{"id":358405,"date":"2025-07-21T04:00:19","date_gmt":"2025-07-21T07:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358405"},"modified":"2025-07-16T12:22:14","modified_gmt":"2025-07-16T15:22:14","slug":"a-revelacao-surpreendente-despertou-o-viuvo-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-revelacao-surpreendente-despertou-o-viuvo-alegre\/","title":{"rendered":"A revela\u00e7\u00e3o surpreendente despertou o vi\u00favo alegre"},"content":{"rendered":"<p>Escrever contos e cr\u00f4nicas para os leitores de <strong>Notibras<\/strong> me faz prestar aten\u00e7\u00e3o em muitas conversas, guardar hist\u00f3rias e estimular relatos de meus interlocutores, em busca de ideias e inspira\u00e7\u00f5es. Ainda outro dia comentava com o meu amigo Eduardo Mart\u00ednez, escritor de <strong>Notibras<\/strong>, que adquirira, na minha mais recente passagem pela cidade mineira de Juiz de Fora, um livro com todos (ou quase todos) os contos publicados pelo grande Nelson Rodrigues, que como poucos escritores soube captar t\u00e3o bem a vida e o drama dos cariocas.<\/p>\n<p>Grande fonte de inspira\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida. E, por coincid\u00eancia, pouco tempo depois, quando conversava com dois colegas de trabalho, fiquei sabendo dessa hist\u00f3ria quase real, na qual reconheci fortes tra\u00e7os de um conto rodrigueano, ocorrida na fam\u00edlia de um deles, no Rio de Janeiro dos anos de 1960, que passo a relatar agora, sob autoriza\u00e7\u00e3o de quem me contou, mas com nomes fict\u00edcios, com a plena certeza de que a vida imita a arte.<\/p>\n<p>Deocl\u00e9cio e Arminda conheceram-se ainda na adolesc\u00eancia e cresceram na mesma rua. Ele, gal\u00e3, com fama de inconstante e conquistador. N\u00e3o se apaixonava por mais do que quatro ou seis semanas e, depois, procurava outro amor. Arminda, desde que entendera o que era amor, quisera Deocl\u00e9cio para sempre. As fam\u00edlias de ambos eram muito amigas e, estando os jovens para entrar na vida adulta, comentaram seus pais entre si que dariam um bom casamento.<\/p>\n<p>Para Arminda, foi uma ideia de ouro. Para Deocl\u00e9cio, houve preocupa\u00e7\u00e3o inicial. N\u00e3o se imaginava casado, nem preso para sempre a uma mulher s\u00f3, mas a segunda parte do plano interessou-lhe: seria gerente na empresa de \u00f4nibus comandada pelo futuro sogro, sal\u00e1rio garantido. Ganhariam ainda uma boa casa j\u00e1 no in\u00edcio da vida a dois, o que geraria a economia de uns bons contos. Assim, o rapaz embarcou na ideia sem maiores dificuldades.<\/p>\n<p>Deocl\u00e9cio n\u00e3o via grande gra\u00e7a em Arminda, embora n\u00e3o a achasse feia. No geral, era uma boa alma e nada tinha contra ela. S\u00f3 teria de se acostumar \u00e0 ideia de ter uma mulher apenas, que o acompanharia at\u00e9 que a morte os separasse. Mas, casados, n\u00e3o tardou que sua natureza se manifestasse plena, irrefre\u00e1vel. E, por conta de suas conquistas, passava invariavelmente duas ou tr\u00eas noites fora do lar, sabe-se l\u00e1 onde.<\/p>\n<p>Arminda sofreu, em princ\u00edpio, com aquelas aus\u00eancias arrematadas pelo retorno do maridinho com mancha de batom na camisa e cheiro de perfume barato. Protestava dramaticamente mas, depois, conformou-se com a natureza errante do marido, do qual j\u00e1 conhecia a fama desde o final da adolesc\u00eancia, prevenida que fora por sua madrinha, dona Concei\u00e7\u00e3o, uma s\u00e1bia mulher:<\/p>\n<p>\u2013 Homem n\u00e3o muda n\u00e3o, minha filha. S\u00f3 aprimora os defeitos com o tempo. Depois voc\u00ea n\u00e3o reclama.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, um dia, reencontrou Carlos. Parente distante, nem se sabia direito em que grau, viera do interior para a capital por conta do trabalho e, num anivers\u00e1rio qualquer em fam\u00edlia, Arminda ficou olhando para o mo\u00e7o, lembrando-se que, um dia passara por sua cabe\u00e7a que poderiam formar um casal, ideia inocente, logo esquecida, que n\u00e3o gerara maiores consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas Carlos era s\u00f3 sorriso e aten\u00e7\u00e3o para Arminda. Ficara solteiro, dedicado completamente \u00e0 carreira militar. Os charmes do parente despertaram um n\u00e3o sei o qu\u00ea em Arminda e, em poucos dias, ela esquecera dos votos matrimoniais e do temor que tinha em desagradar Deocl\u00e9cio. Tornaram-se amantes, que passavam t\u00f3rridas tardes enquanto Deocl\u00e9cio suava a camisa na empresa do sogro para, \u00e0 noite, suj\u00e1-la no batom das amantes.<\/p>\n<p>Mas, se Deocl\u00e9cio era um canalha e n\u00e3o se importava com a discri\u00e7\u00e3o em suas rela\u00e7\u00f5es extraconjugais, Arminda era uma dama acima de qualquer suspeita. Nunca dera raz\u00e3o para quaisquer desconfian\u00e7as por parte do esposo, tampouco dos outros familiares. Somente dona Concei\u00e7\u00e3o, que tudo percebia, alertava a mo\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 Veja l\u00e1, minha filha. Retribuindo o chifre? Qual\u2026 Um dia um dos dois sair\u00e1 magoado.