{"id":359144,"date":"2025-08-08T01:39:46","date_gmt":"2025-08-08T04:39:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=359144"},"modified":"2025-07-23T16:48:39","modified_gmt":"2025-07-23T19:48:39","slug":"fazendeiro-encontra-velho-de-feicoes-andinas-que-lhe-faz-uma-revelacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fazendeiro-encontra-velho-de-feicoes-andinas-que-lhe-faz-uma-revelacao\/","title":{"rendered":"Fazendeiro encontra velho de fei\u00e7\u00f5es andinas que lhe faz uma revela\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>\u201cParei aqui, porque devia partir no dia seguinte e, al\u00e9m disso, chegara a hora em que me reclamava outro amo, cujo servi\u00e7o nos absorve diariamente metade do tempo. As obriga\u00e7\u00f5es que nos imp\u00f5e, executamo-las de olhos fechados.\u201d<\/p>\n<p>Marcel Proust, O tempo redescoberto, livro 7 de Em busca do tempo perdido.<\/p>\n<p>Cl\u00f3vis era dono de uma propriedade no Pantanal, n\u00e3o um latif\u00fandio, mas uma fazenda de bom tamanho. Tendo meia d\u00fazia de pe\u00f5es, n\u00e3o fazia, mandava fazer \u2013 mas, no m\u00ednimo uma vez por semana, despertava esgotado, como se tivesse feito esfor\u00e7os f\u00edsicos \u00e0 noite inteira. Havia procurado um m\u00e9dico, que lhe receitou suplementos vitam\u00ednicos, mas n\u00e3o adiantou. O metabolismo dele era assim, e ponto final.<\/p>\n<p>Certo dia, ele visitou os arredores de Corumb\u00e1, para ver umas terras que estavam \u00e0 venda. Ao caminhar pelos campos, deparou-se com um velho de fei\u00e7\u00f5es andinas. O senhor o olhou fixo, depois sorriu e cumprimentou:<\/p>\n<p>&#8211; Buenos d\u00edas, viajero.<\/p>\n<p>\u201cBom dia, viajante\u201d, traduziu Cl\u00f3vis, de imediato. E respondeu cortesmente em bom castelhano, n\u00e3o no portunhol que servia de l\u00edngua franca naquelas paragens.<\/p>\n<p>&#8211; Bu\u00e9n d\u00eda, se\u00f1or.<\/p>\n<p>(A partir desse ponto, os di\u00e1logos aparecer\u00e3o em portugu\u00eas, mais f\u00e1cil para mim e para os leitores.)<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m de andar \u00e0 noite inteira, agora caminha de dia? \u2013 brincou o idoso.<\/p>\n<p>O fazendeiro n\u00e3o gostou da observa\u00e7\u00e3o, mas se manteve cort\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; De noite? N\u00e3o entendi. Por favor, explique, senhor.<\/p>\n<p>O velho aproximou-se, abriu um sorriso amistoso, sentou-se no ch\u00e3o, sinalizou para que Cl\u00f3vis fizesse o mesmo e come\u00e7ou a falar.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 um viajante de sonhos. De vez em quando, deixa seu corpo para visitar outros lugares. Nascem milhares assim, em todos os pa\u00edses, e alguns passam a vida esgotados, sem saber o que lhes acontece. Os pobres n\u00e3o tiveram a sorte de encontrar um mestre de sonhos que os orientasse. Voc\u00ea teve, serei seu mentor, vou ensin\u00e1-lo a transformar em b\u00ean\u00e7\u00e3o aquilo que voc\u00ea at\u00e9 hoje considerou uma maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As instru\u00e7\u00f5es mais complicadas diziam respeito a conservar a lucidez na dimens\u00e3o on\u00edrica. O brasileiro ouviu tudo com aten\u00e7\u00e3o e prometeu realizar os exerc\u00edcios mentais prescritos. Em seguida, o velho lhe descortinou diversas possibilidades oferecidas a um viajante de sonhos.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea pode se tornar um espi\u00e3o regiamente pago, copiando documentos sigilosos de qualquer governo. Ou ser um h\u00e1bil assaltante, capaz de penetrar em qualquer caixa forte. Talvez prefira se transformar em um amante inesquec\u00edvel, visitando mo\u00e7as e esposas guardadas a sete chaves pelos pais ou pelo marido \u2013 e, em um tom mais baixo, acrescentou. \u2013 E pode matar seus inimigos impunemente.<\/p>\n<p>&#8211; Fale mais sobre esse ponto \u2013 murmurou Cl\u00f3vis, pensando em um fazendeiro vizinho, que j\u00e1 se apoderara de parte de suas terras.<\/p>\n<p>&#8211; Os assassinos on\u00edricos costumam utilizar auxiliares, em geral cobras pe\u00e7onhentas, que atacam a v\u00edtima. Depois do crime, \u00e9 muito importante olhar fixo para o bicho e dizer, \u201cAuxiliar valioso, volte para seu lugar na dimens\u00e3o de vig\u00edlia\u201d. Exatamente essas palavras.<\/p>\n<p>O brasileiro prometeu fazer tudo direitinho, agradeceu pelas li\u00e7\u00f5es e se despediu.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 fazenda, tratou de alugar uma casa em uma cidade pr\u00f3xima, para dispor de um \u00e1libi a toda prova. Gravou em sua mente cada detalhe da resid\u00eancia: era o que lhe permitiria voltar \u00e0 casa depois do crime. Praticou todos os exerc\u00edcios ps\u00edquicos para se mover, consciente, na esfera on\u00edrica. Quando se julgou pronto, capturou uma jararaca-do-cerrado e a encerrou em um saco de lona resistente.<\/p>\n<p>Na mesma noite, penetrou no quarto do fazendeiro rival, que dormia. Abriu o saco e lan\u00e7ou a serpente em cima dele. Acordando com a picada, em um reflexo, a v\u00edtima lan\u00e7ou a jararaca para longe \u2013 e esta voou na dire\u00e7\u00e3o de Cl\u00f3vis, picando-o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Apavorado com a ideia de morrer, o agressor s\u00f3 pensou em retornar \u00e0 casa alugada e em seguida buscar ajuda m\u00e9dica. Mas demorou, estava nervoso, o deslocamento n\u00e3o acontecia, o agredido gritava, pedindo aux\u00edlio&#8230; Afinal, conseguiu se transportar, mas esqueceu de encaminhar a serpente para o lugar dela, na dimens\u00e3o de vig\u00edlia. O animal deslizou para algum desv\u00e3o na esfera on\u00edrica, onde se escondeu.<\/p>\n<p>Os dois fazendeiros morreram em locais diferentes, com uma diferen\u00e7a de poucos minutos. A jararaca-do-cerrado, por sua vez, continua no mundo dos sonhos, assustada, enraivecida, \u00e0 espera do pr\u00f3ximo viajante incauto que ouse penetrar no que j\u00e1 considera seus dom\u00ednios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cParei aqui, porque devia partir no dia seguinte e, al\u00e9m disso, chegara a hora em que me reclamava outro amo, cujo servi\u00e7o nos absorve diariamente metade do tempo. As obriga\u00e7\u00f5es que nos imp\u00f5e, executamo-las de olhos fechados.\u201d Marcel Proust, O tempo redescoberto, livro 7 de Em busca do tempo perdido. 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