{"id":358408,"date":"2025-07-25T02:47:13","date_gmt":"2025-07-25T05:47:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358408"},"modified":"2025-07-25T02:50:47","modified_gmt":"2025-07-25T05:50:47","slug":"o-nobre-do-pe-sujo-uma-elegia-do-ridiculo-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-nobre-do-pe-sujo-uma-elegia-do-ridiculo-social\/","title":{"rendered":"O nobre do p\u00e9-sujo: uma elegia do rid\u00edculo social"},"content":{"rendered":"<p>Na esquina do Boulevard 28 de Setembro com Rua Visconde de Abaet\u00e9, no cora\u00e7\u00e3o de Vila Isabel, um dos bairros mais simp\u00e1ticos do Rio de Janeiro, ocorreu essa hist\u00f3ria. Ali era o endere\u00e7o do Bar do Expedito. Saudoso Expedito, portugu\u00eas de P\u00f3voa do Varzim, aposentou-se e foi morar com a esposa no Esp\u00edrito Santo. Ouvi o relato do pr\u00f3prio Expedito e do Z\u00e9 Amaro, morador das redondezas que sempre batia ponto no local.<\/p>\n<p>Foi pr\u00f3ximo de uma semana santa que apareceu ali aquela figura. Terno cinza-claro impec\u00e1vel, chap\u00e9u de feltro, os sapatos mais brilhosos que algu\u00e9m j\u00e1 tinha visto. Trajava com apuro e eleg\u00e2ncia. Os punhos da alv\u00edssima camisa eram guarnecidos com abotoaduras douradas, com pedra vermelha em cada uma, id\u00eantica \u00e0 ostentada em portentoso anel.<\/p>\n<p>A estampa, anacr\u00f4nica e curiosa, parecia totalmente deslocada do ambiente descontra\u00eddo daquele bar da Zona Norte. Era mais compat\u00edvel com um ch\u00e1 na Colombo, ap\u00f3s uma incurs\u00e3o no Real Gabinete Portugu\u00eas de Leitura, ou ent\u00e3o para um convescote na Academia Brasileira de Letras. Mas foi ali mesmo, no Bar do Expedito, que ele entrou.<\/p>\n<p>Bengala com cast\u00e3o em forma de cabe\u00e7a de cavalo, o cigarro levado numa piteira. Quem visse, esperaria que ele tirasse um pince-nez do bolso externo do palet\u00f3 e um rel\u00f3gio do bolsinho do colete. E foi exatamente isto que ele fez ao se sentar numa das mesas vagas, uma pequena, de dois lugares, mais afastada da porta do bar que dava para a rua. Ali tirou de um dos bolsos um pequeno livrinho que passou a ler. Nessa leitura concentrou-se, no m\u00ednimo, quarenta minutos, at\u00e9 tirar os olhos do objeto.<\/p>\n<p>Expedito estava no balc\u00e3o, o gar\u00e7om Gomes estava encostado numa das portas, absorto com as cenas da rua, e Z\u00e9 Amaro ainda n\u00e3o tinha aparecido ali neste dia.<\/p>\n<p>O ex\u00f3tico fregu\u00eas, algo entre c\u00f4mico e vetusto, levantou o dedo olhando em dire\u00e7\u00e3o ao Expedito e dali mesmo chamou, em voz grave e aveludada:<\/p>\n<p>\u201cSenhor comerciante, tende a bondade de atender-me, por obs\u00e9quio.\u201d<\/p>\n<p>Expedito, sem maiores mesuras, disse apenas um \u201cj\u00e1 vai\u201d, e esperou que Gomes se voltasse para o novo fregu\u00eas. Como o gar\u00e7om n\u00e3o se virasse, Expedito lan\u00e7ou na dire\u00e7\u00e3o dele um pano de prato, chamando sua aten\u00e7\u00e3o. Gomes se reconectou ao mundo real e, olhando confuso para os lados, rapidamente dirigiu-se \u00e0 mesa da curiosa figura perguntando:<\/p>\n<p>\u201cO que vai ser, patr\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>\u201cBoa tarde, cavalheiro&#8230;\u201d &#8211; enquanto o fregu\u00eas desenvolvia a frase, Gomes chegou a olhar para os lados para procurar o \u201ccavalheiro\u201d \u2013 \u201c&#8230; queira fazer a fineza de me trazer o card\u00e1pio.