{"id":358372,"date":"2025-07-17T02:00:16","date_gmt":"2025-07-17T05:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358372"},"modified":"2025-07-16T23:42:49","modified_gmt":"2025-07-17T02:42:49","slug":"jorge-frederico-nome-de-requintado-nao-era-flor-que-se-cheire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jorge-frederico-nome-de-requintado-nao-era-flor-que-se-cheire\/","title":{"rendered":"Jorge Frederico, nome de requintado, n\u00e3o era flor que se cheire"},"content":{"rendered":"<p>Jorge Frederico, um nome a ser respeitado. Ou n\u00e3o. Vai depender de quem o carrega ou, ent\u00e3o, de quem sabe seus podres. Sobre os ing\u00eanuos, que lhes caiam as consequ\u00eancias da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Nascido na g\u00e9lida S\u00e3o Jos\u00e9 dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, o sujeito se mudou para Bras\u00edlia no natal de 1986, com o intuito de arrumar posi\u00e7\u00e3o junto a algum pol\u00edtico, al\u00e9m de fugir das nevascas. Por sorte ou destino, conseguiu emprego logo em abril de 1987, por conta da recente posse de um deputado federal. E, n\u00e3o tardou, ganhou fama devido principalmente \u00e0s animadas festas patrocinadas por lobistas, que, desde que o Brasil \u00e9 Brasil, perambulam pela capital.<\/p>\n<p>Apesar de ga\u00facho, Jorge Frederico sabia que o ritmo que contagiava os enviados dos bilion\u00e1rios era o samba. Ent\u00e3o, nada de boleros quando o assunto era convencer os parlamentares a votar em algo que iria beneficiar os verdadeiros patr\u00f5es, mesmo que a popula\u00e7\u00e3o tivesse que engolir goela abaixo o azedume das can\u00e7\u00f5es de fossa da saudosa Maysa. Como os que est\u00e3o por cima da carne seca gostam de dizer de modo ir\u00f4nico: <em>C&#8217;est la vie<\/em>!<\/p>\n<p>Com o aval de quem tem prerrogativa de mandar, Jorge Frederico logo percebeu que poderia ocupar outro nicho, que andava desfalcado por causa das pris\u00f5es ocorridas em virtude do assassinato de famoso radialista na Asa Sul. N\u00e3o que o ga\u00facho tivesse coragem de matar uma barata, mas conhecia alguns cabras acostumados a puxar o gatilho.<\/p>\n<p>Entre festejos e encaminhamento antecipado de almas para o C\u00e9u ou o Inferno, Jorge Frederico se imaginou dono da cidade. Estava longe disso, \u00e9 verdade, mas andava lado a lado com os que realmente mandavam. Era tido como mal necess\u00e1rio, pois, capcioso que era, sabia como ningu\u00e9m ser malvado quando fosse preciso, ainda mais porque n\u00e3o rejeitava servi\u00e7o, por mais espinhoso que fosse.<\/p>\n<p>Trabalho n\u00e3o faltava para o gajo, que logo ficou com a burra cheia de grana. Tanto assim que passou a morar em uma bela mans\u00e3o em um dos pontos mais invejados da capital: o Lago Sul. Isso mesmo! O Lago Sul, que \u00e9 considerado a Su\u00ed\u00e7a do Cerrado, repleta de casas dignas de filmes de Hollywood. E Jorge Frederico n\u00e3o fazia quest\u00e3o de esconder seu estilo de vida, pois adorava desfilar com seus carr\u00f5es importados pelas largas ruas da capital.<\/p>\n<p>Rico, famoso e respeitado por quem realmente importava, o sujeito parecia algu\u00e9m acima da lei, e era mesmo. Amigo de deputados, senadores, ju\u00edzes, promotores, delegados e at\u00e9 do governador, tinha tr\u00e2nsito livre em qualquer lugar. Mas eis que, talvez por um momento de descuido, distra\u00e7\u00e3o ou displic\u00eancia, cruzou o olhar com o de Arlete.