{"id":359555,"date":"2025-08-02T04:00:37","date_gmt":"2025-08-02T07:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=359555"},"modified":"2025-08-02T11:07:06","modified_gmt":"2025-08-02T14:07:06","slug":"arvores-sao-atingidas-por-raios-ressaca-de-um-mundo-partidoera-um-tempo-em-que-as-chuvam-vinham-com-mais-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/arvores-sao-atingidas-por-raios-ressaca-de-um-mundo-partidoera-um-tempo-em-que-as-chuvam-vinham-com-mais-forca\/","title":{"rendered":"\u00c1rvores s\u00e3o atingidas por raios: ressaca de um mundo partido"},"content":{"rendered":"<p>Na tempestade, n\u00e3o se abrigue debaixo da \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Essa era uma frase corriqueira na minha inf\u00e2ncia. Naquele tempo, minha casa, em Minas Gerais, ficava ainda mais cercada pelo verde. As chuvas tamb\u00e9m vinham com mais for\u00e7a. Eram, na verdade, quase um ritual: o vento assoviando os telhados, a terra cheirando as narinas, o sinal de alerta dos animais e, \u00e9 claro, o c\u00e9u quadriculado de rel\u00e2mpagos e nuvens beringelas.<\/p>\n<p>Chover, para mim, sempre foi um espet\u00e1culo. Gostava (e ainda gosto) do que via e sentia. Mas houve dois epis\u00f3dios, em datas distintas, que me marcaram de forma intensa: a primeira \u00e1rvore, atingida por um raio, aparentava estar intacta \u00e0 primeira vista, mas morreu poucos meses depois, sem aviso. A segunda, por sua vez, atingida com viol\u00eancia vis\u00edvel, sobreviveu, apesar da cicatriz longa e estreita que riscava seu tronco ao meio, separando-a em dois pares que j\u00e1 n\u00e3o se reconheciam.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, minhas caras e meus caros leitores, \u00e1rvores s\u00e3o atingidas por raios.<\/p>\n<p><strong>Entre a falha e a pot\u00eancia: O Visconde Partido ao Meio e a cis\u00e3o que paralisa<\/strong><\/p>\n<p>O Visconde Partido ao Meio, romance breve de Italo Calvino, foi publicado em 1952.<\/p>\n<p>A narrativa acompanha um nobre italiano, Medardo de Terralba, que, ao ser atingido por uma bala de canh\u00e3o durante a guerra, torna-se fisicamente dividido ao meio. Uma de suas metades, a m\u00e1, \u00e9 que assume a pessoalidade e passa a governar com extrema crueldade e tirania. Mais adiante, o leitor descobre que o outro lado tamb\u00e9m sobreviveu, perambulando em indubit\u00e1vel pureza. No entanto, as duas metades, incapazes de estabelecer la\u00e7os, vagam em extrema solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses fen\u00f4menos da fragmenta\u00e7\u00e3o f\u00edsica simboliza a cis\u00e3o subjetiva e a dificuldade de integrar as contradi\u00e7\u00f5es internas que habitam o ser humano, tema que dialoga com conceitos da psican\u00e1lise, como a integra\u00e7\u00e3o da sombra e a busca pela totalidade do self.<\/p>\n<p><strong>E quando a express\u00e3o liter\u00e1ria viv\u00eancia essa mesma ruptura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>E quando nos encontramos partidos entre a exig\u00eancia da perfei\u00e7\u00e3o e o medo do erro?<\/strong><\/p>\n<p>Ora, hora ou outra, ela vem: a autossabotagem, sorrateira, como um raio. J\u00e1 me vi meses sem escrever, sem motivoaparente. Aqui, talvez, more o perigo: o sil\u00eancio enraizado. Esse sil\u00eancio, que corr\u00f3i internamente, pode sercompreendido como um bloqueio criativo, um fen\u00f4meno amplamente estudado na psicologia da arte e da criatividade,em que o medo e a autocobran\u00e7a impedem a manifesta\u00e7\u00e3o do potencial criativo.<\/p>\n<p>Como uma \u00e1rvore que, livre de ataques vis\u00edveis, foi morrendo por dentro, seu sistema radicular enfraquecido por mazelas ocultas.<\/p>\n<p>Na novela de Italo Calvino, o narrador, uma crian\u00e7a, sobrinho do visconde, imprime \u00e0 trama um tom l\u00fadico que, brilhantemente, esconde a densidade simb\u00f3lica da obra. O escritor constr\u00f3i uma f\u00e1bula sobre a fragmenta\u00e7\u00e3osubjetiva.<\/p>\n<p>Quem sabe, a obra nos revela o peso de querer ser inteiro.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que nenhuma das metades de Medardo \u00e9 plenamente humana. Um lado \u00e9 puramente destrutivo. O outro, t\u00e3o virtuoso, torna-se insuport\u00e1vel. Somente quando as duas se fundem \u00e9 que o personagem retorna \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ser verdadeiramente humano.<\/p>\n<p><strong>Aceitar a imperfei\u00e7\u00e3o como parte da cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Escrever, talvez, seja isso: reconhecer que a verdadeira cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica nasce da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana, <strong>calar-se e revelar, habitar a falha mirando a pot\u00eancia<\/strong>. O escritor, particularmente, assim como o visconde, amadurece entre o que vive e aquilo que deseja nomear. E \u00e9 no desejo de reunir essa dualidade que a escrita se torna infinita.