{"id":358224,"date":"2025-07-16T00:39:37","date_gmt":"2025-07-16T03:39:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358224"},"modified":"2025-07-15T14:01:34","modified_gmt":"2025-07-15T17:01:34","slug":"homem-imaginou-que-estava-com-sorte-diante-de-mulher-exuberante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/homem-imaginou-que-estava-com-sorte-diante-de-mulher-exuberante\/","title":{"rendered":"Homem imaginou que estava com sorte diante de mulher exuberante"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPor exemplo, no dia em que a senhora foi jantar com a sra. de Saint-Euverte, antes de ir \u00e0 casa da princesa de Guermantes, seu vestido<br \/>\nera todo vermelho, os sapatos vermelhos, a senhora estava fabulosa, lembrava uma grande flor de sangue, um rubi em chamas [&#8230;]\u201d.<br \/>\nMarcel Proust, A prisioneira, livro 5 de Em busca do tempo perdido.<\/p>\n<p>O romancista dirige essas palavras \u00e0 duquesa de Guermantes, prima da princesa. Em seguida, na trama, h\u00e1 um duplo espanto: o da duquesa, por ele, t\u00e3o jovem ainda, se lembrar daquela toilette de cetim vermelho; e do autor, por ela recordar apenas do vestido \u2013 e isso depois de ter a mem\u00f3ria estimulada por ele \u2013, \u201ce tivesse esquecido certa coisa que todavia, como se vai ver, devia ter para ela grande import\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Qual era essa coisa? Voc\u00eas ter\u00e3o de ler o romance para descobrir, escrevo contos, n\u00e3o spoilers ou uma resenha de \u2018Em busca do tempo<br \/>\nperdido\u2019. E mais, pe\u00e7o permiss\u00e3o para conduzi-los a um universo paralelo, em que a duquesa e Marcel continuam a ser os protagonistas \u2013<br \/>\nmas o desenrolar da trama e, em especial, o desfecho s\u00e3o bem diferentes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8230;..<\/p>\n<p>Depois que o jovem lhe dirigiu tais palavras, a duquesa olhou para ele e sorriu, sem acreditar no que ouvia, achando-o meio louco, mas, no fundo, lisonjeada. \u00c9 sempre delicioso ouvir elogios, em especial vindos de um jovem literato em ascens\u00e3o, com artigos publicados nos jornais parisienses.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca imaginei que pudesse lembrar um rubi em chamas ou uma flor de sangue \u2013 disse-lhe com ar carinhoso. Em seguida, passando sedutoramente a l\u00edngua nos l\u00e1bios, murmurou:<\/p>\n<p>\u2013 Fique depois que os demais convidados se retirem, ter\u00e1 uma surpresa muito agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; E&#8230;e o du-duque? \u2013 balbuciou o jovem.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 ca\u00e7ando. E se voltar esta noite, vai direto para a casa de uma de suas amantes \u2013 respondeu a duquesa, a voz sempre baixa. E prometeu-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o te preocupes, hoje a noite \u00e9 nossa!<\/p>\n<p>O jovem mal conseguiu acreditar na sua boa sorte. Fazia tempo que amava platonicamente a duquesa de Guermantes. Hoje, por\u00e9m, tudo indicava que os seus sonhos mais delirantes iriam se concretizar.<\/p>\n<p>Depois que todos os convivas se retiraram, a duquesa dispensou as criadas de quarto e conduziu Marcel \u00e0 antessala de seus aposentos. Vinte minutos depois, pediu-lhe que entrasse. Estava no meio do quarto, quase nua, apenas com um robe, os lindos seios vis\u00edveis por entre as dobras do tecido macio. E na cama, \u00e0 espera, estava o vestido de cetim vermelho.<\/p>\n<p>A mulher deixou cair o robe e dirigiu-se \u00e0 cama. Nem tentou vestir-se com a toilette de grande soir\u00e9e, de baile de gala, jamais conseguiria<br \/>\nfaz\u00ea-lo sem a ajuda de suas servi\u00e7ais. Deitou-se sobre o tecido vermelho, nua, os seios e as longas pernas expostos, o ventre pulsando,<br \/>\ne murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Vem, meu bichinho.<\/p>\n<p>O literato lan\u00e7ou-se em seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7ou a beij\u00e1-lo, de in\u00edcio carinhosamente, depois com sofreguid\u00e3o, e falou.<\/p>\n<p>-Somente um homem com tua sensibilidade conseguiria perceber minha dimens\u00e3o rubi e minha dimens\u00e3o flor. De fato, s\u00e3o os aspectos mineral e vegetal da minha ess\u00eancia \u2013 explicou, enquanto o despia. \u2013 Mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o animal, que vais conhecer agora.<\/p>\n<p>Guiou-o na penetra\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, come\u00e7ou a transformar-se em uma aranha de um negro reluzente, em cujo abdome se destacava uma \u00e1rea de um vermelho intenso, em forma de ampulheta.<\/p>\n<p>A duquesa-aranha mirou-o com seus oito olhos e falou, numa voz ainda humana:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, pensei em poupar-te, em te mostrar apenas o vestido, para que prossigas em tua obra liter\u00e1ria. Mas n\u00f3s, vi\u00favas-negras&#8230;<\/p>\n<p>Deu um risinho e apressou os movimentos dos quadris, fazendo seu parceiro quase morrer de prazer. A morte real, por\u00e9m, veio ap\u00f3s o<br \/>\norgasmo, pois as aranhas vi\u00favas-negras s\u00e3o chamadas assim porque devoram o macho ap\u00f3s a c\u00f3pula.<\/p>\n<p>Marcel morreu feliz, sem dar a m\u00ednima para o fato de, nesse universo paralelo, seu monumental romance jamais ter sido escrito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPor exemplo, no dia em que a senhora foi jantar com a sra. de Saint-Euverte, antes de ir \u00e0 casa da princesa de Guermantes, seu vestido era todo vermelho, os sapatos vermelhos, a senhora estava fabulosa, lembrava uma grande flor de sangue, um rubi em chamas [&#8230;]\u201d. 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