{"id":358894,"date":"2025-07-21T09:01:53","date_gmt":"2025-07-21T12:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=358894"},"modified":"2025-07-21T09:03:03","modified_gmt":"2025-07-21T12:03:03","slug":"ha-tres-noites-que-pro-norte-relampeia-mas-o-trovao-ribomba-e-silencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ha-tres-noites-que-pro-norte-relampeia-mas-o-trovao-ribomba-e-silencia\/","title":{"rendered":"H\u00e1 tr\u00eas noites que pro Norte relampeia, mas o trov\u00e3o ribomba e silencia"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1 onde o agreste se debru\u00e7a sobre o sert\u00e3o, costurando as franjas da Bahia, de Pernambuco e do Cear\u00e1, a terra \u00e9 mais poeira do que ch\u00e3o. Um ch\u00e3o que estala sob os p\u00e9s como se tivesse sede de passos, sede de gente. E h\u00e1 gente. Sempre h\u00e1. Porque o sertanejo, esse que resiste com o lombo curvado e o olhar de a\u00e7o, n\u00e3o foge da terra: finca-se nela como raiz de mandacaru.<\/p>\n<p>Do alto de um lajedo, o velho Z\u00e9 Branquinho limpava o suor com o mesmo len\u00e7o encardido que herdara do pai. Ao seu lado, o menino Dico, neto curioso de alma inquieta, fitava o horizonte seco.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f4, dizem que o sert\u00e3o vai virar mar. \u00c9 verdade?<\/p>\n<p>Z\u00e9 soltou uma risada curta, amarga como caf\u00e9 dormido.<\/p>\n<p>\u2014 Menino, isso \u00e9 coisa de cantador, de poeta com a vista emba\u00e7ada de saudade. O sert\u00e3o num vai virar mar, n\u00e3o. Aqui s\u00f3 vira \u00e9 poeira.<\/p>\n<p>\u2014 Mas Patativa disse\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Disse, sim. E disse bonito. \u201cA triste partida\u201d \u00e9 verso de dor, n\u00e3o de profecia. Aqui, meu neto, o que tem \u00e9 mais partida que chegada.<\/p>\n<p>Dico apertou os olhos. O c\u00e9u era uma lona de zinco, sem uma nuvem de compaix\u00e3o. O gado cambaleava ao longe, a fome roendo os ossos como cupim em cerca velha.<\/p>\n<p>E de repente, como se cantasse pra si, Z\u00e9 murmurou:<\/p>\n<p><strong>&#8220;Por ser de l\u00e1<\/strong><br \/>\n<strong>Do sert\u00e3o, l\u00e1 do cerrado<\/strong><br \/>\n<strong>L\u00e1 do interior do mato&#8230;&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Gonzaga j\u00e1 sabia \u2014 completou ele \u2014 que o lamento sertanejo \u00e9 feito de sil\u00eancio. \u00c9 um choro que se engole pra n\u00e3o gastar \u00e1gua.<\/p>\n<p>Dico, sem entender muito, puxou o estilingue do bolso e mirou uma sombra na \u00e1rvore.<\/p>\n<p>\u2014 E por que o povo n\u00e3o vai embora, v\u00f4?<\/p>\n<p>Z\u00e9 pigarreou, engolindo a emo\u00e7\u00e3o como quem engole o pr\u00f3prio destino:<\/p>\n<p>\u2014 Porque a alma da gente t\u00e1 costurada com espinho de xiquexique. O sertanejo, Dico, \u00e9 feito de coragem. Como escreveu um doutor das letras: \u201co sertanejo \u00e9, antes de tudo, um forte.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Forte como o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Como a terra rachada, que mesmo ferida, insiste em parir feij\u00e3o de corda. Como a m\u00e3e que cozinha pedra pra enganar a fome <em>dos menino<\/em>. Forte como n\u00f3s, que rimos sem ter motivo s\u00f3 pra n\u00e3o chorar.<\/p>\n<p>O sol caiu de lado, acendendo brasas no c\u00e9u. N\u00e3o havia sinal de chuva. Nem rel\u00e2mpago, nem trovoada. S\u00f3 a certeza de que amanh\u00e3 seria igual. Ou pior.<\/p>\n<p>Mas Z\u00e9 Branquinho puxou o chap\u00e9u, firmou os olhos no horizonte e disse, quase num sussurro:<\/p>\n<p>\u2014 Um dia, Dico, um dia talvez o mar \u00e9 que vire sert\u00e3o. E a gente vai t\u00e1 aqui, do mesmo jeito, plantando esperan\u00e7a no ch\u00e3o seco.<\/p>\n<p>Ali onde vive Z\u00e9 Branquinho, homem talhado pelo tempo e pelo sol, com a pele curtida como couro de gib\u00e3o. Seu neto, Dico, menino curioso e franzino, era o seu eco inquieto.