{"id":359008,"date":"2025-08-01T04:00:58","date_gmt":"2025-08-01T07:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=359008"},"modified":"2025-07-22T05:30:42","modified_gmt":"2025-07-22T08:30:42","slug":"a-juventude-o-coral-a-ousadia-e-uma-cancao-de-rita-lee-sob-o-sol-da-velha-igrejaa-juventude-um-coral-uma-ousadia-e-uma-cancao-de-rita-lee-sob-o-sol-da-velha-igrejaa-juventude-um-coral-uma-ousadia-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-juventude-o-coral-a-ousadia-e-uma-cancao-de-rita-lee-sob-o-sol-da-velha-igrejaa-juventude-um-coral-uma-ousadia-e-uma-cancao-de-rita-lee-sob-o-sol-da-velha-igrejaa-juventude-um-coral-uma-ousadia-e\/","title":{"rendered":"A juventude, o coral, a ousadia e uma can\u00e7\u00e3o de Rita Lee sob o sol da velha igreja"},"content":{"rendered":"<p>A recente morte de Rita Lee me fez mergulhar em recorda\u00e7\u00f5es h\u00e1 muito intocadas, e, estando ali, navegar por correntes aleat\u00f3rias das mais vivas e inesquec\u00edveis mem\u00f3rias da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo fim dos anos 60, alguns jovens do meu bairro, todos cat\u00f3licos e frequentadores da matriz de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, formavam o coral que acompanhava as missas de domingo e dias de festa. O grupo, que se renovava de vez em quando, vinha de v\u00e1rios anos antes, sob a reg\u00eancia do padre maestro Nat\u00e9rcio. S\u00f3 que o Padre Nat\u00e9rcio fora promovido a bispo, e partiu para trabalhar em Roma. No seu lugar, em 1968, chegou o Padre Marcos.<\/p>\n<p>O novo p\u00e1roco n\u00e3o sabia nada de m\u00fasica e pens\u00e1vamos at\u00e9 que o grupo seria extinto. Quando o vimos pela primeira vez, ficamos espantados com a sua pouca idade e jovialidade, apesar dos grossos \u00f3culos que usava e o modo com que penteava o cabelo. Levamos a ele a ideia de manter o coral, e n\u00e3o s\u00f3 fomos vivamente apoiados como ele se interessou muito por n\u00f3s, querendo saber como era o regime de ensaios, apresenta\u00e7\u00f5es e repert\u00f3rio. Ao contr\u00e1rio do antigo padre, que n\u00e3o admitia mais do que nossas vozes e o velho \u00f3rg\u00e3o el\u00e9trico da igreja, Padre Marcos logo autorizou que incorpor\u00e1ssemos ao coral duas guitarras el\u00e9tricas, um contrabaixo e a bateria tocada por mim que, at\u00e9 ent\u00e3o, compunha a fileira dos tenores.<\/p>\n<p>Causou uma certa estranheza nos fi\u00e9is como soava diferente o nosso grupo na primeira missa de domingo da qual participamos ap\u00f3s a incorpora\u00e7\u00e3o da banda ao coral. V\u00e1rias foram as reclama\u00e7\u00f5es recebidas pelo Padre Marcos, todas elas prontamente recha\u00e7adas, justificadas no conc\u00edlio de Jo\u00e3o XXIII e na forma de atrair a juventude. E deu certo. Mesmo a garotada do bairro que n\u00e3o frequentava as missas, passou a ir ao menos para dar uma olhadinha em como toc\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Paralelamente, \u00edamos formando uma rela\u00e7\u00e3o completamente nova com aquele p\u00e1roco moderno e comunicativo, de perfil um tanto diferente de seu antecessor. Padre Nat\u00e9rcio fora nota\u00e7\u00e3o em pauta, cada d\u00f3 em seu lugar. Padre Marcos era sol. Ele se empolgava conosco, jovens, e nos dava orienta\u00e7\u00f5es e conselhos como os de um irm\u00e3o mais velho. Incentivava que nos envolv\u00eassemos em atividades na igreja, e, criando o Grupo Cristo Jovem, nos colocava em lugar de destaque em todos os eventos.<\/p>\n<p>Padre Marcos vinha de uma fam\u00edlia rica, tinha muitos irm\u00e3os e dirigia uma Kombi verde e branca com a qual chegou a nos levar em outras igrejas para nos apresentarmos.