{"id":358683,"date":"2025-07-26T00:21:27","date_gmt":"2025-07-26T03:21:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358683"},"modified":"2025-07-18T19:22:24","modified_gmt":"2025-07-18T22:22:24","slug":"ele-apaixonado-que-era-comecou-a-desconfiar-da-amada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ele-apaixonado-que-era-comecou-a-desconfiar-da-amada\/","title":{"rendered":"Ele, apaixonado que era, come\u00e7ou a desconfiar da amada"},"content":{"rendered":"<p>Ele a amava, ela retribu\u00eda, mas com menos ardor. Como ensinam os franceses, s\u00e1bios nas coisas do cora\u00e7\u00e3o, \u201cUm beija, o outro oferece o rosto para ser beijado\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinham filhos, investiam em suas carreiras e tinham uma vida bem confort\u00e1vel. Mas ela sentia-se presa, avezinha dentro de uma gaiola de ouro. N\u00e3o que pensasse em tra\u00ed-lo, isso n\u00e3o lhe passara pela cabe\u00e7a. Mas sentia falta da liberdade para arriscar tudo num s\u00f3 lance, de correr riscos, ressentia-se da impossibilidade de conhecer outros homens t\u00e3o interessantes quanto ele, mais interessantes que ele.<\/p>\n<p>Ela sentia falta at\u00e9 mesmo de uma vida com mentiras, da refer\u00eancia falsa a uma tarde com alguma amiga, quando na verdade estava em um barzinho com um cara atraente, entretida com o doce e perigoso jogo da sedu\u00e7\u00e3o. Como ensina Caetano Veloso, s\u00e1bio nas coisas do cora\u00e7\u00e3o, \u201cVoc\u00ea diz a verdade, e a verdade \u00e9 seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher v\u00e1 viver sem mentir\u201d.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, certo dia, ela conheceu o Outro. Um novo colega de trabalho, atraente e de ar perigoso. Apaixonou-se em pouqu\u00edssimo tempo. Ele oferecia o rosto para o beijo; ela beijava-o com sofreguid\u00e3o, n\u00e3o apenas na face, mas pelo corpo inteiro, f\u00eamea no cio, aberta para o amor.<\/p>\n<p>Em casa, ele percebeu as mudan\u00e7as na mulher. Parecia mais solta e tamb\u00e9m mais brusca, mais impaciente para com ele. S\u00e1bio nas coisas do cora\u00e7\u00e3o, concluiu: \u201cH\u00e1 outro homem. Vou perd\u00ea-la\u201d. Lutou contra essa ideia, desdobrou-se em gentilezas para com ela, conduziu-a a del\u00edrios de prazer na cama, mas nada adiantava: mal terminava uma transa memor\u00e1vel, ela se distanciava dele, seu rosto assumia uma express\u00e3o sonhadora, como se imaginando-se nos bra\u00e7os do Outro.<\/p>\n<p>Certo dia, ao ler as palavras de Marcel Proust em A fugitiva, sexto livro de Em busca do tempo perdido, em que o romancista descreve o turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es que tomou conta dele ap\u00f3s ser abandonado por Albertine, deteve-se na seguinte passagem: \u201cPus de lado todo o orgulho com rela\u00e7\u00e3o a Albertine e mandei-lhe um telegrama desesperado, pedindo que voltasse sob quaisquer condi\u00e7\u00f5es, que ela faria o que bem entendesse; pedia-lhe apenas que a deixasse beij\u00e1-la um minuto, tr\u00eas vezes por semana, antes de deitar-se\u201d.<\/p>\n<p>Tais palavras o fizeram mudar de t\u00e1tica. Levou-a para a sala, ocupou uma cadeira, a alguma dist\u00e2ncia do sof\u00e1 em que ela sentara, e falou-lhe com suavidade, como dois estranhos conversando educadamente:<\/p>\n<p>&#8211; Querida, sei que h\u00e1 outro homem \u2013 e, apagando seus protestos (falsos), prosseguiu \u2013 e, se n\u00e3o apareceu ainda, logo vai surgir (mentira, sabia que um posseiro qualquer j\u00e1 tomara conta, se n\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o e do esp\u00edrito, pelo menos do corpo da amada). \u2013 N\u00e3o quero perder-te de vez, devolvo-te a liberdade, suplico apenas que n\u00e3o v\u00e1s embora em definitivo.<\/p>\n<p>Ela o fitou por longo tempo. Depois levantou-se, ainda sem responder, e foi para o quarto do casal. Ele dormiu no sof\u00e1.<\/p>\n<p>Durante alguns dias, as nuvens sombrias pareceram ter-se desfeito. Ela voltava mais cedo para casa, mostrava-se mais carinhosa, mais ardente na cama. A \u00fanica regra, t\u00e1cita, era \u201cnem uma palavra sobre a proposta que me fizeste\u201d. A gaiola podia estar escancarada, mas a avezinha relutava em abrir as asas e voar.<\/p>\n<p>Quinze dias depois, o voo esperado finalmente aconteceu, ela saiu de casa. N\u00e3o para viver com o Outro, ele soube depois, mas para morar sozinha, em um apartamentinho que alugou. Quase em seguida, um amigo do casal contou-lhe que ela ficara indignada, ou quase, por ele ter aberto m\u00e3o de seu amor t\u00e3o facilmente, n\u00e3o ter insistido em arranc\u00e1-la dos bra\u00e7os do Outro. Julgou-se tra\u00edda por ele aceitar t\u00e3o civilizadamente a trai\u00e7\u00e3o, como se isso lhe roubasse a liberdade de escolher entre os dois homens que a desejavam. E que ela continuava a am\u00e1-lo, talvez mais do que antes, ou pelo menos mais consciente desse sentimento do que antes, mas que n\u00e3o lhe perdoava o ter-lhe roubado a possibilidade de escolha, a liberdade de machucar uma das asas por um voo que a levasse de encontro a algum obst\u00e1culo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele a amava, ela retribu\u00eda, mas com menos ardor. Como ensinam os franceses, s\u00e1bios nas coisas do cora\u00e7\u00e3o, \u201cUm beija, o outro oferece o rosto para ser beijado\u201d. N\u00e3o tinham filhos, investiam em suas carreiras e tinham uma vida bem confort\u00e1vel. Mas ela sentia-se presa, avezinha dentro de uma gaiola de ouro. 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