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO card\u00e1pio est\u00e1 ali, chefe\u201d \u2013 respondeu Gomes, apontando para uma lousa na parede onde, em giz e razo\u00e1vel caligrafia, estavam escritas as poucas op\u00e7\u00f5es do boteco.<\/p>\n<p>\u201cTrazei ent\u00e3o um ovo cozido, um p\u00e3o franc\u00eas e, para beber, gostaria de uma \u00e1gua mineral bem gelada, \u00e9 poss\u00edvel?\u201d<\/p>\n<p>Havia algo hil\u00e1rio na forma com que o fregu\u00eas se dirigia ao simp\u00e1tico Gomes. N\u00e3o que estivesse errado, mas \u00e9 que ele n\u00e3o estava acostumado com aquela educa\u00e7\u00e3o e tipo de tratamento. N\u00e3o tardou nem um minuto para que uma garrafa bem gelada de \u00e1gua mineral estivesse sendo aberta na mesa do homem, sorvida de um s\u00f3 gole ap\u00f3s Gomes despej\u00e1-la naquele copo americano t\u00edpico. Em seguida, chegaram o ovo cozido e o p\u00e3o, que Expedito dispusera numa pequena cestinha.<\/p>\n<p>Era not\u00e1vel a dignidade com que o in\u00e9dito fregu\u00eas picava o p\u00e3o, descascava aquela simples iguaria e levava-a \u00e0 boca, entremeando o antepasto com goles da \u00e1gua mineral. Ia comendo devagar, sempre mantendo os olhos curiosos no ambiente, fixados ora no movimento da rua, ora nos transeuntes que passavam, ora nos demais fregueses. Era como se experimentasse o mais nobre prato de um chef celebrado.<\/p>\n<p>Ao finalizar, fez um gesto que Gomes, desta vez, logo notou.<\/p>\n<p>\u201cInformai quanto devo eu, jovem rapaz\u201d \u2013 disse tirando de um bolso interno do palet\u00f3 uma carteira surrada, aparentemente de couro de jacar\u00e9.<\/p>\n<p>A conta havia dado 7 reais e 80 centavos. Ele deu a Gomes uma nota de dez e, ao receber de volta o troco, devolveu, altivo, 20 centavos ao gar\u00e7om, que, ironicamente, agradeceu a generosidade, ao que, s\u00e9rio e grave, o fregu\u00eas respondeu ao retirar-se:<\/p>\n<p>\u201cEu \u00e9 que devo agradecer a amabilidade do servi\u00e7o. At\u00e9 breve volta!\u201d<\/p>\n<p>Mal o homem virou as costas para desaparecer entre os demais an\u00f4nimos da rua, Expedito e Gomes se entreolharam e o patr\u00e3o disse, com sua voz lus\u00edada:<\/p>\n<p>\u201cPuxa&#8230; \u00c9 cada figura que aparece por aqui. Que tipo mais diferente. Quase uma hora pra me pedir \u00e1gua mineral, p\u00e3o e ovo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Os dias se sucederam e o distinto fregu\u00eas passou a frequentar o bar, sempre mais ou menos \u00e0 mesma hora, sentando-se na mesma mesa. Ora concentrado na leitura de um op\u00fasculo, doutras vezes lendo os jornais mais populares. Mas sempre repetia o ritual. Ap\u00f3s aproximadamente quarenta minutos, pedia sua \u00e1gua mineral, seu ovo cozido e um p\u00e3o franc\u00eas. Numa v\u00e9spera de feriado, em que haveria a transmiss\u00e3o de um jogo de futebol do Flamengo, o bar ficara mais cheio do que de costume e, l\u00e1 tendo chegado, o fregu\u00eas viu a mesa ocupada por um casal. Antes que Gomes ou Expedito fizessem qualquer movimento para oferecer-lhe outra mesa, ele se retirou, sem demonstrar qualquer contrariedade, e foi-se embora.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 me faltava essa, agora ficou ofendido porque acha ter mesa cativa?\u201d<\/p>\n<p>\u201cDeve ser mania dele, Seu Expedito. Ele \u00e9 diferente mesmo.