cobrando sua conta e, ap\u00f3s uma breve pneumonia, l\u00e1 se foi titia.<\/p>\n<p>Fomos encarregados de tratar do invent\u00e1rio, ver o que tinha dentro do apartamento dela. Os herdeiros iam decidir se o im\u00f3vel seria vendido, ou alugado. Em ambas as hip\u00f3teses, restaria uma ninharia para cada um dos sucessores. At\u00e9 pensaria em compr\u00e1-lo para mim, se tivesse meios.<\/p>\n<p>Confesso que, ao receber a chave do apartamento da rua Conde de Bonfim, na Tijuca, tremi de emo\u00e7\u00e3o. Fui para l\u00e1 numa tarde de s\u00e1bado. Senti-me um intruso, pois iria abrir seus arm\u00e1rios, vasculhar suas gavetas, e ficara com a miss\u00e3o de me desfazer do que n\u00e3o tivesse valor econ\u00f4mico, e separar o que pudesse ser vendido para um antiqu\u00e1rio, por exemplo.<\/p>\n<p>A casa de minha tia parecia haver parado no tempo. O telefone de baquelite laranja sobre um aparador com espelho, a cozinha de azulejos azuis, o grande sof\u00e1 de couro preto com um velho viol\u00e3o de cordas rompidas apoiado, um r\u00e1dio valvulado certamente dos anos 50&#8230; A \u00fanica coisa que destoava naquele ambiente era a TV de led, moderna, que os sobrinhos haviam dado para ela de Natal h\u00e1 alguns anos, quando o sinal da TV anal\u00f3gica foi desativado. Foi um custo convenc\u00ea-la de que a nova TV n\u00e3o tinha bot\u00f5es, era tudo no controle remoto.<\/p>\n<p>Encontrei, numa estante do quarto, um grande \u00e1lbum de retratos, guardado perto de uma caixa repleta de fotografias soltas. V\u00e1rias imagens tinham refer\u00eancias, nomes, datas, e se tratavam de antepassados meus, ou familiares do tio Jorge.<\/p>\n<p>Uma gente de fei\u00e7\u00f5es ora duras, ora meigas, em que reconheci muitos tra\u00e7os de meus parentes vivos \u2013 acredito que o fruto nunca cai distante da \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Como ter\u00e1 sido aquela gente antiga, que, de certa maneira, ainda seguia em n\u00f3s, no formato de nossos narizes, olhos, dedos, e mesmo na nossa maneira de ser?<\/p>\n<p>Caso ningu\u00e9m se opusesse, eu guardaria aquelas fotografias comigo.<\/p>\n<p>Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o, em especial, uma daquelas fotos. Era uma mulher antiga, de uns cinquenta e tantos anos, talvez. A julgar por seu traje, passava por um per\u00edodo de luto pesado, ou tratava-se apenas de recato. N\u00e3o tinha nenhum indicativo da pessoa retratada no grosso papel cartonado que dava sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem. Quem seria? Seus tra\u00e7os n\u00e3o me eram de todo estranhos.<\/p>\n<p>Achei-a linda e separei a foto. Iria consultar os mais velhos da fam\u00edlia em busca de alguma pista.<\/p>\n<p>A desmontagem do apartamento de tia Ism\u00e1lia foi trabalho de algumas semanas, que consumiu energia e causou-me uma bela crise de rinite al\u00e9rgica. Seus m\u00f3veis foram praticamente todos vendidos para uma empresa de cenografia que achamos na internet, e apuramos um bom valor. Objetos pessoais, como roupas de vestir e de cama, foram doadas para uma institui\u00e7\u00e3o. Os aparelhos dom\u00e9sticos acabaram nas m\u00e3os de um antiqu\u00e1rio que muito se interessou pela antiga vitrola, uma batedeira vermelha e at\u00e9 a geladeira Kelvinator, cujo puxador da porta lembrava o desenho de uma coluna do Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>Estranhamente, conforme os c\u00f4modos do tr\u00eas quartos com su\u00edte iam ficando vazios, eu me sentia ainda mais pr\u00f3ximo da tia-av\u00f3, da qual, nos \u00faltimos anos, a vida corrida, o trabalho, os afazeres, havia me distanciado. Percebi que a amara sempre, e devia ter me esfor\u00e7ado para estar mais presente.<\/p>\n<p>Indaguei a v\u00e1rios parentes quem teria sido aquela figura no retrato. Ningu\u00e9m conseguiu me dizer ao certo. Minha bisav\u00f3 certamente n\u00e3o era, pois em nada se parecia com as imagens dela, em v\u00e1rias fases da vida, com a respectiva identifica\u00e7\u00e3o. Talvez fosse a m\u00e3e do tio Jorge? Uma parenta dele, de Portugal? N\u00e3o conseguimos apurar.<\/p>\n<p>Tivesse eu feito a visita que devia a tia Ism\u00e1lia alguns meses antes, contra a qual sempre apareceram desculpas, poderia ter revirado aquela caixa de retratos e ela me explicaria a origem da fotografia. Certamente ela saberia. E viriam hist\u00f3rias, fofocas de fam\u00edlia, relatos sobre as manias e o jeito daquela gente h\u00e1 tanto adormecida. Parentes guardados no mesmo Cemit\u00e9rio do Caju.<\/p>\n<p>A imagem da mulher misteriosa seguiu comigo, bem como suas cong\u00eaneres. Ainda me pego olhando para ela e imaginando hist\u00f3rias. Teria ela sido bem-humorada? Que pessoas amou? Qual era sua comida preferida? Com que dores haver\u00e1 partido dessa vida para o nunca mais?<\/p>\n<p>Pus-me a meditar sobre esse \u201cnunca mais\u201d. Ele chegaria, sem d\u00favida, tamb\u00e9m para mim. Detestaria ser esquecido completamente, a ponto de nenhum parente saber meu nome, sequer imaginar minha liga\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia vendo um velho \u00e1lbum de fotografias.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, sigo convicto de que o sentido da vida \u00e9 estar mais nos outros do que em mim mesmo, esperando que, um dia, os outros contem para sua descend\u00eancia as pequenas hist\u00f3rias de que fomos protagonistas.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail <em>danielmarchiadv@gmail.com<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hav\u00edamos deixado a tia Ism\u00e1lia no Cemit\u00e9rio do Caju. Viveu sozinha por muitos anos, coitada, desde a morte do marido. 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