{"id":358135,"date":"2025-07-15T00:45:51","date_gmt":"2025-07-15T03:45:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358135"},"modified":"2025-07-14T20:36:09","modified_gmt":"2025-07-14T23:36:09","slug":"o-pintor-que-gostava-de-brincar-com-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-pintor-que-gostava-de-brincar-com-palavras\/","title":{"rendered":"O pintor que gostava de brincar com palavras"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEra antes de tudo um homem que no fundo s\u00f3 verdadeiramente amava a certas imagens e (como uma miniatura no fundo de um cofre) o prazer de as compor e de pintar com palavras.\u201d<\/p>\n<p>Marcel Proust, \u00c0 sombra das raparigas em flor, livro 2 de Em busca do tempo perdido.<\/p>\n<p>Rodrigo leu essa passagem de Proust e se identificou a ela. Afinal, era escritor, e sempre gostara do que chamava \u201cbrincar com palavras\u201d. Chegara mesmo a parafrasear o in\u00edcio do poema O lutador, de um de seus gurus liter\u00e1rios, Drummond, que ensina: \u201cLutar com palavras \u00e9 a luta mais v\u00e3. Enquanto lutamos, mal rompe a manh\u00e3\u201d. Por sua vez, a produ\u00e7\u00e3o intertextual de Rodrigo foi: \u201cBrincar com palavras \u00e9 coisa lou\u00e7\u00e3. Brincando, brincando, irrompe a manh\u00e3\u201d. Postou a quadrinha em suas redes sociais \u2013 e depois teve um trabalho dos diabos para explicar urbi et orbi que uma coisa lou\u00e7\u00e3 significa algo belo, cheio de frescor e brilho.<\/p>\n<p>O trecho de Proust o fez redefinir sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. Brincar sugeria algo espont\u00e2neo, de que todos s\u00e3o capazes; j\u00e1 o termo pintar sugeria um esfor\u00e7o pr\u00e9vio da imagina\u00e7\u00e3o e um m\u00ednimo de concentra\u00e7\u00e3o e talento do artista, mesmo que amador. Com isso, passou a pensar em si mesmo como um pintor com palavras.<\/p>\n<p>Pena que Rodrigo n\u00e3o se deteve na continuidade do texto proustiano: se o amante de imagens \u201ctivesse de defender-se perante um tribunal, ele involuntariamente escolheria as palavras n\u00e3o em vista do efeito que pudessem provocar no juiz, mas em vista de imagens que o juiz por certo n\u00e3o perceberia\u201d. Ou seja, pintar com palavras pode ser a pr\u00f3pria vida de um escritor, um modo de viver \u2013 e, como ensinou outro de seus gurus, Guimar\u00e3es Rosa, viver \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n<p>Para bem e para mal, Rodrigo teve a comprova\u00e7\u00e3o disso noites depois, quando estava em uma recep\u00e7\u00e3o informal na casa de um amigo. De repente, viu uma mulher linda, deslumbrante. Enfeiti\u00e7ado, aproximou-se, montou o cavalete imagin\u00e1rio, pegou sua paleta imagin\u00e1ria e come\u00e7ou a pintar. Reconhecia que era muita areia pro seu caminh\u00e3ozinho, mulher demais para ele, que era baixinho e feio pra ded\u00e9u; sentia-se, por\u00e9m, uma vers\u00e3o atual do poeta franc\u00eas Cyrano de Bergerac, cujo enorme nariz n\u00e3o o impedia de criar versos magn\u00edficos. Decidiu-se, iria seduzi-la com palavras.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, a senhorita nasceu em Chipre?<\/p>\n<p>&#8211; Chipre? Nem sei onde fica \u2013 e riu com uma voz deliciosa. \u2013 Sou paulista, nasci na cidade de Tatuir.<\/p>\n<p>Tadinha da diva! Sotaque caipira na \u00faltima, tacou um r no final de Tatu\u00ed. Rodrigo n\u00e3o deu a m\u00ednima. Com aquele rosto angelical, aquele corpo escultural, ela podia ser fanha que ele se lan\u00e7aria a seus p\u00e9s, em adora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Segundo alguns mitos gregos, a deusa Afrodite nasceu da espuma do mar, na ilha de Chipre. A senhorita parece-me a encarna\u00e7\u00e3o mesma da divindade do Amor e da Beleza (Afrodite era tamb\u00e9m a padroeira da sexualidade, mas isso o pintor com palavras preferiu omitir, reservando-o para um momento mais \u00edntimo).