\u201d<\/p>\n<p>Prosseguiu a rotina de visitas ao botequim o estranho homem, sempre naquele terno cinza-claro, o invari\u00e1vel chap\u00e9u e os modos impec\u00e1veis. Em princ\u00edpio, era uma curiosidade. Uma ave rara. Com o tempo, Expedito foi perdendo a paci\u00eancia com o visitante, que jamais variava o pedido. N\u00e3o tardou para a figura ser notada por outros frequentadores do botequim, que, por galhofa, e sabendo da implic\u00e2ncia de Expedito, passaram a cham\u00e1-lo de \u201cfregu\u00eas de ouro\u201d. Mas, pelo tempo em que ficava sentado e pelo pouco dinheiro que gastava, qualquer comerciante passaria a ficar incomodado. At\u00e9 Gomes, cujos demais fregueses tratavam com certa grosseria ou indiferen\u00e7a, n\u00e3o se compadecia da lhaneza de que era objeto e, ironicamente, agradecia os 20 centavos que sempre recebia de gorjeta, ao que, como a pronunciar uma m\u00e1xima moral de proverbial sabedoria, o fregu\u00eas redarguia:<\/p>\n<p>\u201cCada vint\u00e9m sabiamente poupado, meu rapaz, \u00e9 caminho seguramente pavimentado para a mais aut\u00eantica prosperidade.\u201d<\/p>\n<p>De vez em quando os outros fregueses do boteco faziam mesas de baralho, damas ou domin\u00f3. Um dia, Z\u00e9 Amaro ousou interromper a leitura do \u201cfregu\u00eas de ouro\u201d para lhe convidar:<\/p>\n<p>\u201cArrisca uma partida de sueca conosco, seu mo\u00e7o?\u201d<\/p>\n<p>De pince-nez e express\u00e3o imp\u00e1vida, o fregu\u00eas tirou seus olhos de um antigo livro de capa avermelhada para, esnobe, dizer a Z\u00e9 Amaro:<\/p>\n<p>\u201cDeclino da gentil oferta, meu patr\u00edcio. O jogo a dinheiro polui a alma do mais escorreito dos homens! Prefiro ficar alheio a tal divers\u00e3o. Estou absorvido por elevada literatura.\u201d<\/p>\n<p>Um dia, ao avist\u00e1-lo entrando no bar, Expedito j\u00e1 separava o ovo cozido e o p\u00e3o, quando Gomes voltou da pequena mesa com uma express\u00e3o diferente.<\/p>\n<p>\u201cHoje vai variar o card\u00e1pio, patr\u00e3o. O mo\u00e7o quer salame fatiado e uma cerveja.\u201d<\/p>\n<p>Com o semblante mais diferente ainda, Expedito olhou para Gomes com ar de riso.<\/p>\n<p>Em vez de ler, naquele dia o fregu\u00eas quis ir logo ao salame, servido por Gomes numa pequena travessa de inox, com duas metades de um lim\u00e3o e o indefect\u00edvel p\u00e3ozinho. Sorveu toda a garrafa da cerveja bem gelada e deixou dois reais e vinte centavos inteiros de gorjeta.<\/p>\n<p>No dia seguinte, na hora do costume, n\u00e3o apareceu. E deu um dia, dois, tr\u00eas&#8230; Nada do \u201cfregu\u00eas de ouro\u201d. Apesar de suas manias e da sua figura estranha, Expedito at\u00e9 sentiu falta. Afinal, apesar de gastar pouco, era um fregu\u00eas certo.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 que morreu ou ficou doente ao trocar o ovo pelo salame?\u201d \u2013 pensou o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>J\u00e1 fazia uns 8 dias que o \u201cfregu\u00eas de ouro\u201d sumira, quando, de tardezinha, enquanto os outros habituais frequentadores jogavam domin\u00f3, toca o telefone do bar, daqueles telefones antigos, de baquelite preto, pendurado na parede. Expedito atendeu e, do outro lado, estava uma voz fina e anasalada com a qual se desenvolveu o seguinte di\u00e1logo:<\/p>\n<p>\u201cPronto!\u201d<\/p>\n<p>\u201cAl\u00f4! \u00c9 do bar do Expedito?\u201d<\/p>\n<p>\u201cDaqui mesmo! A falar Expedito, um seu criado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSenhor Expedito, queria saber se tem ido a\u00ed o Senhor Visconde. Sou jornalista e preciso muito fazer uma entrevista com ele. Disseram-me que eu o encontraria a\u00ed, que \u00e9 um estabelecimento distinto, no qual ele fica sempre muito \u00e0 vontade.