{"id":358770,"date":"2025-07-28T00:15:40","date_gmt":"2025-07-28T03:15:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358770"},"modified":"2025-07-19T10:30:14","modified_gmt":"2025-07-19T13:30:14","slug":"ha-uma-hora-dificil-em-que-a-duvida-penetra-as-almas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ha-uma-hora-dificil-em-que-a-duvida-penetra-as-almas\/","title":{"rendered":"H\u00e1 uma hora dif\u00edcil em que a d\u00favida penetra as almas"},"content":{"rendered":"<p>Alguns esclarecimentos pr\u00e9vios.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o praticamente nada de biologia, ent\u00e3o relevem prov\u00e1veis enganos. N\u00e3o guglei em busca de informa\u00e7\u00f5es balizadoras. N\u00e3o sei se acontece com todo mundo, espero que sim. N\u00e3o lembro quando percebi, acho que foi h\u00e1 pouco tempo, n\u00e3o tenho certeza, com a idade, minha mem\u00f3ria virou uma lama. Em especial, se algu\u00e9m souber que se trata de um sintoma de dem\u00eancia ou de um tumor no c\u00e9rebro, por favor, n\u00e3o me conte.<\/p>\n<p>Agora, o texto.<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando vou dormir, meus olhos como que mergulham suavemente nos l\u00edquidos oculares (s\u00e3o dois, o humor v\u00edtreo e o humor aquoso). Em outras, por\u00e9m, deparo-me com a ab\u00f3bada.<\/p>\n<p>O teto e as paredes parecem feitos de argila escura e est\u00e3o repletos de signos aparentemente cuneiformes, como as dos sum\u00e9rios e outras culturas da antiga Mesopot\u00e2mia. Mas isso diz respeito apenas \u00e0 forma de inscri\u00e7\u00e3o nesse material; os s\u00edmbolos remetem \u00e0s mais diversas manifesta\u00e7\u00f5es culturais desse todo desigual chamado de esp\u00e9cie humana. Alguns lembram pinturas rupestres, desde as mais rudimentares at\u00e9 as elegantes representa\u00e7\u00f5es nas paredes das cavernas de Altamira e Lascaux; outros, desenhos infantis e formas geom\u00e9tricas; h\u00e1 folhagens, antigas armas de corte, esbo\u00e7os de hier\u00f3glifos eg\u00edpcios, de divindades hindus, maias e astecas, de figuras her\u00e1ldicas presentes nos bras\u00f5es da Europa medieval; e tudo isso vai se modificando continuamente sem jamais se tornar algo acabado, como astros imperfeitos que se deslocam pela ab\u00f3bada celeste.<\/p>\n<p>Basta um piscar para que desapare\u00e7am. Mas \u00e0s vezes, depois de outra piscada, retornam \u2013 n\u00e3o os mesmos, mas g\u00eameos quase id\u00eanticos, sempre em prociss\u00e3o pela ab\u00f3bada dos meus olhos, a preencher meu fim de vig\u00edlia.<\/p>\n<p>A contempla\u00e7\u00e3o de tudo isso conduziu-me a algumas especula\u00e7\u00f5es. E se, no mito plat\u00f4nico da Caverna, os homens relutassem em se libertar n\u00e3o apenas por temer as dores da descoberta da luminosidade, mas tamb\u00e9m pelo receio de perder para sempre a vis\u00e3o das imagens fugidias inscritas no teto e nas paredes? Imagens desconhecidas, n\u00e3o tinham com que compar\u00e1-las, mas cuja import\u00e2ncia intu\u00edam? E se estivessem gestando, no escuro, o que viria a existir? E se, suspeitando disso, n\u00e3o quisessem trocar a condi\u00e7\u00e3o de demiurgos, ainda que de imperfei\u00e7\u00f5es, pela de simples criaturas?<\/p>\n<p>A segunda especula\u00e7\u00e3o remete \u00e0 pr\u00f3pria ab\u00f3bada. Nas catedrais, ela pretende representar, em um espa\u00e7o necessariamente finito, a infinitude da ab\u00f3bada celeste, cria\u00e7\u00e3o divina. Pois bem, sou incapaz de perceber os limites de \u201cminha\u201d ab\u00f3bada ocular, em conex\u00e3o direta com a mente, contida em outra ab\u00f3bada, a craniana; nada impede que, em teoria, ela seja infinita. Em que medida isso faz de mim o criador de algo fr\u00e1gil, que se desfaz com um piscar de olhos, mas incomensur\u00e1vel, que recobre o universo e acompanha seus desdobramentos, \u00e0 semelhan\u00e7a do mapa do Imp\u00e9rio na propor\u00e7\u00e3o 1:1, do conto Sobre o Rigor na Ci\u00eancia, de Jorge Lu\u00eds Borges?<\/p>\n<p>Para terminar o texto, recorro a um poema de Carlos Drummond de Andrade, Tristeza no c\u00e9u.<\/p>\n<p>\u201cNo c\u00e9u, tamb\u00e9m, h\u00e1 uma hora melanc\u00f3lica<br \/>\nHora dif\u00edcil em que a d\u00favida penetra as almas<br \/>\nPor que fiz o mundo?<br \/>\nDeus se pergunta e se responde: \u2018N\u00e3o sei\u2019<br \/>\nOs anjos olham-no com reprova\u00e7\u00e3o e plumas caem<br \/>\nTodas as hip\u00f3teses<br \/>\nA gra\u00e7a, a eternidade, o amor, caem<br \/>\nS\u00e3o plumas<br \/>\nOutra pluma, o c\u00e9u se desfaz<br \/>\nT\u00e3o manso, nenhum fragor denuncia<br \/>\nO momento entre tudo e nada<br \/>\nOu seja, a tristeza de Deus\u201d<\/p>\n<p>Talvez \u201co momento entre tudo e nada\u201d, o fim do universo, n\u00e3o esteja t\u00e3o somente associado \u00e0 tristeza de Deus, mas tamb\u00e9m a um involunt\u00e1rio piscar de Seus olhos. E, com a piscada seguinte, outro universo se configure, igualmente infinito, igualmente fr\u00e1gil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns esclarecimentos pr\u00e9vios. N\u00e3o conhe\u00e7o praticamente nada de biologia, ent\u00e3o relevem prov\u00e1veis enganos. N\u00e3o guglei em busca de informa\u00e7\u00f5es balizadoras. N\u00e3o sei se acontece com todo mundo, espero que sim. N\u00e3o lembro quando percebi, acho que foi h\u00e1 pouco tempo, n\u00e3o tenho certeza, com a idade, minha mem\u00f3ria virou uma lama. 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