<\/p>\n<p>A jovem sorriu, deliciada.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 muito gentil. E usa palavras t\u00e3o bonitas! T\u00e3o diferente dos carinhas que conhe\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Ele foi em frente, criando delicadas pinturas, poemas em prosa erigidos pela conjun\u00e7\u00e3o de beleza (a dela) e talento (o dele). A jovem j\u00e1 estava quase entregue, inclinando-se em sua dire\u00e7\u00e3o, os olhos semicerrados e os l\u00e1bios semiabertos, quase soaram palavras amea\u00e7adoras:<\/p>\n<p>&#8211; Bete, o que significa isso? Quem \u00e9 esse tampinha?<\/p>\n<p>Quem falava era um arm\u00e1rio, um sujeito enorme e musculoso, que o olhava com hostilidade. Rodrigo tremeu nas bases mas conseguiu responder, quase de bate-pronto.<\/p>\n<p>&#8211; Tampinha de frasco dos melhores rem\u00e9dios e dos piores venenos, depende da dosagem e do manipulador \u2013 e prosseguiu r\u00e1pido, para que o tema inc\u00f4modo de sua baixa altitude n\u00e3o voltasse \u00e0 baila:<\/p>\n<p>&#8211; Tem tido not\u00edcias de Dan Fossey? \u2013 e, diante da express\u00e3o at\u00f4nita do macho-alfa, prosseguiu, com uma ironia cyranesca. \u2013 Creio que ela o conheceu na regi\u00e3o serrana, n\u00e3o sei se do Rio de Janeiro, mas com certeza em uma serra.<\/p>\n<p>Era uma maneira ir\u00f4nica de chamar de gorila o rival avantajado. Dan Fossey, assassinada a mando de ca\u00e7adores ilegais morta em 1985, foi a naturalista que escreveu acerca de seu contato com os gorilas-das-montanhas no Congo e em Ruanda no livro Nas montanhas dos gorilas.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a do juiz mencionado por Proust, o goril\u00e3o n\u00e3o entendeu pissirongas, n\u00e3o conhecia nem sequer o filme do mesmo nome, em que Sigourney Weaver interpreta a naturalista. Rodrigo prosseguiu, imp\u00e1vido, ainda mais brilhante pela adrenalina do perigo pr\u00f3ximo, como um toureiro que faz uma enorme besta cada vez mais exausta mover-se a seu redor, antes de desferir a estocada final.<\/p>\n<p>Antes que esta viesse, por\u00e9m, a mo\u00e7oila jogou tudo no ventilador:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 um grosso, um imbecil! \u2013 exclamou para o arm\u00e1rio-gorila. \u2013 Nem consegue responder ao meu poeta, entender o que ele diz. N\u00e3o sou mais sua namorada, vou ficar com ele!<\/p>\n<p>&#8211; Ah \u00e9? \u2013 e mandou uma porrada. Foi o bastante.<\/p>\n<p>Bra\u00e7os de poeta ou de pintor com palavras n\u00e3o amortecem bem socos, e Rodrigo nem tentou ergu\u00ea-los. Desabou, atingido por um gancho no queixo. Quando acordou, uns 15 minutos depois, o macho-alfa tinha fugido, temoroso de t\u00ea-lo ferido gravemente ou coisa pior, e Bete acariciava seu rosto.<\/p>\n<p>A semana seguinte foi a mais plena da vida de Rodrigo. A corporifica\u00e7\u00e3o de Afrodite ficou a seu lado, cuidando dele, sol\u00edcita, e dormindo em seus bra\u00e7os. S\u00f3 que palavras podem seduzir, por\u00e9m n\u00e3o manter uma rela\u00e7\u00e3o, a qu\u00edmica dos dois na cama era uma pobreza, e sete dias depois ela veio com aquele papinho bem conhecido de \u201cn\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, sou eu\u201d.<\/p>\n<p>Rodrigo n\u00e3o ligou muito, conhecia seus limites. Mas passou a conhecer igualmente seus poderes de sedu\u00e7\u00e3o. Cyrano redivivo, seguiu pela estrada da vida de mulher em mulher, a paleta a tiracolo, o pincel sempre pronto para o que der e vier e, principalmente, para quem vier e der.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEra antes de tudo um homem que no fundo s\u00f3 verdadeiramente amava a certas imagens e (como uma miniatura no fundo de um cofre) o prazer de as compor e de pintar com palavras.\u201d Marcel Proust, \u00c0 sombra das raparigas em flor, livro 2 de Em busca do tempo perdido. 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