{"id":359005,"date":"2025-07-28T04:00:05","date_gmt":"2025-07-28T07:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=359005"},"modified":"2025-07-22T05:43:37","modified_gmt":"2025-07-22T08:43:37","slug":"meninas-que-brincam-na-nevoa-de-uma-floresta-coberta-de-silenciouma-floresta-coberta-de-silencio-meninas-que-brincam-na-nevoa-e-que-talvez-nunca-tenham-voltado-de-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/meninas-que-brincam-na-nevoa-de-uma-floresta-coberta-de-silenciouma-floresta-coberta-de-silencio-meninas-que-brincam-na-nevoa-e-que-talvez-nunca-tenham-voltado-de-la\/","title":{"rendered":"Meninas que brincam na n\u00e9voa de uma floresta coberta de sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p>Era uma quarta-feira qualquer, na cidade do Rio de Janeiro. Eu trabalhava numa empresa de tecnologia que prestava servi\u00e7os para o governo. Haviam descoberto rela\u00e7\u00f5es pouco republicanas do diretor-presidente com pol\u00edticos locais. O caso estava sendo noticiado pela imprensa: licita\u00e7\u00f5es compradas, pagamento de propina, lavagem de dinheiro com notas fiscais fornecidas pela contabilidade da empresa&#8230; As fraudes chegavam a vinte milh\u00f5es de reais. O caos estava instaurado e come\u00e7avam a falar em cortes e devassas.<\/p>\n<p>Eu nada tinha a ver com os malfeitos, trabalhava no setor de tecnologia e sempre fora um empregado exemplar. Acabara de ser pai, minha esposa ainda se encontrava de licen\u00e7a-maternidade, e entr\u00e1ramos num financiamento banc\u00e1rio para a compra de nosso primeiro apartamento. Eu fiquei em p\u00e2nico com a perspectiva de perder o emprego. Sa\u00ed para almo\u00e7ar na hora habitual e n\u00e3o pude voltar \u00e0 minha sala \u2013 a pol\u00edcia federal estava cumprindo mandados de busca e apreens\u00e3o na sede da empresa e ningu\u00e9m mais entrava. Os que estavam dentro, foram liberados imediatamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia como a not\u00edcia iria repercutir em casa e pensava em como contar para minha mulher. Peguei o carro e, desolado, fui dirigindo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 minha casa, mas, pr\u00f3ximo ao Viaduto dos Marinheiros, entrei em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Tijuca e subi at\u00e9 \u00e0 Pracinha do Alto, quase que mecanicamente e, at\u00e9 hoje sem entender exatamente o porqu\u00ea, fui parar no lugar denominado Bom Retiro, dentro da Floresta da Tijuca. Para quem n\u00e3o est\u00e1 familiarizado com esse recanto do Rio, trata-se de um pequeno largo, cercado de florestas, do qual sai uma trilha que leva ao Pico da Tijuca, ponto mais elevado do parque. H\u00e1 tamb\u00e9m um obelisco e um pequeno pavilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Ia chegando perto, at\u00e9 o ponto em que se estaciona, e reparei que, em meio \u00e0 solid\u00e3o da floresta, eu n\u00e3o estava s\u00f3. Um grupo de meninas, vestidas do que me pareceu um uniforme escolar muito antiquado, brincavam por ali, cantando em roda, de m\u00e3os dadas, uma antiqu\u00edssima cantiga.<\/p>\n<p>Fiquei alguns minutos olhando aquelas meninas, absorto e muito distante dos meus pensamentos de pouco antes, e fui observando que seus uniformes estavam gastos e seus p\u00e9s, descal\u00e7os, encontravam-se bem sujos. Olhei em volta e n\u00e3o encontrei nenhum ve\u00edculo escolar no qual aquelas meninas pudessem haver chegado at\u00e9 ali. Fiquei surpreso em pensar como poderiam haver subido, at\u00e9 t\u00e3o distante da entrada do parque, a p\u00e9 e descal\u00e7as.<\/p>\n<p>De repente, todas pararam a brincadeira e voltaram-se para mim, me encarando. Foi quando, atr\u00e1s de mim, notei a figura de uma mulher alta, magra, vestida de forma t\u00e3o anacr\u00f4nica quanto as meninas, com um vestido comprido e de um cinza estranho, desagrad\u00e1vel, apesar de sua express\u00e3o de bondade. Seus cabelos louros, presos a um coque, encontravam-se em certo desalinho e seus olhos, muito claros, pareciam tristes, ou extremamente exaustos. Dirigindo-se a mim, ela me perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 O senhor estava apreciando o canto de nossas meninas?<\/p>\n<p>A forma g\u00e9lida com que ela falou me arrepiou dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a. Eu respondi:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, estava apenas olhando o movimento. Acho que n\u00e3o estou me sentindo bem, estou tendo um dia muito dif\u00edcil&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Elas tamb\u00e9m \u2013 respondeu-me a mulher \u2013 por isso trouxe-as at\u00e9 aqui. Para se distra\u00edrem um pouco enquanto se desligam das coisas l\u00e1 em baixo. Esta floresta tem uma energia muito boa. Elas vivem numa situa\u00e7\u00e3o complicada, est\u00e3o afastadas de suas fam\u00edlias, passando por uma certa&#8230; perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Achei curiosa a forma como a mulher foi reticente no fim de sua frase. Pensei que, embora eu mesmo estivesse numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, as meninas experimentavam quadro pior. Senti uma compaix\u00e3o inexplic\u00e1vel por elas e perguntei \u00e0 acompanhante:<\/p>\n<p>\u2013 A senhora \u00e9 professora?