<\/p>\n<p>Um dia, no alvorecer da d\u00e9cada de 70, por sugest\u00e3o de algu\u00e9m do grupo, meio brincado e meio falando s\u00e9rio, n\u00f3s resolvemos come\u00e7ar a ensaiar uma nova m\u00fasica no coral, com nossa banda. Em princ\u00edpio, era para ficar entre n\u00f3s. A m\u00fasica: \u201cJos\u00e9\u201d, vers\u00e3o de Nara Le\u00e3o rec\u00e9m-lan\u00e7ada por Rita Lee no seu primeiro disco solo, \u201cBuild Up\u201d. Nos versos da letra a hist\u00f3ria de como teria sido tranquila a vida do pai de Jesus se ele tivesse feito tudo diferente do que fez. \u201cOlha o que foi meu bom Jos\u00e9\/ Se apaixonar pela donzela\/ Dentre todas a mais bela\/ De toda a sua Galileia\/ Casar com D\u00e9bora ou com Sara\/ Meu bom Jos\u00e9, voc\u00ea podia\/ E nada disso acontecia\/ Mas voc\u00ea foi amar Maria&#8230;\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou para vir a ideia ousad\u00edssima: toc\u00e1-la numa missa de domingo. De in\u00edcio, descartamos totalmente a possibilidade. Ia dar m&#8230;, com certeza. At\u00e9 que, insuflado por n\u00f3s todos, o tecladista\/organista S\u00e1vio, que acabou sendo meio que nosso maestro ap\u00f3s a partida do antigo padre, foi convencido. Na oportunidade mais pr\u00f3xima, assim que Padre Marcos repetiu o \u201cIde em paz, e que o Senhor vos acompanhe\u201d, n\u00f3s no coro da igreja, mandamos a nossa. Foi com frio na barriga que eu comecei as primeiras notas no prato da bateria e no bumbo: t\u00e1, t\u00e1, dum-dum&#8230; E em seguida soou o \u00f3rg\u00e3o el\u00e9trico de S\u00e1vio, entrando as meninas do coro numa vocaliza\u00e7\u00e3o linda, as duas guitarras e o contrabaixo pesado&#8230;<\/p>\n<p>Foi um sil\u00eancio retumbante na igreja cheia. Ningu\u00e9m se movia do lugar. Da minha posi\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o via, mas o Padre Marcos olhou para cima, incr\u00e9dulo, tirou seus \u00f3culos e p\u00f4s-se a escutar, bem como todos os outros presentes. Algumas senhoras fizeram uma express\u00e3o de espanto e desaprova\u00e7\u00e3o, apertando o senho. Algumas crian\u00e7as e outros jovens, l\u00e1 embaixo, come\u00e7aram a bater palmas discretamente na levada da m\u00fasica. E isso foi contagiando alguns presentes. D\u00f3, mi menor, f\u00e1, d\u00f3, l\u00e1 menor&#8230; e continu\u00e1vamos: \u201cVoc\u00ea podia simplesmente\/ Ser carpinteiro e trabalhar\/ Sem nunca ter que se exilar\/ De se esconder com Maria\/ Meu bom Jos\u00e9 voc\u00ea podia\/ Ter muitos filhos com Maria\/ E teu of\u00edcio ensinar\/ Como teu pai sempre fazia\/ Por que ser\u00e1 meu bom Jos\u00e9\/ Que esse teu pobre filho um dia\/ Andou com estranhas ideias\/ Que fizeram chorar Maria&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ao fim da can\u00e7\u00e3o, pareceu para n\u00f3s a eternidade aquele mil\u00e9simo de tempo entre soarem os \u00faltimos acordes que ainda reverberavam na vasta nave, inundada pela claridade da manh\u00e3, e a manifesta\u00e7\u00e3o do involunt\u00e1rio p\u00fablico para aquela nossa ousadia de experimenta\u00e7\u00e3o musical. E os aplausos vieram. Muitos. Fortes. Inesperados. O sorriso do Padre Marcos expressou naquela hora de depois total aprova\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa atitude. Jamais aquele amigo condenaria a m\u00fasica, o amor, a juventude.<\/p>\n<p>Todos do grupo e os demais que passaram por aquela igreja naquele tempo, guardaram do Padre Marcos a mais favor\u00e1vel impress\u00e3o. Os anos passaram, os interesses mudaram, a m\u00fasica foi substitu\u00edda por obriga\u00e7\u00f5es profissionais, fam\u00edlia, preocupa\u00e7\u00f5es de vida adulta&#8230; E acho que jamais voltei a ver o mundo sob aquela claridade que s\u00f3 a nossa igreja parecia ter quando o sol a acariciava nas missas das manh\u00e3s dominicais.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recente morte de Rita Lee me fez mergulhar em recorda\u00e7\u00f5es h\u00e1 muito intocadas, e, estando ali, navegar por correntes aleat\u00f3rias das mais vivas e inesquec\u00edveis mem\u00f3rias da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. 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