{"id":359364,"date":"2025-07-27T04:00:39","date_gmt":"2025-07-27T07:00:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=359364"},"modified":"2025-07-26T22:21:36","modified_gmt":"2025-07-27T01:21:36","slug":"vinicius-e-seus-amores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vinicius-e-seus-amores\/","title":{"rendered":"Vin\u00edcius e seus amores que ficaram como marca"},"content":{"rendered":"<p>O retratado de hoje \u00e9 um dos meus poetas favoritos. E como n\u00e3o apreciar esse baluarte, que possui hist\u00f3rias pra l\u00e1 de metro para O Lado B da Literatura? Constante na poesia, Vinicius de Moraes amou demais.<\/p>\n<p>Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, nascido no bairro da G\u00e1vea, no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913, foi poeta, dramaturgo, cantor, compositor, jornalista e diplomata.<\/p>\n<p>Filho de Clodoaldo e Lydia, cedo despertou para a poesia. Seu pai teve um rev\u00e9s econ\u00f4mico e a fam\u00edlia mudou-se para a zona norte, na casa dos av\u00f3s do poeta na Ilha do Governador. Ali, correndo solto pelas praias tranquilas, deitado sobre a areia, a olhar o c\u00e9u noturno, o pequeno infante, sadio e grimpante, apaixonou-se pela vida, e fez dessa paix\u00e3o algo intenso e duradouro. Levou em seu peito um cora\u00e7\u00e3o de menino pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Relatou que, anos depois, j\u00e1 maduro, descobriu um caderno naquela antiga casa, com poemas feitos por seu pai. Os poemas, com aspectos p\u00f3s-parnasianos, surpreenderam-no sobremodo.<\/p>\n<p>Cedo, aos 19 anos, publicou seu primeiro livro, \u201cO Caminho para a Dist\u00e2ncia\u201d, em 1933, pela Schmidt Editora. Fora levado ao editor, o gordo e alto Augusto Frederico Schmidt, por um amigo em comum. Schmidt olhou-o de cima para baixo e disse:<\/p>\n<p>\u2013 Mas \u00e9 uma crian\u00e7a!<\/p>\n<p>Vinicius ficou com os brios feridos, mas confiou os originais a Schmidt, que publicou o livro, inscrevendo-o entre os escritores not\u00e1veis lan\u00e7ados por sua editora de curta exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Entre 1938 e 1939, j\u00e1 graduado em direito, Vinicius esteve na Inglaterra estudando literatura inglesa, em Oxford. A eclos\u00e3o da 2.a Guerra Mundial abreviou sua estada na Europa, para onde voltaria no exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas \u2013 por concurso, em 1943, ingressou no Itamaraty, servindo ao Brasil na Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Estados Unidos e Uruguai.<\/p>\n<p>Foi aposentado compulsoriamente na ditadura, em 1968. Por influ\u00eancia de Figueiredo, ent\u00e3o chefe do temido SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es), a quem, anos depois, perguntaram se ele fizera o dossi\u00ea contra Vinicius, recomendando sua aposentadoria, porque o poeta era comunista, ao que o general respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Comunista nada&#8230; \u00c9 porque ele n\u00e3o trabalhava mesmo. Receb\u00edamos informes de que ele recebia 6 mil d\u00f3lares por m\u00eas e n\u00e3o aparecia na reparti\u00e7\u00e3o, em Montevid\u00e9u. Vivia no Brasil, tocando viol\u00e3o, fazendo show com copo de u\u00edsque na m\u00e3o&#8230; Mandamos brasa e recomendamos demitir.<\/p>\n<p>Em 2010, j\u00e1 anistiado, Vinicius foi simbolicamente reintegrado \u00e0 carreira diplom\u00e1tica, no posto mais alto, Ministro de Primeira Classe.