{"id":358504,"date":"2025-07-22T03:42:21","date_gmt":"2025-07-22T06:42:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358504"},"modified":"2025-07-22T03:45:48","modified_gmt":"2025-07-22T06:45:48","slug":"redcap-caminha-com-a-mulher-misteriosa-ate-a-rua-daniel-marchi-esquina-com-a-travessa-lenziredcap-caminha-com-a-mulher-misteriosa-ate-a-rua-daniel-marchi-com-a-travessa-lenzi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/redcap-caminha-com-a-mulher-misteriosa-ate-a-rua-daniel-marchi-esquina-com-a-travessa-lenziredcap-caminha-com-a-mulher-misteriosa-ate-a-rua-daniel-marchi-com-a-travessa-lenzi\/","title":{"rendered":"Levando a mulher misteriosa at\u00e9 a rua Daniel Marchi, esquina com a travessa Lenzi"},"content":{"rendered":"<p>A dama de preto silenciou, entretanto, n\u00e3o o fez por falta de argumentos. Ela sabia de tudo. Estava com ele sempre, em meio as suas ang\u00fastias, lam\u00farias, prantos, alegrias e regozijos.<\/p>\n<p>A chuva apertou. Redcap abaixou a aba do seu bon\u00e9, na tentativa infantil de evitar se molhar. Talvez mais pela vergonha de sua \u00faltima fala do que pelo fen\u00f4meno da natureza em si. A dama de preto n\u00e3o se ofendeu. Permanecia intacta, ilesa e com a mesma fei\u00e7\u00e3o. At\u00e9 o convidou para que ambos procurassem um lugar mais seguro e aquecido.<\/p>\n<p>Diante da proposta, iniciaram uma caminhada r\u00e1pida at\u00e9 a Rua Daniel Marchi, que dava de esquina com a Travessa Lenzi. L\u00e1 havia uma marquise com tr\u00eas metros de comprimento que serviria como porto seguro durante algum tempo. Esfriou abruptamente e a umidade prevaleceu. Tanto que j\u00e1 se via neblina se formando. Ao tentarem identificar a continuidade e as conex\u00f5es entre as ruas e vielas, a miss\u00e3o se tornara basicamente imposs\u00edvel. O centro do Rio de Janeiro se tornou mais taciturno do que nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Que tempo maluco &#8211; ressaltou Redcap &#8211; Talvez seja hora de ir. Mas antes disso, eu queria saber quem \u00e9 voc\u00ea e o que faz aqui. Por que tem uma mulher no meio da cidade e nesse hor\u00e1rio? \u00c9 maluca igual a mim, \u00e9?!<\/p>\n<p>&#8211; Como j\u00e1 te disse, sou a sua consci\u00eancia, Redcap. &#8211; ela disse, com tom de firmeza. &#8211; Pode me chamar assim, se desejar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3timo. Achei uma louca no meio da cidade. &#8211; disse Redcap, em tom debochado, enquanto jogava o cigarro que tentava acender no ch\u00e3o, declarando tacitamente a sua desist\u00eancia.<\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o declarou nada. Apenas fixou seus olhos no dele e o encarou com tamanha profundidade, que ele sentiu que poderia ser assaltado. Terror de carioca.<\/p>\n<p>Passada a sensa\u00e7\u00e3o tragic\u00f4mica, nasceu no cora\u00e7\u00e3o de Redcap uma inquieta\u00e7\u00e3o. Uma tontura tomou conta da sua mente e corpo. N\u00e3o via mais nada al\u00e9m da neblina que se alastrava cada vez mais e tomava conta da ruela inteira. A dama de preto passou a ser vista de maneira turva.<\/p>\n<p>&#8211; O que t\u00e1 acontecendo comigo? &#8211; indagou, enquanto se apoiava em uma parede fria, com tintura bege desgastada e limo. &#8211; Me ajuda, \u00f4! N\u00e3o t\u00e1 v-vendo que&#8230;que eu t\u00f4 passando mal?! \u00d4, consci\u00eancia!<\/p>\n<p>Antes que pudesse iniciar os xingamentos direcionados a nobre figura feminina, Redcap adormeceu. Um sono t\u00e3o forte que parecia ter sido encomendado pelo pr\u00f3prio Hipnos. Teria, finalmente, um sono de qualidade. N\u00e3o se importaria se fosse um sonho ou um pesadelo que lhe visitasse nos reinos de Morpheus, contanto que ele dormisse em paz.<\/p>\n<p>Para o seu engano, n\u00e3o era um simples sono, mas uma viagem para a sua pr\u00f3pria mente. Ele viu a si mesmo em um mundo leitoso, esbranqui\u00e7ado, sereno e minimalista, por assim dizer. S\u00f3 havia a cor branca ao redor, como uma tela preparada para ser pintada. Desesperou-se. Gritou igual uma crian\u00e7a pela mam\u00e3e. Correu para todos os lados, mas como escolher qual lado diante do vazio infinito? Sentou e chorou.