{"id":358787,"date":"2025-08-02T10:53:47","date_gmt":"2025-08-02T13:53:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358787"},"modified":"2025-08-02T12:25:43","modified_gmt":"2025-08-02T15:25:43","slug":"destino-de-davi-era-encarar-direitistas-cascudoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/destino-de-davi-era-encarar-direitistas-cascudoes\/","title":{"rendered":"Destino de Davi era encarar direitistas cascud\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Sabem aquela cena famosa do filme O sexto sentido, em que um garoto de oito anos diz, com voz entre soturna e lastimosa, <em>I see dead people<\/em> (Vejo gente morta)? Davi a achava um t\u00e9dio. Ele tamb\u00e9m via <em>dead people<\/em>, fantasmas, e nem por isso usava aquele tom de voz, digamos, fantasmag\u00f3rico para confessar a coisa.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, ele havia falado sobre sua percep\u00e7\u00e3o sobrenatural a pouqu\u00edssimas pessoas. At\u00e9 porque, devotado militante socialista, ele se dizia materialista e ateu. Era preciso uma gingada, uma quebrada de corpo bem brasileira para conciliar seu ate\u00edsmo e a constata\u00e7\u00e3o de que existia vida ap\u00f3s a morte. Pelo menos para os \u201cseus\u201d fantasmas. Pois Davi n\u00e3o tinha a menor certeza de que todas as almas sobreviviam no al\u00e9m-t\u00famulo.<\/p>\n<p>E nem estava interessado em descobrir. Ele tinha outras preocupa\u00e7\u00f5es, como barrar o avan\u00e7o da extrema direita. Afinal, era um revolucion\u00e1rio!<\/p>\n<p>Parecia que o destino de Davi era enfrentar direitistas cascud\u00f5es. Ele fizera isso no Brasil, na universidade, participando de todos os atos contra o Bozo, e dera uivos de alegria com a derrota nas urnas do Coisa Ruim. Em dezembro de 2023 chegara a Paris, com uma bolsa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Pol\u00edtica; e vira a extrema direita francesa \u2013 bem mais civilizada que a tigrada mitista, diga-se \u2013 avan\u00e7ar como um rolo compressor rumo ao poder. Mas viu tamb\u00e9m a esquerda local se unir e em seguida se aliar \u00e0 centro-direita. Resultado, mais uma vez a extrema direita da Fran\u00e7a mordeu o p\u00f3. E a esquerda unida, n\u00e3o a centro-direita, foi a grande vencedora nas elei\u00e7\u00f5es. Uma dupla vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Davi estava entre as milh\u00f5es de pessoas que correram \u00e0s ruas para festejar o triunfo da Nova Frente Popular, cujo nome faz refer\u00eancia a uma alian\u00e7a que barrou o caminho ao fascismo em 1936. Bebeu v\u00e1rios copos de cerveja, abra\u00e7ou desconhecidos, beijou lindas desconhecidas, entoou a Marselhesa e can\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias a plenos pulm\u00f5es. E, com sua capacidade de ver gente morta, foi um dos poucos a v\u00ea-los chegar.<\/p>\n<p>Os primeiros a se reunir aos viventes mostravam no peito os ferimentos causados pelos proj\u00e9teis que os haviam fuzilado. Mas naquela noite estavam vivos e, emocionados, murmuravam frases em que se percebiam as palavras <em>La Commune<\/em>. Davi percebeu que eram <em>communards<\/em>, revolucion\u00e1rios que haviam implantado o primeiro Estado oper\u00e1rio da hist\u00f3ria, a Comuna de Paris, sufocada pelas for\u00e7as da ordem.<\/p>\n<p>Uma segunda leva de fantasmas rec\u00e9m-materializados tinha as m\u00e3os enegrecidas pelo p\u00f3 de carv\u00e3o. Eram mineiros do norte da Fran\u00e7a, que haviam enfrentado os poderes constitu\u00eddos em greves brutalmente reprimidas. No romance Germinal, o escritor \u00c9mile Zola havia descrito uma dessas greves, bem como as terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de vida a que estavam submetidos os mineiros do carv\u00e3o; a leitura desse livro ajudou Davi a identific\u00e1-los.<\/p>\n<p>Havia outros grupos fantasmag\u00f3ricos: homens com trajes simples de oper\u00e1rios dos anos 1930, muito provavelmente militantes da Frente Popular de 1936 e das greves maci\u00e7as que naquele ano abalaram a Fran\u00e7a, levando-a \u00e0 beira da revolu\u00e7\u00e3o; jovens armados, com dizeres em espanhol em suas roupas, sem d\u00favida volunt\u00e1rios nos batalh\u00f5es franceses das Brigadas Internacionais, na Guerra Civil Espanhola; figuras esquel\u00e9ticas, com uma estrela de Davi bem vis\u00edvel nas vestes \u2013 judeus franceses enviados aos campos de exterm\u00ednio nazistas. Todos eles tinham um ar de paciente expectativa.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o o que aquele mar de gente esperava aconteceu: soaram os primeiros acordes da Internacional. A can\u00e7\u00e3o dos oprimidos, composta em 1871 por um communard ap\u00f3s a derrota da Comuna, que recebeu letra em 1888, foi entoada em dezenas de idiomas. Davi cantou o hino anarquista, socialista e comunista em franc\u00eas, juntamente com a esmagadora maioria dos presentes \u2013 vivos ou mortos.<\/p>\n<p>Depois de ser cantado pela \u00faltima vez o refr\u00e3o, <em>C\u2019est la lutte finale\/Groupons nous, et demain\/ L\u2019internationale\/ Sera le genre humain<\/em> [\u00c9 a luta final, unamo-nos, e amanh\u00e3 a Internacional ser\u00e1 o g\u00eanero humano], os fantasmas come\u00e7aram a partir. Davi se despediu deles em sil\u00eancio, acompanhando com os olhos cheios de l\u00e1grimas cada grupo que se desvanecia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabem aquela cena famosa do filme O sexto sentido, em que um garoto de oito anos diz, com voz entre soturna e lastimosa, I see dead people (Vejo gente morta)? Davi a achava um t\u00e9dio. 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