<\/p>\n<p>Vinicius foi homem de muitos amores. Casou-se v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Dizia que a vida sem paix\u00e3o era um copo d\u2019\u00e1gua com pedra de gelo esquecida. Gostava de amar com entrega e escrever sobre isso. Suas esposas \u2014 e foram muitas \u2014 compunham uma esp\u00e9cie de har\u00e9m sentimental, cada uma representando um verso distinto em sua longa can\u00e7\u00e3o existencial. Ao todo, foram nove casamentos, embora Vinicius nunca tenha contado com exatid\u00e3o. Como bom poeta, preferia arredondar:<\/p>\n<p>\u2014 Casei-me umas tantas vezes, todas por amor.<\/p>\n<p>A primeira foi Beatriz Azevedo de Mello, sua colega dos tempos de faculdade. Casamento breve, de juventude, durou o suficiente para deix\u00e1-lo melanc\u00f3lico em sonetos. Depois veio Regina Machado, com quem teve duas filhas e mais sossego por algum tempo. Mas sossego n\u00e3o era sua morada. O amor, para ele, precisava de ru\u00eddo, de pele, de um pouco de abismo.<\/p>\n<p>Veio Lila B\u00f4scoli, atriz, intensa, cuja presen\u00e7a incendiava os ambientes. Durou pouco, como tudo que arde em demasia. Depois, Maria L\u00facia Proen\u00e7a, elegante e culta, tradutora de m\u00e3os delicadas, mas de esp\u00edrito exigente. Ali, Vinicius aprendeu que n\u00e3o basta o poeta saber rimar: tem de saber ouvir tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Nelita Abreu Rocha, filha do jurista Pontes de Miranda, foi um epis\u00f3dio discreto, quase nota de rodap\u00e9. J\u00e1 com Cristina Gurj\u00e3o, m\u00e3e de dois de seus filhos, Vinicius experimentou talvez o que mais se aproximou de uma fam\u00edlia. Mas nem assim sossegou.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que se encantou por Gesse Gessy, atriz e cantora, que se tornaria tamb\u00e9m sua empres\u00e1ria. Os dois viviam entre tapas e beijos (mais beijos, segundo ele). Gesse era intensa como ele, e isso nunca acaba bem. Ou acaba em samba, que era como ele preferia terminar os amores: em compasso bin\u00e1rio, com melodia triste e letra bonita.<\/p>\n<p>Depois, o poeta enamorou-se da pianista Marta Santamaria, uruguaia, refinada, de quem ele dizia que os dedos tocavam tanto o piano quanto sua alma. Viveram bons anos, at\u00e9 que a m\u00fasica entre os dois desafinou.<\/p>\n<p>Por fim, Gilda Mattoso, jornalista, a \u00faltima mulher de sua vida e a que o acompanhou at\u00e9 a morte, em 1980. A ela, Vinicius dedicou serenidade, o pouco que ainda restava depois de tantas noites bo\u00eamias e madrugadas et\u00edlicas. De Gilda, dizia que era mais que amor: era ternura.<\/p>\n<p>Neruda, seu grande amigo, a cada vez que encontrava o Poetinha com uma nova esposa, surpreendia-se, pois uma era sempre mais jovem que a \u00faltima. Um dia, em visita ao s\u00edtio do paisagista Roberto Burle Marx, no Rio, Neruda e Matilde, acompanhados de Vinicius, passavam horas agrad\u00e1veis no local, quando uma menina passa correndo e brincando. O poeta chileno brincou:<\/p>\n<p>\u2014 Matilde, mira, la pr\u00f3xima esposa de Vinicius.<\/p>\n<p>Cada casamento, uma rima. Cada separa\u00e7\u00e3o, uma pausa. E ele, incans\u00e1vel, com seu copo de u\u00edsque na m\u00e3o, dizia:<\/p>\n<p>\u2014 O amor \u00e9 eterno&#8230; enquanto dure.<\/p>\n<p>E, para Vinicius, sempre durava o suficiente para virar poesia.<\/p>\n<p>A vida m\u00faltipla e rica de Vinicius terminou em 9 de julho de 1980, em sua casa na rua Frederico Eyer, 149, casa 3, no mesmo bairro de sua cidade natal.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O retratado de hoje \u00e9 um dos meus poetas favoritos. E como n\u00e3o apreciar esse baluarte, que possui hist\u00f3rias pra l\u00e1 de metro para O Lado B da Literatura? Constante na poesia, Vinicius de Moraes amou demais. 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