<\/p>\n<p><strong>Aceitar a imperfei\u00e7\u00e3o \u00e9 reconhecer o gesto contradit\u00f3rio, humano e inacabado da escrita. Um processo descrito por diversos te\u00f3ricos da criatividade como pare essencial da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Poema de Mahmud Darwich (1941 &#8211; 2008)<\/strong><\/p>\n<p>Em mar\u00e7o as plantas t\u00eam perfume. \u00c9 quando os elementos se casam. \u201cMar\u00e7o \u00e9 o mais<\/p>\n<p>duro dos meses\u201d e o mais libidinoso. Que espada atravessa meus solu\u00e7os e meus<\/p>\n<p>suspiros e n\u00e3o se quebra? Esse \u00e9 o meu abra\u00e7o agr\u00edcola no apogeu do amor. \u00c9 como eu<\/p>\n<p>saio para a vida.<\/p>\n<p>Enrolem-se, plantas, e juntem-se \u00e0 intifada do meu corpo e \u00e0 volta do sonho ao meu<\/p>\n<p>corpo.<\/p>\n<p>A terra explodir\u00e1 enquanto confirmo esse grito contido \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o e \u00e0 timidez campesina.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o chegamos \u00e0 obsess\u00e3o das mem\u00f3rias, e as plantas crescem em n\u00f3s brotando<\/p>\n<p>em todas as dire\u00e7\u00f5es. \u00c9 como crescem as lembran\u00e7as. Chamo de lembran\u00e7a minha<\/p>\n<p>subida no cinamomo*.<\/p>\n<p>Vi uma menina \u00e0 beira do mar h\u00e1 30 anos e disse: Eu sou a onda,<\/p>\n<p>e ela se afastou na lembran\u00e7a. Vi dois m\u00e1rtires escutando o mar: Acre vem com a onda.<\/p>\n<p>Acre vai com a onda. Os dois se afastam na lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u1e2aad\u012bja inclinou-se em dire\u00e7\u00e3o ao orvalho, e eu me queimei. \u1e2aad\u012bja! N\u00e3o feche a porta!<\/p>\n<p>Que os povos entrar\u00e3o neste livro e o sol de Jeric\u00f3 se esconde sem cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00e3o de profetas&#8230; seja inteira!<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00e3o de semeadores&#8230; seja inteira!<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00e3o de m\u00e1rtires&#8230; seja inteira!<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00e3o de refugiados&#8230; seja inteira!<\/p>\n<p>Cada caminho das montanhas \u00e9 uma extens\u00e3o desse canto.<\/p>\n<p><strong>Todas as can\u00e7\u00f5es em voc\u00ea s\u00e3o extens\u00f5es de uma oliveira que me envolve.<\/strong><\/p>\n<p>*Esp\u00e9cie de \u00e1rvore conhecida como Amargoseira.<\/p>\n<p>CHARETI, Alexandre Facuri. Folhas dispersas das oliveiras: da poesia de Mahmud Darwich e Jabra Ibrahim Jabra. Cria\u00e7\u00e3o &amp; Cr\u00edtica, S\u00e3o Paulo, [s. n.], p. [19\u201329], ago. 2020. Dispon\u00edvel em: http:\/\/revistas.usp.br\/criacaoecritica. Acesso em: 13 maio 2025.<\/p>\n<p>O poema refor\u00e7a a ideia de inteireza, de for\u00e7a e de mem\u00f3ria que crescem mesmo diante das fragmenta\u00e7\u00f5es e das lutas, dialogando diretamente com a tem\u00e1tica da imperfei\u00e7\u00e3o e da busca pela completude, como na obra de Calvino.<\/p>\n<p>Em meio ao sofrimento humano, \u00e0s guerras e \u00e0s divis\u00f5es que marcam nossa hist\u00f3ria, as \u00e1rvores permanecem como testemunhas silenciosas, carregando em suas cicatrizes a mem\u00f3ria das dores coletivas, e nos lembram da urg\u00eancia de cicatrizar nossas pr\u00f3prias feridas internas e sociais.<\/p>\n<p>Entre as feridas abertas do nosso tempo, est\u00e1 a Palestina. Terra de profetas e m\u00e1rtires, como canta Mahmud Darwich, \u00e9 tamb\u00e9m territ\u00f3rio de dor e de resist\u00eancia po\u00e9tica. Assim como a \u00e1rvores atingida pelo raio, sua hist\u00f3ria \u00e9 transpassada por cortes profundos, mas tamb\u00e9m por ra\u00edzes que insistem crescer, mesmo sob escombros.<\/p>\n<p>Que possamos aprender a ouvir a natureza com novos ouvidos, reconhecendo nela um saber que a linguagem humana muitas vezes perdeu.<\/p>\n<p><strong>\u201cAs \u00e1rvores sabem linguagens que desaprendemos\u201d<\/strong> (Manoel de Barros).<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><br \/>\n<strong>Sarah Munck, mineira de Juiz de Fora, professora do IF-Sudeste, escreve no Substack sarahmunck.substack.com, e \u00e9 autora do livro de poemas \u201cO Diagn\u00f3stico do Espelho\u201d, dispon\u00edvel aqui: https:\/\/mondru.com\/produto\/o-diagnostico-doespelho\/?srsltid=AfmBOoosuyBea-zGNuM0gkMocZRgrHmNos8rpReWGzkaafAEVKXr6Y2G)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na tempestade, n\u00e3o se abrigue debaixo da \u00e1rvore. 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