{"id":357591,"date":"2025-07-07T09:20:48","date_gmt":"2025-07-07T12:20:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=357591"},"modified":"2025-07-07T10:05:18","modified_gmt":"2025-07-07T13:05:18","slug":"ciencia-socorre-cerrado-que-ganha-cara-nova-em-50-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ciencia-socorre-cerrado-que-ganha-cara-nova-em-50-anos\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia socorre Cerrado que ganha cara nova em 50 anos"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 meio s\u00e9culo, o Cerrado era visto por muitos como uma terra de impossibilidades, quase um deserto de terras vermelhas, de solos pobres, vegeta\u00e7\u00e3o retorcida e longos per\u00edodos sem chuva. Um bioma que parecia desafiar a ideia tradicional de produtividade. Mas tamb\u00e9m era \u2013 e ainda \u00e9 \u2013 o bioma do inesperado. Uma das regi\u00f5es mais biodiversas do planeta, um mosaico de formas de vida.<\/p>\n<p>E foi nesse territ\u00f3rio de desafios que a ci\u00eancia decidiu fincar os p\u00e9s \u2013 h\u00e1 exatos 50 anos, com a cria\u00e7\u00e3o da Embrapa Cerrados. Naquele tempo, poucos acreditavam que seria poss\u00edvel transformar a terra vermelha do Planalto Central brasileiro em solo f\u00e9rtil, produtivo e sustent\u00e1vel. E hoje, cinco d\u00e9cadas depois, o resultado est\u00e1 nos n\u00fameros e, mais do que isso, na vida que brota de onde antes se dizia ser imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), a safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas deve atingir, em 2025, 330 milh\u00f5es de toneladas, um aumento de 12% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 do ano anterior. Mais da metade disso (50,4%) vir\u00e1 do Brasil Central. Nos \u00faltimos 34 anos, a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria nacional avan\u00e7ou 471% \u2013 um ineg\u00e1vel ganho de efici\u00eancia.<\/p>\n<p>Quem cruza hoje o Centro-Oeste testemunha n\u00e3o mais o vazio, mas a vida em lavouras que se estendem pelo horizonte. A agricultura do Cerrado se diversificou \u2014 aqui se cultiva de tudo: caf\u00e9, girassol, maracuj\u00e1, feij\u00e3o, soja, milho, seringueira. Em \u00e1reas onde mal havia pasto para o gado, hoje se colhem at\u00e9 tr\u00eas safras ao ano.<\/p>\n<p>Mas o mais surpreendente \u00e9 a forma como foi feita essa transforma\u00e7\u00e3o: com base na ci\u00eancia, na inova\u00e7\u00e3o e no manejo sustent\u00e1vel dos recursos naturais. O que come\u00e7ou com a corre\u00e7\u00e3o de solos \u00e1cidos usando calc\u00e1rio e gesso agr\u00edcola \u2014 este \u00faltimo, antes, um descarte da ind\u00fastria \u2014 tornou-se insumo-chave para a competitividade da agricultura nacional.<\/p>\n<p><strong>Momento de celebra\u00e7\u00e3o e reflex\u00f5es<\/strong><br \/>\nNeste 2025, ano em que a Embrapa Cerrados celebra 50 anos, \u00e9 tempo de fazer uma retrospectiva e perguntar: o que aprendemos com os solos que um dia nos disseram serem inf\u00e9rteis, com o clima dito in\u00f3spito do bioma e da biodiversidade desconhecida at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s?<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o cabe em uma frase, tampouco se encerra em n\u00fameros. Mas \u00e9 poss\u00edvel dizer que aquele Cerrado desacreditado \u00e9 hoje o grande celeiro do Brasil. Mais de 50% da produ\u00e7\u00e3o nacional de gr\u00e3os vem de seus campos. O milho da segunda safra, que hoje colhemos em abund\u00e2ncia, a soja que cobre o horizonte, o trigo que um dia foi exclusividade das regi\u00f5es temperadas. Tudo isso floresceu onde antes s\u00f3 pastavam algumas poucas cabe\u00e7as de gado.<\/p>\n<p>Essa virada de chave n\u00e3o foi m\u00e1gica \u2013 foi feita de ci\u00eancia, insist\u00eancia e muito empenho diante do desconhecido. V\u00e1rios ouviram que era imposs\u00edvel cultivar aqui, que era sonho e, ainda assim, persistiram. E ao fazer isso, ajudaram a mudar o rumo da agricultura tropical, do pr\u00f3prio pa\u00eds e, por que n\u00e3o, do planeta?<\/p>\n<p>Assim como a corre\u00e7\u00e3o dos solos, a adapta\u00e7\u00e3o das culturas agr\u00edcolas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do Cerrado por meio do melhoramento gen\u00e9tico foi crucial para o sucesso da agricultura topical. E em poucas d\u00e9cadas, veio a abund\u00e2ncia. As lavouras de soja passaram de 18 milh\u00f5es de toneladas em 1990 para uma estimativa de 164 milh\u00f5es em 2025.<\/p>\n<p>O trigo, com a cultivar BRS 264, resultado de d\u00e9cadas de pesquisa na Embrapa Cerrados, saiu de 20 para 160 sacas por hectare \u2013 recorde mundial, alcan\u00e7ado no munic\u00edpio goiano de Cristalina. Tudo isso com tecnologias que diminuem o uso de insumos qu\u00edmicos e as emiss\u00f5es de carbono em milh\u00f5es de toneladas por ano.