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, Redcap? &#8211; ao seu lado surgiu a sua consci\u00eancia &#8211; Ainda n\u00e3o acredita?<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea fez comigo? &#8211; indagou, com a face tomada pela c\u00f3lera. &#8211; Eu s\u00f3 queria fumar meu cigarro em paz no dia do meu anivers\u00e1rio, porra! O que voc\u00ea quer comigo?<\/p>\n<p>Pela primeira vez, a dama de preto, altiva como uma rainha, sorriu com todos os dentes a mostra. Um sorriso estonteante, que ganharia o cora\u00e7\u00e3o de qualquer homem. M\u00e1gica. Estupendamente linda. Seus cabelos se moviam como se tivessem vida pr\u00f3pria e brilhavam como turmalina cintilante e polida. Ela se aproximou e explicou, agora de frente para Redcap.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea se d\u00e1 o aval do sofrimento e da reclama\u00e7\u00e3o, e ao perceber suas falhas, n\u00e3o tenta melhorar. Voc\u00ea mergulha em auto puni\u00e7\u00e3o e flagela\u00e7\u00e3o emocional. Estou aqui para consertar isso. \u00c9 um ultimato, Redcap.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o respondeu. Sabia que aquilo tudo era verdade. N\u00e3o iria contestar nem postergar o que eram fatos. J\u00e1 tinha percebido isso h\u00e1 um tempo. Concordava com seu av\u00f4. Ele era mais do mesmo. Era morno. Um pregui\u00e7oso, pouco ambicioso e um doente emocional, que ao inv\u00e9s de achar solu\u00e7\u00f5es, mergulhava inteiramente nas dificuldades e problemas que deveria enfrentar. At\u00e9 mesmo (e principalmente) aqueles que eram de ordem interior, onde ele mesmo era o objeto de enfrentamento e estudo.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e1. E a\u00ed? Quer que eu fa\u00e7a o que com isso? Quer que eu coloque o dedo na bunda e fique gritando enquanto pe\u00e7o desculpas pelos meus erros? &#8211; ele abriu os bra\u00e7os, como se fosse abra\u00e7ar o Mundo e aumentou a voz &#8211; N\u00c3O SEI SE AINDA N\u00c3O PERCEBEU, MAS ISSO AQUI \u00c9 UM VAZIO ABSOLUTO.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Deixar\u00e1 de ser at\u00e9 voc\u00ea colorir tudo novamente. Estamos aqui para isso. Voc\u00ea reconciliar\u00e1 o seu cora\u00e7\u00e3o para encontrar a sua paz. &#8211; ela explicou, enquanto falava pausada e serenamente.<\/p>\n<p>Ele achou aquilo tudo muito bonito. J\u00e1 estava em uma situa\u00e7\u00e3o sobrenatural. O que mais poderia perder? Ora, pensou em arriscar. Poderia ser tudo um sonho, de qualquer forma.<\/p>\n<p>&#8211; O que eu fa\u00e7o, ent\u00e3o, consci\u00eancia? &#8211; ele disse, revirando os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Pense em seus pais.<\/p>\n<p>&#8211; Meus pais?<\/p>\n<p>&#8211; Seus pais, Redcap. &#8211; ela disse, fechando os seus olhos.<\/p>\n<p>Redcap pensou em um mil\u00e9simo de segundo em sua inf\u00e2ncia. Foi o suficiente. Ele nem tinha se concentrado. Sua mente procurou informa\u00e7\u00f5es automaticamente, devido a cita\u00e7\u00e3o sobre os seus genitores. Mas aquilo era o essencial para a dama de preto.<\/p>\n<p>Uma m\u00e3o sobre a sua cabe\u00e7a. A dama de preto o tocou. Bastou um lapso temporal curt\u00edssimo. O que se passou adiante mudou a vida e a perspectiva de Redcap. Ele estava de volta ao seu passado.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>A parte III deste folhetim ser\u00e1 publicada na quarta-feira, 23<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dama de preto silenciou, entretanto, n\u00e3o o fez por falta de argumentos. Ela sabia de tudo. Estava com ele sempre, em meio as suas ang\u00fastias, lam\u00farias, prantos, alegrias e regozijos. A chuva apertou. Redcap abaixou a aba do seu bon\u00e9, na tentativa infantil de evitar se molhar. 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