\u201d<\/p>\n<p>\u201cVisconde? Que visconde?\u201d<\/p>\n<p>\u201cO Senhor Visconde de Monteblanco. Um cavalheiro assim, de uns sessenta anos, anda sempre de terno, usa pince-nez e costuma ficar lendo a\u00ed no seu botequim. Ele \u00e9 um importante literato, poeta, intelectual internacionalmente conhecido. Consultor da ONU em v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh, sim, ele vinha sempre aqui. Mas faz uns dias que n\u00e3o o vejo. N\u00e3o sabia que ele era visconde. Nem que era liberado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cLiterato! Literato. Gente de letras, que faz livros. Ele n\u00e3o tem ido a\u00ed? Ah, j\u00e1 sei! Ele deve estar retirado em uma de suas fazendas de gado no Mato Grosso. Ou visitando a lavoura de caf\u00e9 no sul de Minas. Mas, por favor, Senhor Expedito, seja discreto. O Visconde de Monteblanco n\u00e3o gosta de propaganda, nem que saibam de sua import\u00e2ncia. Ele \u00e9 muito modesto. Vou ver se consigo novamente entrar em contato com o secret\u00e1rio particular do Senhor Visconde. Muito obrigado, passar bem.\u201d<\/p>\n<p>Expedito ia continuar a conversa para perguntar coisas, satisfazer a curiosidade, perguntar se queria deixar recado, mas o interlocutor desligou rapidamente.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, Expedito j\u00e1 havia dado com a l\u00edngua nos dentes e todos no bar sabiam da import\u00e2ncia do nobre cliente, que dali para frente deveria ser tratado com muito respeito e considera\u00e7\u00e3o por todos. E com a advert\u00eancia do dono do bar:<\/p>\n<p>\u201cAi de quem desrespeitar o Senhor Visconde se ele voltar aqui! Ele \u00e9 um cliente importante, n\u00e3o \u00e9 dessa ral\u00e9 de b\u00eabados.\u201d<\/p>\n<p>Dali em diante, Expedito separaria os ovos mais bonitos e frescos, de casca mais forte e os p\u00e3es mais macios para servi-lo. E a \u00e1gua mineral? Esta seria da marca mais nobre e suas garrafas, guardadas no fundo da geladeira para ficarem triscando de geladas.<\/p>\n<p>Cabia observar se o Visconde voltaria. E, eventualmente, ele voltou. E foi tratado sempre cheio de rapap\u00e9s e respeitos. Jamais houve fregu\u00eas t\u00e3o paparicado naquele p\u00e9-sujo, mesmo que ele gastasse pouco comendo seu ovo, seu p\u00e3o e bebendo sua \u00e1gua.<\/p>\n<p>Afinal, n\u00e3o era um fregu\u00eas qualquer. Era um cliente! O Senhor Visconde.<\/p>\n<p>O que ningu\u00e9m descobriu \u00e9 que, imitando outra voz, o pr\u00f3prio ex\u00f3tico cavalheiro havia feito o telefonema de um bar no Engenho de Dentro, onde, naqueles dias de aus\u00eancia no Expedito, ele resolvera frequentar porque soubera haver ali um mocot\u00f3 sensacional e uma \u00f3tima sinuca. E n\u00e3o h\u00e1 nada de mal em comer um mocotozinho e se arriscar no bilhar depois de economizar comendo ovo durante tantos dias&#8230;<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na esquina do Boulevard 28 de Setembro com Rua Visconde de Abaet\u00e9, no cora\u00e7\u00e3o de Vila Isabel, um dos bairros mais simp\u00e1ticos do Rio de Janeiro, ocorreu essa hist\u00f3ria. Ali era o endere\u00e7o do Bar do Expedito. Saudoso Expedito, portugu\u00eas de P\u00f3voa do Varzim, aposentou-se e foi morar com a esposa no Esp\u00edrito Santo. 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