<\/p>\n<p>Sentados \u00e0 sombra murcha de um juazeiro, miravam juntos o horizonte duro.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f4, se o sert\u00e3o num vai virar mar, o que vai virar?<\/p>\n<p>Z\u00e9 pensou. Co\u00e7ou o queixo espinhento. Depois respondeu, com voz de trov\u00e3o abafado:<\/p>\n<p>\u2014 Vai virar resist\u00eancia, menino. Vai virar poema. Vai virar canto preso na garganta.<\/p>\n<p>Dico engoliu a poeira com um gole de \u00e1gua quente da caba\u00e7a. O c\u00e9u, esse grande palco do improv\u00e1vel, seguia claro demais.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, v\u00f4, j\u00e1 faz tr\u00eas noites que pro norte relampeia \u2014 disse o menino, esperan\u00e7oso, cantarolando um sucesso de Luiz Gonzaga \u2014 &#8220;&#8230;e a Asa Branca, ouvindo o ronco do trov\u00e3o, j\u00e1 bateu asas e voltou pro meu sert\u00e3o\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Z\u00e9 fechou os olhos, saboreando o verso como se fosse rapadura. A m\u00fasica de Gonzag\u00e3o ainda morava em seus ouvidos como canto de sabi\u00e1 em tempos de chuva. Mas ele sabia que, \u00e0s vezes, o trov\u00e3o \u00e9 s\u00f3 barulho, e a Asa Branca, coitada, se engana no caminho.<\/p>\n<p>\u2014 A Asa pode ter voltado, Dico\u2026 mas a chuva ainda t\u00e1 perdida nos confins do c\u00e9u. E mesmo que ela venha, nem sempre traz alegria. \u00c0s vezes, traz \u00e9 lama e correnteza que leva ro\u00e7ado e esperan\u00e7a junto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o senhor acredita?<\/p>\n<p>\u2014 Acredito. Sertanejo acredita at\u00e9 em terra rachada. Porque se n\u00e3o acreditar, morre de sede por dentro.<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio caiu entre os dois, denso como o ar parado.<\/p>\n<p>Ao longe, uma velha caminhava, envolta num xale remendado, carregando um feixe de lenha maior que ela. Era Dona Ernestina, rezadeira de beira de estrada.<\/p>\n<p>\u2014 Boa tarde, Z\u00e9! \u2014 gritou ela, com voz rouca de cigarro e ladainha. \u2014 Soube que o gado de Jo\u00e3o Neto tombou. Tudo seco. Nem leite, nem carne. S\u00f3 o couro e o olhar vazio.<\/p>\n<p>Z\u00e9 assentiu com a cabe\u00e7a. J\u00e1 ouvira falar.<\/p>\n<p>\u2014 O sert\u00e3o t\u00e1 mais triste que &#8220;A Triste Partida&#8221;, Ernestina. S\u00f3 falta o povo embarcar no trem pra S\u00e3o Paulo de novo\u2026<\/p>\n<p>Ela deu um sorriso torto:<\/p>\n<p>\u2014 Mas ningu\u00e9m vai, Z\u00e9. Aqui \u00e9 onde se nasce e se teima. Como Patativa disse: \u201co meu verso \u00e9 como um ponteiro, cravado no cora\u00e7\u00e3o.\u201d A gente sangra, mas canta.<\/p>\n<p>E se foi, sumindo como sombra na paisagem.<\/p>\n<p>Z\u00e9 puxou o neto pro colo e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Dico, o sert\u00e3o \u00e9 feito de promessa. \u00c0s vezes cumpre, \u00e0s vezes mente. Mas o que n\u00e3o falta aqui \u00e9 alma. E coragem.<\/p>\n<p>\u2014 E se um dia o mar vier mesmo, v\u00f4?<\/p>\n<p>\u2014 A gente aprende a nadar com a f\u00e9. Ou ent\u00e3o planta jangada em meio aos espinhos. Porque aqui, menino, at\u00e9 o imposs\u00edvel a gente encara de cabe\u00e7a erguida.<\/p>\n<p>O sol come\u00e7ava a cair, tingindo de ouro e ferrugem a vastid\u00e3o calada. No c\u00e9u, um \u00fanico ponto escuro: uma ave, talvez a Asa Branca, riscando o ar como esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>E o velho Z\u00e9 Branquinho, com os olhos rasos d\u2019\u00e1gua \u2014 n\u00e3o de chuva, mas de lembran\u00e7a \u2014 sussurrou como se orasse:<\/p>\n<p>\u2014 O sert\u00e3o n\u00e3o vai virar mar, Dico. Vai virar eternidade.