<\/p>\n<p>O Brasil se tornou competitivo n\u00e3o por esgotar seus recursos, mas por aprender a aproveit\u00e1-los da melhor maneira. A sele\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias capazes de absorver o nitrog\u00eanio do ar e fix\u00e1-lo nas ra\u00edzes das plantas levou ao uso da Fixa\u00e7\u00e3o Biol\u00f3gica de Nitrog\u00eanio nas lavouras de soja. A tecnologia gera uma economia anual de US$ 16,4 bilh\u00f5es ao substituir os fertilizantes nitrogenados, al\u00e9m de evitar a emiss\u00e3o de 206 milh\u00f5es de toneladas de CO\u2082 equivalente, considerando apenas as lavouras de soja. J\u00e1 nas lavouras de milho, \u00e9 poss\u00edvel reduzir em at\u00e9 24% as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa por tonelada produzida.<\/p>\n<p>O experimento de Integra\u00e7\u00e3o Lavoura-Pecu\u00e1ria (ILP) mais antigo do Brasil, implantado na Embrapa Cerrados em 1991, \u00e9 exemplo disso. Hoje, s\u00e3o mais de 17 milh\u00f5es de hectares no Brasil com sistemas integrados que conservam o solo, diversificam a produ\u00e7\u00e3o e diminuem a press\u00e3o pela abertura de novas \u00e1reas para produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m os bioinsumos, alternativa sustent\u00e1vel aos insumos qu\u00edmicos, cuja ado\u00e7\u00e3o vem crescendo a uma taxa de 13% ao ano, com 156 milh\u00f5es de hectares tratados, capazes de evitar a emiss\u00e3o de at\u00e9 18,5 milh\u00f5es de toneladas de CO\u2082. O pa\u00eds j\u00e1 desponta como l\u00edder global nesse setor.<\/p>\n<p>Mais recentemente, a Embrapa Cerrados desenvolveu a Bioan\u00e1lise de Solos (BioAS), que avalia a sa\u00fade dos solos, ferramenta crucial para orientar pr\u00e1ticas de manejo mais sustent\u00e1veis, ajudando o agricultor a enxergar a vida que existe debaixo da terra e mant\u00e9m a vida acima dela.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui, nos laborat\u00f3rios da Embrapa Cerrados, nasceu o Zoneamento Agr\u00edcola de Risco Clim\u00e1tico, tecnologia baseada em dados hist\u00f3ricos que ajuda o produtor a decidir a melhor \u00e9poca de plantio para reduzir perdas causadas por adversidades clim\u00e1ticas, como secas e geadas.<\/p>\n<p>Hoje, essa ferramenta \u00e9 pol\u00edtica p\u00fablica usada em programas de cr\u00e9dito e de seguro agr\u00edcolas, proporcionando seguran\u00e7a aos nossos produtores rurais e aplica\u00e7\u00e3o mais eficiente de recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Diante de tantas conquistas, algumas perguntas devem permanecer: como queremos prosseguir? A resposta, mais uma vez, precisa vir da ci\u00eancia. A agricultura que celebra recordes de produtividade precisa tamb\u00e9m liderar a transi\u00e7\u00e3o para sistemas regenerativos com uso racional dos recursos naturais. E isso j\u00e1 est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>O caminho iniciado por Edson Lobato, primeiro cientista brasileiro a receber o The World Food Prize, o &#8220;Pr\u00eamio Nobel&#8221; da Agricultura, e por tantos outros desbravadores precisa continuar com responsabilidade e vis\u00e3o de futuro. Afinal, como bem lembrou um produtor pioneiro da regi\u00e3o, Luiz Vicente Ghesth, em sess\u00e3o solene na C\u00e2mara Legislativa do Distrito Federal em homenagem aos 50 anos da Embrapa Cerrados: &#8220;N\u00e3o existe maior ato preservacionista no mundo como a possibilidade de produzir tr\u00eas safras em uma mesma \u00e1rea, sem precisar abrir novas fronteiras&#8221;. Este \u00e9 o desafio: aumentar a produ\u00e7\u00e3o, sim, mas com respeito aos recursos naturais do bioma.<\/p>\n<p>A agricultura tropical que hoje orgulha o mundo foi constru\u00edda tamb\u00e9m por n\u00f3s, com ci\u00eancia, suor e sonho. A Embrapa Cerrados, ao completar 50 anos, carrega em sua hist\u00f3ria a honra de ter participado da transforma\u00e7\u00e3o de uma das regi\u00f5es mais desafiadoras do Brasil em um polo global de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, fibras e energia. E carrega tamb\u00e9m a responsabilidade \u2014 e a oportunidade \u2014 de liderar os pr\u00f3ximos passos: preservar, regenerar, integrar conhecimentos, promover uma agropecu\u00e1ria que respeite o solo, a \u00e1gua, o clima e o ser humano.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Sebasti\u00e3o Pedro \u00e9 diretor da Embrapa Cerrados<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 meio s\u00e9culo, o Cerrado era visto por muitos como uma terra de impossibilidades, quase um deserto de terras vermelhas, de solos pobres, vegeta\u00e7\u00e3o retorcida e longos per\u00edodos sem chuva. Um bioma que parecia desafiar a ideia tradicional de produtividade. Mas tamb\u00e9m era \u2013 e ainda \u00e9 \u2013 o bioma do inesperado. 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