<\/p>\n<p>\u2013 De certa forma, sim. Fui designada para estar com elas hoje. Ensino e aprendo muito trabalhando assim.<\/p>\n<p>Aquelas meninas e o ambiente que criavam me deixava estranhamente fascinado. Minha cabe\u00e7a, agora esquecida dos acontecimentos da manh\u00e3, come\u00e7ava a latejar e escutava como um zumbido em meus ouvidos. Tive o \u00edmpeto de perguntar se podia fazer algo e onde elas moravam.<\/p>\n<p>\u2013 No momento creio que n\u00e3o haja o que o senhor possa fazer, e agradecemos muito. Elas j\u00e1 n\u00e3o precisam de nada material. Mas o senhor pode ajud\u00e1-las muit\u00edssimo com uma coisa simples de fazer: ora\u00e7\u00e3o. Uma ora\u00e7\u00e3o sincera, vinda do fundo da alma.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acreditava muito em Deus, nem atribu\u00eda efeitos pr\u00e1ticos a ora\u00e7\u00f5es. A f\u00e9 era-me quase uma desconhecida. Por isso insisti:<\/p>\n<p>\u2013 Mas fa\u00e7o quest\u00e3o de prestar algum aux\u00edlio. O que for preciso. Onde posso encontr\u00e1-las?<\/p>\n<p>\u2013 Hoje em dia elas permanecem no Educand\u00e1rio Santa Euf\u00eamia&#8230; \u00c9 um lugar antigo, quase esquecido, mas onde ainda resta um pouco de sil\u00eancio. Sil\u00eancio, \u00e0s vezes, \u00e9 tudo que uma alma ferida precisa para continuar.<\/p>\n<p>Com essa informa\u00e7\u00e3o, eu me dei por satisfeito e, ap\u00f3s alguns minutos mais contemplando a cena, como as meninas haviam voltado para suas brincadeiras, agora dispersas em grupos menores, despedi-me da mulher e voltei para o meu carro, indo embora para casa.<\/p>\n<p>Minha mente retornou aos problemas anteriores e, quando cheguei, nosso pequeno beb\u00ea dormia tranquilamente, enquanto minha esposa, ao lado do bercinho, arrumava algumas roupas rec\u00e9m lavadas para guardar.<\/p>\n<p>Cumprimentei-a com um beijo carinhoso e ela me perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 Tudo bem hoje?<\/p>\n<p>Ao que respondi:<\/p>\n<p>\u2013 Sim! Tudo bem. Enquanto estivermos juntos, nos amando, tudo estar\u00e1 bem. Sempre muito bem.<\/p>\n<p>Nos dias pr\u00f3ximos, a poeira baixou, o caso na empresa foi momentaneamente resolvido com a troca de toda a diretoria, para a qual vieram executivos estrangeiros, e demiss\u00f5es em v\u00e1rios setores foram efetivadas, todas relacionadas aos envolvidos com as falcatruas descobertas. Eu permaneci onde estava, at\u00e9 que, semanas depois, fui chamado para uma reuni\u00e3o na diretoria. Fui apavorado, mas, l\u00e1 chegando, me convidaram para assumir um cargo de diretoria, com significativo aumento de sal\u00e1rio. Tudo ficara bem e ainda melhor.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o esquecera daquela tarde em que vira as meninas na floresta e passei semanas em busca de refer\u00eancias sobre o Educand\u00e1rio Santa Euf\u00eamia, sobre o qual nada achava, at\u00e9 que, pesquisando na internet, descobri men\u00e7\u00f5es a ele, que funcionara at\u00e9 os anos de 1950, num velho casar\u00e3o do bairro do Cosme Velho.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 havia comprado len\u00e7\u00f3is, travesseiros, material de higiene e brinquedos para doar, resolvi ir at\u00e9 l\u00e1 num s\u00e1bado de manh\u00e3, contrariando a possibilidade do local estar desativado.<\/p>\n<p>Encontrei a rua do endere\u00e7o, sem sa\u00edda, com uma guarita na esquina, dessas de vigil\u00e2ncia privada.<\/p>\n<p>Mas, como n\u00e3o identificara o pr\u00e9dio da escola, perguntei ao vigia da guarita se conhecia algum educand\u00e1rio nas imedia\u00e7\u00f5es. Ele me olhou por um instante, surpreso:<\/p>\n<p>\u2013 Educand\u00e1rio? J\u00e1 teve um sim, faz muito tempo&#8230; Ali no fim da rua. Um casar\u00e3o antigo. Dizem que, nos \u00faltimos tempos, s\u00f3 restavam umas poucas meninas e uma preceptora. Depois, nunca mais ouvi falar. Tem gente que jura que, de vez em quando, escuta cantigas vindo l\u00e1 da mata. Mas deve ser s\u00f3 o vento. Ou saudade. Saudade demais&#8230;<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma quarta-feira qualquer, na cidade do Rio de Janeiro. Eu trabalhava numa empresa de tecnologia que prestava servi\u00e7os para o governo. 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