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o me importo, dinda \u2013 respondia Arminda. Ele \u00e9 um descarado. Apesar disso, n\u00e3o o quero mal. Mas eu pago, pago sim, na mesma moeda. Cada centavo\u2026<\/p>\n<p>Dois ou tr\u00eas anos se passaram e Deocl\u00e9cio n\u00e3o desconfiava da esposa. Mas continuava a ter seus casos.<\/p>\n<p>Um dia, sem que ningu\u00e9m esperasse, uma ave agourenta pousou na janela do casal. Dona Concei\u00e7\u00e3o, de visita, enquanto sorvia um gole de ch\u00e1 teve um arrepio, um tremelique, deixou a x\u00edcara de porcelana cair no ch\u00e3o encerado, fazendo um ru\u00eddo de cacos estra\u00e7alhados. O ch\u00e1, caindo, manchou-lhe o vestido.<\/p>\n<p>\u2013 Minha filha, muda esse teu proceder. A paga do pecado \u00e9 a morte.<\/p>\n<p>A afilhada deu de ombros. Mas, ao cabo de poucas semanas, Arminda encontrava-se sentada \u00e0 mesinha de costura quando, sem um ai, estacou de repente e fechou os olhos lindos, exalando um \u00faltimo suspiro. Foi uma como\u00e7\u00e3o. A empregada saiu a gritar pela rua, chamando socorro, acudam, mas n\u00e3o deu tempo de nada. Estava morta a mulher, antes dos trinta anos, de um derrame repentino.<\/p>\n<p>Quem pensaria que Deocl\u00e9cio se abalou? Virou foi um viuv\u00e3o escancarado, cheio de dentes para as mo\u00e7oilas que passou a trocar com uma voracidade impressionante. \u00c0s esc\u00e2ncaras, levava as conquistas para a sua casa e, n\u00e3o raro, escandalizava o bairro saindo a passear com elas para os sambas das redondezas. Agora n\u00e3o precisava mais esconder-se da esposa, dos sogros, dos parentes. Sempre dentro de um alinhado terno claro, jamais enlutara-se.<\/p>\n<p>Sem riscos, sua vida resumia-se entre conquistas amorosas e o trabalho na empresa do pai da falecida, onde continuava com afinco, ganhando confian\u00e7a e poder.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, um dia, desolado por uma de suas namoradinhas haver lhe trocado por um noivo certo, desola\u00e7\u00e3o que duraria poucas horas, resolveu descansar um pouco e ir esvaziar umas garrafas num dos botequins das redondezas.<\/p>\n<p>L\u00e1, numa mesa, magro, abatido, barba por fazer, camisa amarrotada, estava Carlos, o primo distante e amante da morta. Deocl\u00e9cio, que jamais desconfiara do relacionamento entre os dois, mal reconheceu o militar, tamanho o desalinho dos trajes e o sofrimento da fisionomia. Acercou-se dele, que estava sozinho numa mesa com uma d\u00fazia de garrafas de cerveja vazias em cima. Sorvera todas. Puxou assunto:<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9, amizade, n\u00e3o cumprimenta mais os parentes?<\/p>\n<p>Deocl\u00e9cio ficou sem rea\u00e7\u00e3o com a atitude daquele esqu\u00e1lido homem. Num gesto r\u00e1pido, levantou-se e la\u00e7ou os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o do bilontra como num abra\u00e7o de afogado. E solu\u00e7ava a ponto dos circundantes ficarem tocados com a pat\u00e9tica cena, entremeada de s\u00faplica:<\/p>\n<p>\u2013 Perdoa-me, Deocl\u00e9cio, perdoa-me. Ela era tua, mas quem a amava era eu\u2026 Era eu\u2026<\/p>\n<p>E, num pranto louco, Carlos foi deslizando pelo tronco de Deocl\u00e9cio at\u00e9 cair em frente a ele de joelhos, com ar constrito e desesperado.<\/p>\n<p>Bastaram dez minutos de conversa entre os dois, ap\u00f3s o interlocutor do vi\u00favo se recompor um pouco, para Deocl\u00e9cio entender tudo. Afinal, fora tra\u00eddo. Tra\u00eddo pela mulher que ele tra\u00eda.<\/p>\n<p>Pois o vi\u00favo, em vez de rir-se com a descoberta e vencer qualquer sombra remota de remorso, teve um comportamento exatamente oposto. Arrependeu-se de seus deslizes e sentiu haver entre ele e a esposa extinta uma liga\u00e7\u00e3o inquebrant\u00e1vel, uma compreens\u00e3o m\u00fatua que tomou conta de todo o seu ser.<\/p>\n<p>Jamais arrependeu-se de seu comportamento infiel, mas, dali em diante, assumiu o papel de vi\u00favo triste, inconsol\u00e1vel. Vestiu um luto pesado, demitiu-se do emprego, recusou qualquer contato com as amantes que chegavam a bater em sua porta aos pares, aos trios, e passou seus \u00faltimos dias de vida em casa, trancado, sem falar com ningu\u00e9m, agarrado a um porta-retratos com a fotografia de Arminda, ricamente vestida e enchapelada, tirada no dia em que os dois sa\u00edram em viagem de n\u00fapcias.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrever contos e cr\u00f4nicas para os leitores de Notibras me faz prestar aten\u00e7\u00e3o em muitas conversas, guardar hist\u00f3rias e estimular relatos de meus interlocutores, em busca de ideias e inspira\u00e7\u00f5es. 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