<\/p>\n<p>A mulher, que era bonita, mesmo sem ser esplendorosa, possu\u00eda l\u00e1 seus atrativos. E foi o suficiente para que Jorge Frederico fosse fisgado e perdesse totalmente o ju\u00edzo. Por sorte, foi correspondido e, ent\u00e3o, o casal passou a ser visto na alta-roda. O \u00fanico entrave \u00e9 que ela j\u00e1 era comprometida.<\/p>\n<p>Argemiro. Pois era esse o nome do noivo da agora namorada do Jorge Frederico. Um tipo t\u00e3o comum, que era capaz da pr\u00f3pria m\u00e3e confundi-lo com tantos outros iguais a ele no meio da multid\u00e3o que buscava sobreviver no Distrito Federal.<\/p>\n<p>A\u00e7ougueiro. Sim, o tra\u00eddo era a\u00e7ougueiro e sabia como ningu\u00e9m manusear uma faca. E, desde que soube do caso entre Arlete e o figur\u00e3o, fez quest\u00e3o de deixar a l\u00e2mina amolada. Sem contar que ensaiou os golpes em frente ao pequeno espelho do banheiro do seu trabalho.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o era abrir o bucho do amante da sua noiva. E foi com tal pensamento que Argemiro se esgueirou atr\u00e1s de um carro estacionado pr\u00f3ximo a um concorrido restaurante na Asa Norte. onde os pombinhos jantavam. Era quest\u00e3o de tempo para Argemiro, finalmente, colocar seu plano em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Dizem que p\u00e3o de pobre sempre cai com a manteiga para baixo. Pois \u00e9, Argemiro parecia n\u00e3o estar com sorte naquela noite. E n\u00e3o \u00e9 que, justamente no momento em que a amada degustava um requintado <em>petit gateau<\/em>, surgiu uma viatura da pol\u00edcia e abordou o aprendiz de assassino?<\/p>\n<p>O a\u00e7ougueiro foi levado para a delegacia e autuado por porte de arma branca. No entanto, nada al\u00e9m de contraven\u00e7\u00e3o e, por isso mesmo, foi liberado ap\u00f3s o registro da ocorr\u00eancia. Seja como for, Argemiro, sem o objeto que lhe proporcionaria entrar no rol dos justiceiros da pr\u00f3pria honra, precisou adiar seu intento para outra oportunidade e, ent\u00e3o, pegou um \u00f4nibus e foi para casa, j\u00e1 que, na manh\u00e3 seguinte, precisaria ir trabalhar.<\/p>\n<p>Enquanto fatiava alguns bifes para dona Esther, uma simp\u00e1tica freguesa, Argemiro viu sua noiva entrar no a\u00e7ougue. Ele percebeu que Arlete parecia ter chorado um rio de l\u00e1grimas e, quando se viu livre da cliente, foi tentar descobrir o porqu\u00ea daquilo.<\/p>\n<p>\u2014 O que houve? Por que voc\u00ea t\u00e1 assim?<\/p>\n<p>Arlete entregou o jornal que carregava para o noivo. A manchete dizia que Jorge Frederico Mancini havia levado quatro tiros \u00e0 queima-roupa ap\u00f3s ter jantado em um restaurante na Asa Norte. Pobre ga\u00facho, n\u00e3o resistiu e foi a \u00f3bito no local.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe exatamente o que aconteceu naquele instante, mas Argemiro, talvez tomado de sentimento nobre, abra\u00e7ou, de forma terna, a ad\u00faltera. Dizem que o cas\u00f3rio aconteceu no m\u00eas seguinte, e que os dois ainda podem ser vistos andando de m\u00e3os dadas pela Ceil\u00e2ndia.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro 57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong>\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/16.0.1\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Frederico, um nome a ser respeitado. Ou n\u00e3o. Vai depender de quem o carrega ou, ent\u00e3o, de quem sabe seus podres. 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