<\/p>\n<p>Naquela mesma tarde, o sino da capela bateu tr\u00eas vezes. N\u00e3o era dia de missa nem de defunto. Era aviso de reuni\u00e3o. No sert\u00e3o, quando o sino dobra fora de hora, at\u00e9 o vento presta aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 secando o po\u00e7o de Dona Ernestina \u2014 murmurou um vaqueiro que passava, chap\u00e9u baixo, voz soterrada. \u2014 \u00c9 o \u00faltimo da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Branquinho ouviu calado. Seus olhos, que j\u00e1 tinham visto enchente carregar menino e seca matar cabra de fome, se apertaram como se buscassem um caminho no meio do nada.<\/p>\n<p>Na clareira em frente \u00e0 capela, o povo come\u00e7ou a se ajuntar. Chegaram a p\u00e9, de jegue, de bicicleta. Vinham das veredas, dos grot\u00f5es, de onde ainda se criava galinha com milho de reza.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 agora ou nunca \u2014 gritou Severina das Abelhas, mulher mi\u00fada, mas com peito de sanfoneiro. \u2014 Se a gente n\u00e3o cavar outro po\u00e7o, vamos ter que abandonar a terra.<\/p>\n<p>\u2014 E cavar com qu\u00ea, mulher? \u2014 resmungou Tonho Gadelha, o mais desconfiado da vila. \u2014 Com as unhas?<\/p>\n<p>Severina bateu o p\u00e9:<\/p>\n<p>\u2014 Com a f\u00e9. Com a teimosia. Com o bra\u00e7o que ainda mexe. Ou voc\u00eas acham que o sert\u00e3o vai nos levar sem briga?<\/p>\n<p>Dona Ernestina chegou por \u00faltimo, amparada por Dico, que a ajudava a carregar um pequeno tambor d\u2019\u00e1gua \u2014 talvez o \u00faltimo da casa. Ela levantou o olhar pro c\u00e9u e falou:<\/p>\n<p>\u2014 O c\u00e9u anda mudo, \u00e9 verdade. Mas a terra escuta. Se a gente cavar onde o cora\u00e7\u00e3o manda, a \u00e1gua aparece.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Branquinho, que at\u00e9 ent\u00e3o se mantinha calado, pigarreou. O povo fez sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Quando eu era novo, me disseram que no fundo da terra mora um rio escondido. Um rio que corre por debaixo da seca, feito promessa esquecida. Quem cavar com esperan\u00e7a, um dia encontra.<\/p>\n<p>O povo assentiu com a cabe\u00e7a. No sert\u00e3o, qualquer rastro de f\u00e9 vira mapa.<\/p>\n<p>Naquela mesma noite, homens e mulheres, velhos e crian\u00e7as, come\u00e7aram a cavar. N\u00e3o com tratores \u2014 que n\u00e3o havia \u2014, mas com enxadas, p\u00e1s, latas, panelas e m\u00e3os.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Branquinho olhava para Dico, que sujava os p\u00e9s de terra vermelha com orgulho. E pensava: \u201cTalvez ele nunca v\u00e1 pra S\u00e3o Paulo. Talvez, s\u00f3 talvez, o sert\u00e3o ainda seja ch\u00e3o pra quem sonha com raiz.\u201d<\/p>\n<p>Dias se passaram. As m\u00e3os calejaram. A esperan\u00e7a amea\u00e7ou murchar. Mas ningu\u00e9m desistia.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, certa manh\u00e3, um grito rasgou o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c1gua!<\/p>\n<p>Veio fina, t\u00edmida, molhando mais o rosto do que a terra. Mas era \u00e1gua. L\u00edmpida, fria. Salgada de alegria.<\/p>\n<p>O povo dan\u00e7ou. Chorou. Cantou Gonzaga aos berros:<\/p>\n<p>&#8220;Voltei pro meu sert\u00e3o, J\u00e1 faz tr\u00eas noites que pro norte relampeia&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A Asa Branca n\u00e3o era miragem.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Branquinho abra\u00e7ou Dico. Seus olhos, pela primeira vez em muito tempo, pareciam ter chuva por dentro.<\/p>\n<p>\u2014 Viu, menino? O sert\u00e3o n\u00e3o virou mar. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o virou deserto. Ele virou milagre de quem n\u00e3o arreda p\u00e9.<\/p>\n<p>E naquele sert\u00e3o de barro e batalha, a vida recome\u00e7ou, como sempre recome\u00e7a. Silenciosa, teimosa. E, sobretudo, forte.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 onde o agreste se debru\u00e7a sobre o sert\u00e3o, costurando as franjas da Bahia, de Pernambuco e do Cear\u00e1, a terra \u00e9 mais poeira do que ch\u00e3o. Um ch\u00e3o que estala sob os p\u00e9s como se tivesse sede de passos, sede de gente. E h\u00e1 gente. Sempre h\u00e1. 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